Desde os primeiros casos de coronavírus, que apareceram em São Paulo, até hoje, o entendimento e as informações a respeito da doença mudaram e muito. De fevereiro para cá, os profissionais da área médica puderam entender melhor os sintomas, como a doença se manifesta e como ela vai acometendo os pacientes. No Paraná, 1.467 pessoas perderam a luta contra a covid-19 e morreram em decorrência do vírus. Em Curitiba, são 404 mortes até o boletim desta quarta-feira (22).

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Embora o aumento no número de mortes preocupe a todos, há também um outro lado da doença que vem chamando a atenção: as sequelas provocadas entre os pacientes que venceram o coronavírus. Para o médico pneumologista membro da Sociedade Brasileira de Pneumologia, Bruno Baldi, pacientes que venceram a doença começaram a apresentar sequelas pulmonares que estão se estendendo a um médio e longo prazo.

“Do ponto de vista pulmonar, há uma redução na capacidade dos pulmões, com casos de falta de ar meses depois da infecção por coronavírus. Há alterações de fibrose no pulmão – que são cicatrizes – em graus variados. Isso seguramente compromete a qualidade de vida. Essa fibrose leva a perda da capacidade de ação do pulmão, da oxigenação”, avalia o médico. 

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Como a covid-19 ainda é relativamente nova – afinal, o novo coronavírus foi identificado em dezembro de 2019 – os pacientes que desenvolveram a forma grave e se recuperaram da doença ainda estão sendo avaliados. Com o passar dos meses, os médicos perceberam que não só os pulmões de parte dos pacientes que venceram a doença ficaram comprometidos, mas também a musculatura do corpo, os rins, coração, além dos casos de trombose e de sequelas neurológicas. 

“O que a gente tem visto que é mais intenso, que após um período prolongado de intubação, o uso de corticóides e a própria ação do vírus na musculatura do corpo vem causando uma sequela motora”, explica o médico. A alteração de força muscular, de membros, braços e pernas, chega a ser tão significativa que em alguns casos o paciente precisa realizar sessões de fisioterapia para reabilitação.

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Períodos longos de internação

Com aproximadamente 250 pacientes graves acometidos por coronavírus, o pneumologista Bruno Baldi relata que as internações por covid-19 têm sido bem prolongadas com tempo de permanência em torno de 10 dias. E essa característica da doença tem feito médicos aprenderem com a paciência. “Não adianta brigar com o vírus e ter ansiedade para tentar resolver rápido. A recuperação é lenta, é preciso dar tempo para o organismo reagir diante da presença do vírus”, explica. 

O período de internação é longo, mas a piora costuma ser muito rápida. Segundo o pneumologista, às vezes um indivíduo apresenta piora em menos de 24 horas. “A pessoa pode apresentar uma resposta inflamatória absurda e chegar a ser intubado no mesmo dia”, ressalta o especialista. 

E o que faz algumas pessoas apresentarem piora tão rapidamente? A resposta ainda é uma incógnita entre os médicos. “A gente sabe que uma parte dessas pessoas desenvolvem a forma grave porque apresentam doenças associadas, como hipertensão. Mas há estudos que estão associando alterações genéticas e sanguíneas”, esclarece. Recentemente, casos graves também têm acometido jovens e quem não apresentava doenças pré-existentes. 

Traumas psíquicos

O pneumologista ressalta também a importância de se cuidar da saúde psicológica durante a pandemia. Pacientes recuperados e que já tiveram alta tem apresentado insegurança, depressão e ansiedade. “É uma outra questão que precisa ser analisada e que também altera a qualidade de vida, as pessoas ficam deprimidas, inseguras, tem medo de ficarem sozinhas”, alerta. Depois da alta, o apoio da família e amigos é essencial para lidar com a situação. Corpo e mente precisam de recuperação.