Em Curitiba, as cores ganharam um novo significado com a pandemia de covid-19. Bandeiras vermelha e laranja, prorrogada por mais uma semana na última sexta-feira (18), significam sinal de alerta. É similar ao que ocorre em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), onde os pacientes são classificados por cores, de acordo com a gravidade e a urgência de cada caso. Aqueles com pulseira vermelha ou laranja necessitam de atendimento rápido. No paralelo com o ambiente urbano, é como dizer que a cidade está doente e precisa da atenção máxima de toda a população para que seu quadro não se agrave.

Na prática, porém, a classificação colorida indica uma série de alterações para a rede de estabelecimentos comerciais e de serviços. Para os empresários e comerciantes, isso implica em mudanças de horários, remanejamento do número de funcionários e na estrutura logística de cada operação.

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Para a população em geral, além do impacto provocado pela pandemia, a adaptação constante às mudanças vem causando transtornos em diversas áreas. E tudo indica que enquanto não existir uma vacina ou medida eficiente no combate ao novo coronavírus, o ritmo será esse. A secretária municipal da Saúde de Curitiba, Márcia Huçulak, diz que apesar de todo o conhecimento adquirido desde o início da pandemia, ainda há dificuldades para se fazer previsões a médio e longo prazos. “Acreditamos que o pico da doença já passou e que estamos caminhando para um cenário mais tranquilo, mas não é possível afirmar como o vírus vai se comportar nos próximos meses”, salienta.

Vida real

Para o cidadão, tarefas simples como ir à feira em Curitiba ou ao açougue passaram a exigir planejamento e informações básicas sobre dias e horários de funcionamento. A psicóloga Thais Ribas explica que a pandemia não deu o tempo necessário para que a vida das pessoas e em sociedade pudesse se organizar adequadamente. “As mudanças vieram de todos os lados. E quando falamos em adaptação, falamos na necessidade de o organismo se organizar e se encontrar num estado de normalidade novamente. Só que isso leva tempo e com a pandemia não tivemos escolha”, observa a psicóloga.

Para Mariana Rigotto, especialista em Recursos Humanos, o vaivém das regras causou um problema na dinâmica familiar. Mariana vive com a filha, Júlia, de 7 anos, e desde que as regras se tornaram mais rigorosas, ela se viu impedida de frequentar o supermercado pelo simples fato de não poder levar a menina. “Em um dos supermercados, a funcionária sugeriu que eu deixasse minha filha no espaço externo, perto de onde deixam os cachorros. Agora ela não quer mais sair de casa”, relata.

Mariana, que afirma ter cumprido à risca as regras de isolamento, conta que durante muito tempo recorreu ao delivery para abastecer sua despensa, mas diz sentir falta de poder escolher pessoalmente os produtos. “Uma coisa é fazer compras pela internet eventualmente. Outra, bem diferente, é ficar seis meses sem poder escolher o tomate ou conferir as promoções no supermercado. Só posso fazer isso quando alguém se dispõe a cuidar da Júlia para mim”, analisa.

Nos supermercados, há ainda outras questões polêmicas e que envolvem desde a procura exagerada por alguns itens – como foi o caso do papel higiênico logo nos primeiros dias da quarentena – à elevação dos preços de alguns produtos como arroz e outros itens da sexta básica. Em períodos de bandeira laranja, que determina o fechamento das lojas aos domingos, o movimento aquece aos sábados. “A experiência com as últimas restrições mostra que a limitação para os serviços essenciais, como os supermercados, gera tumultos e aglomerações, principalmente na véspera e no dia posterior ao fechamento”, afirma o superintendente da Associação Paranaense de Supermercados (Apras), Valmor Rovaris.

Essencial ou não?

Foto: Arquivo/Marcelo Andrade/Gazeta do Povo.

O presidente da Associação Comercial do Paraná (ACP), Camilo Turmina, no entanto, diz que a divisão dos serviços entre essenciais e não-essenciais acabou resultando na criação de uma inflação em cima de tudo o que foi classificado como essencial. Em contrapartida, setores não essenciais “foram rifados”, segundo ele. “O não-essencial foi o grande perdedor desse período. As butiques, os pequenos comércios, pequenos lojistas”, pontua, destacando que as pessoas estão adiando seus projetos de consumo por conta da instabilidade do cenário.

A indefinição e a imprevisibilidade prejudicaram principalmente os comerciantes que tinham operações nos shoppings, que permaneceram fechados por mais de dois meses seguidos. Segundo Carolina Assis, presidente interina do Sindicato dos Lojistas do Comércio Estabelecidos nos Shopping Centers de Curitiba (SindiShopping), boa parte dos comerciantes recorreu às medidas governamentais para evitar demissões. Mas o abre e fecha sem programação interferiu inclusive nas questões trabalhistas. “Muitos optaram pela suspensão dos contratos de trabalho. Só que, para chamar os colaboradores de volta, era necessário respeitar o prazo de 48 horas. Foi muito difícil fazer um cronograma. Ninguém sabia ao certo a data de reabertura e, quando estava tudo caminhando bem, a ordem era fechar novamente”, desabafa.

