Para proteger a si mesmo e os demais da covid-19, muitos se fecharam em suas casas nos últimos quatro meses. Embora a sensação coletiva seja de cansaço (e muitas pessoas estejam abandonando o isolamento), há quem tema o momento de deixar o ninho e voltar à rotina – ainda que seja naquilo que estão chamando de “novo normal”.

Esse medo pode ser momentâneo, ou se tornar uma aversão quase irracional da ideia de sair de casa, conhecida como a “síndrome da cabana”. O termo não é uma doença descrita na literatura médica, segundo explica Ana Paula Carvalho, psiquiatra voluntária do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), mas uma expressão que remete a cenas prováveis em um futuro, talvez, próximo.

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“As pessoas precisaram de um tempo para se adaptar a uma nova rotina [quando a pandemia começou] e, de repente, agora vamos ter que nos adaptar a outra rotina, que não é igual àquela que tínhamos antes e nem igual a essa que vivemos agora. Isso demanda mais energia do cérebro e é mais um fator a gerar estresse”, explica a especialista, que estudou a Medicina de Estilo de Vida na Harvard Medical School.

Entre essas pessoas, há aquelas tão bem adaptadas ao momento que não desejam repensar as práticas cotidianas. “Há pessoas que passaram a ter uma rotina mais slow [vagarosa], que organizaram a vida de um jeito mais tranquilo, com mais tempo para família, que conseguiram priorizar o que era importante e não querem pegar mais trânsito para o trabalho, por exemplo. Elas não querem voltar”, comenta.

Incertezas favorecem o medo

Além da energia em repensar a rotina, as incertezas em relação à doença também colaboram com o medo de sair. Embora medicamentos e vacinas estejam em estudos e em desenvolvimento, há muita dúvida e novidades da Covid-19 surgem a cada semana, como sintomas e sequelas diferentes.

“Hoje a cidade pode estar de um jeito e, amanhã, pode fechar tudo de novo. Não sabemos. A questão econômica também afeta muitas pessoas. Esse é outro aspecto que traz muito sofrimento”, cita a psiquiatra.

E, em certos casos, o cansaço da nova realidade também pode atuar como um fator negativo – tanto para o momento atual quanto futuro. “O que vemos na prática hoje são pessoas que não querem sair porque terão tanta coisa para fazer quando voltarem: lavar tudo que trouxerem para casa, lavar as roupas, praticamente tomar banho com as compras. Tudo isso gera cansaço, sobrecarga, porque a maior parte de nós não fazia essas coisas que agora fazemos”, completa.

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O que podemos fazer?

Antes que chegue o momento de recriar – novamente – a rotina, a médica psiquiatra lista algumas atitudes que podem ser tomadas, a fim de amenizar esse processo, e torná-lo mais fácil de ser enfrentado. Por exemplo:

Entenda: você não tem o controle de tudo

“Eu tenho controle se as pessoas próximas a mim vão usar máscara? Se o comércio vai fechar ou vai abrir? Não. Então, não pensa nisso. Viva um dia de cada vez e liste aquilo que você tem controle. A sua máscara, a sua lista de mercado. Do que nós temos controle, temos como fazer algo a respeito”, sintetiza a psiquiatra.
Estabeleça prioridades

“Pense no que você vai colocar o seu tempo, dinheiro e energia. Você não precisa dar atenção, o tempo todo, a todas as mídias, ou a todas as pessoas. Você precisa priorizar”, diz.

Cérebro gosta de rotinas

Ao criar uma rotina, o cérebro gasta menos energia, porque é uma tarefa a menos para ele resolver. “Para o cérebro, é como se você trouxesse uma normalidade, apesar de a coisa não estar normal. Mesmo assim, você mantém o mesmo horário para dormir, para tomar café, para fazer atividade física”, explica a psiquiatra.

Pense no que você tem medo

Imaginar as questões que geram medo, e também as soluções, ajuda para que, na hora que isso acontecer, ela estar resolvida. “Se eu tenho medo de ir ao mercado ou shopping e estar cheio, diante dessa situação eu penso que posso voltar para casa, dar uma caminhada em outro lugar e retornar em outro momento. O importante é entender o que te angustia, o que te preocupa”, explica.

Cuidado com as “soluções”

É comum quem lide com o estresse com hábitos que podem, futuramente, causar mais prejuízo. Por exemplo, exagerar na bebida alcoólica ou aumentar o consumo de cigarros. “Uma coisa que as pessoas precisam manejar é a própria saúde. Cuidar para que fiquem bem ao lidarem com o estresse. Não significa ser fitness, mas fazer pelo menos o mínimo de exercícios físicos e não comer em frente à televisão, ou enquanto dedica a atenção a outra coisa”, sugere a especialista.

“Tem uma frase de um amigo psiquiatra que diz: ‘as emoções positivas sussurram, e as negativas gritam’. É só pensar em um dia que aconteceu algo ruim. Isso estraga o dia. Mas se você está vivo, saudável, tem um lugar para tomar um banho quente, tudo isso são coisas positivas. É aquela ideia do diário da gratidão, ou das coisas legais. Todo dia pensar em algo de bom que aconteceu é uma espécie de treino para o cérebro. Não é ser ‘Poliana’, os problemas não são negados, mas existem coisas boas que às vezes nos esquecemos de pensar”, finaliza Ana Paula.