Carolina afirma que hoje grande parte dos lojistas está endividada, mas trabalhando na expectativa de recuperar os prejuízos em datas como o Dia das Crianças e o Natal. A gerente de marketing do Shopping Jardim das Américas, Daniella Soni, comenta que todos os lojistas sentiram o impacto no período de fechamento e o recurso foi recorrer à criatividade para manter as vendas, a partir do uso das redes sociais e outras plataformas. “Drive thru e delivery são algumas tendências que vieram para ficar”, analisa. No Dia dos Pais, por exemplo, shoppings de Curitiba investiram no sistema drive thru para entrega das compras.

Novas regras

Mesmo quem tem loja fora de shopping sentiu o efeito das mudanças. A comerciante Patrycia Coelho e o marido, Sandro Ghignone, administram juntos duas lojas, a Guadá Authentic, localizada no Terminal Guadalupe, no Centro de Curitiba, e a Revistaria Ghignone, dentro da rodoferroviária.

O movimento, segundo Patrycia, vem oscilando muito e não existe mais dia bom ou ruim para as vendas, como ocorria nos dias de pagamento. Na loja da rodoviária, Patrycia salienta que o movimento depende da circulação de passageiros, que ainda está abaixo do normal. “O comércio não vai ser como era antes, mas ainda não firmou um padrão. Está sendo muito desgastante, não só por causa da queda no movimento, mas em função das regras, que mudam toda hora”, destaca.

A artesã Marta Terezinha Giehl, que há 17 anos comercializa vasos decorados e peças em MDF na tradicional Feirinha do Largo da Ordem, conta que levou um susto quando a feira foi interrompida em março. Sua preocupação eram as contas e a própria subsistência, já que essa era sua única fonte de renda.

Para ela, o site da Feirinha, criado pela Prefeitura para ajudar os expositores a comercializar seus produtos, mostrou que muito mais do que expor os produtos no ambiente digital, é necessário contar com uma estrutura logística por trás, o que nem sempre é viável para pequenos comerciantes como ela, tanto que muitos deles fizeram protestos pedindo a retomada da feira, o que aconteceu dias depois.

Marta recebeu poucas encomendas pelo canal e algumas com valores muito baixo que não compensavam o custo da entrega. “A maioria dos pedidos que recebi nesse período veio de pessoas que já conheciam o meu trabalho ou porque simplesmente queriam me ajudar. E isso foi maravilhoso”, afirma. Para ela, ainda vai levar tempo para os frequentadores assimilarem a mudança nas datas da Feirinha – com parte dos expositores aos sábados e outra aos domingos.

Gastronomia

Foto: Pixabay

No setor de gastronomia, além do manejo das equipes, há um outro tipo de planejamento fundamental para evitar perdas: os estoques de insumos, como comidas e bebidas. Para Nelson Goulart, presidente da Associação dos Bares e Restaurantes, seção Paraná (Abrasel-PR), o grande desafio é a falta de critérios claros que afeta o segmento. “Por que o cidadão pode pegar um ônibus lotado, sem nenhum controle de higiene ou regras de distanciamento e não pode ir a um restaurante aos domingos, onde todas essas exigências são seguidas?”, questiona. De acordo com ele, dos cerca de 12 mil estabelecimentos de alimentação associados à Abrasel em Curitiba, mais de 3 mil encerraram suas atividades desde o início da pandemia.

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O empresário João Lellis, da Lellis Trattoria, lamenta as inúmeras alterações e a instabilidade enfrentada pelo setor nos últimos meses. Para ele, o resultado se traduz em dívidas, queda no movimento e insegurança generalizada, inclusive dos clientes, que nunca têm certeza se o restaurante está aberto. “Nossos músicos, que recebem por diárias, estão passando necessidades. Fico muito preocupado com as pessoas que dependem do trabalho para sobreviver”, desabafa Lellis.

O restaurante peruano QCeviche Batel, instalado dentro do Novotel Curitiba, também ficou vulnerável às mudanças. “Somos um restaurante independente, localizado dentro de um hotel. É difícil explicar para os clientes que podemos atender aos hóspedes no salão, mas não podemos atender ao público externo”, pontua a gerente do estabelecimento, Marina Beal Bordin, que não pode sequer mexer na equipe porque é a mesma que serve o café da manhã do hotel.

Questões jurídicas

O advogado Cristiano José Baratto, que atua nas áreas empresarial e trabalhista, explica que o Programa Emergencial de Manutenção de Emprego e Renda no período Covid-19 fixa um prazo mínimo de dois dias úteis para que a empresa comunique ao empregado sobre as alterações na relação do trabalho.

Segundo ele, caso a empresa tenha que mudar sua programação em um período menor que o pactuado com sua equipe, por uma determinação de paralisação da Prefeitura, por exemplo, deverá arcar com os custos trabalhistas. “Mesmo a legislação sendo flexibilizada neste período de pandemia, o empresário de atividades não essenciais vem sofrendo grande impacto pela impossibilidade de se planejar. Isso ocorre em função da extensão do tempo do isolamento social e das medidas de contenção do vírus. E assim é ele quem acaba tendo que suportar todos os encargos desse descompasso”, analisa o advogado.

Bem-estar

Foto: Lineu Filho/Tribuna do Paraná.

Academias de ginástica, natação, artes marciais e similares também sentiram profundamente os efeitos provocados pela pandemia. Depois de ficarem mais de 120 dias consecutivos com as portas fechadas, esses estabelecimentos foram autorizados a reabrir. Porém, pouco tempo depois tiveram que suspender as atividades novamente. O gerente da Cia. Athletica Curitiba, Luiz Otávio Almeida, conta que foram feitas diversas adaptações internas para adequar a estrutura da academia às exigências sanitárias.

Almeida afirma que dos 1,5 mil alunos, apenas 30% já voltaram a frequentar a academia. Aulas coletivas e espaços destinados às crianças permanecem fechados, assim como o uso dos vestiários – que por enquanto servem apenas para guardar os pertences dos frequentadores. “Estamos num malabarismo constante”, comenta o gerente, que já usou alternativas como a antecipação de férias e as medidas oferecidas pelo governo para evitar demissões na equipe.

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Para o educador físico Marcos Junior, o que poderia ser um momento de crise serviu para colocar em prática projetos que ainda estavam no papel e que incluíam justamente aulas remotas para estimular as pessoas a saírem do sedentarismo. E os atendimentos como personal trainer passaram a ser feitos por videochamada. Além disso, Marcos Junior adaptou ao ambiente virtual ações que já vinha desenvolvendo presencialmente, como o programa de emagrecimento online, com aulas de treinamento funcional, e o grupo de corrida para iniciantes. “Alguns não se adaptaram às aulas remotas. Em contrapartida, a procura pelos programas online cresceu 60%”, comenta.

Ensino

Quando voltarem, escolas seguirão protocolos de combate ao coronavírus. Foto: Gerson Klaina / Tribuna do Paraná

Se para alguns as aulas remotas são sinônimo de sucesso, para a educação básica essa novidade representou altos investimentos e resultados ainda desconhecidos. “O online é muito diferente do presencial. A perda pedagógica é muito grande”, analisa a presidente do Sindicato das Escolas Particulares (Sinepe), Esther Cristina Pereira.

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Tanto que desde março o Sinepe vem se articulando na tentativa de impulsionar a retomada das aulas presenciais na rede privada. Esther afirma que a rede privada está preparada para isso, seguindo todos os protocolos exigidos pelas autoridades sanitárias.

Algumas cidades do Paraná já iniciaram esse processo, como é o caso de Cascavel. Em Curitiba, Esther fala que falta apenas o aval da Prefeitura, que chegou a liberar atividades extracurriculares, mas depois voltou atrás. Por enquanto, apenas algumas atividades extracurriculares chegaram a ser autorizadas – mas acabaram tendo essa volta adiada novamente. “Está tudo aberto, mas a escola é que está carregando o peso da disseminação da doença”, critica.

Entretenimento

Sete mil carros já passaram pelo Planeta Drive-in, localizado na Pedreira Paulo Leminski. Foto: Gabriel Miranda.

Atrações de lazer e entretenimento estão sem poder operar em Curitiba desde meados de março deste ano. Cinemas, teatros, casas de show, espaços de festas são algumas das atividades que ainda estão suspensas devido às chances de aglomeração e ao risco de transmissão do vírus. Em outros estados essas atividades estão sendo liberadas gradativamente.

Diante desse cenário, os drive-ins – os cinemas ao ar livre muito populares nas décadas de 1950 e 1960, principalmente nos Estados Unidos – ressurgiram em várias cidades brasileiras.

Em Curitiba e Região Metropolitana espaços como o Planeta Drive-in, na Pedreira Paulo Leminski e em Pinhais, e o Cine Drive In Família Madalosso, em Santa Felicidade, conquistaram o público rapidamente.

Filmes clássicos, animações e tradicionais sucessos do cinema são transmitidos em um grande telão e os expectadores acompanham tudo de dentro do carro. O áudio é sintonizado no rádio do veículo. Ainda assim, essas iniciativas tiveram suspensões temporárias devido ao crescimento no número de casos de coronavírus na cidade e a programação está sujeita às alterações determinadas pelas bandeiras sanitárias.

Transporte coletivo

Foto: Luiz Costa /SMCS.

De acordo com a Urbs, os ônibus em Curitiba só podem circular com 50% de ocupação. Nos terminais, as principais linhas saem com ocupação máxima de 30% da capacidade. A Urbs informa que a frota está operando com 80% da capacidade – algumas linhas chegam a 100% – e o movimento está 45% do normal. Pelas estatísticas, dos cerca de 750 mil usuários diários do transporte coletivo antes da pandemia, atualmente a média diária gira em torno de 330 mil passageiros.

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Nos terminais, foram colocadas marcações de distanciamento para os passageiros nas filas, além da obrigatoriedade do uso de máscara. Também foram disponibilizados termômetros para que a população possa conferir a temperatura antes de entrar nos ônibus. Além disso, uma higienização com a ajuda do Exército foi colocada em prática.