Se era difícil estabelecer os limites entre o trabalho e a casa em um mundo pré-pandemia, a situação ficou mais complexa quando os dois ambientes tornaram-se um só e muitos brasileiros tiveram de se adaptar ao modelo home office.
Na ânsia por manter a produtividade, aumentam-se as tarefas e as cobranças, e nem sempre o trabalhador percebe o risco para a saúde a longo prazo, especialmente com a síndrome de burnout.

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Relacionada ao trabalho, a síndrome reúne uma série de sintomas físicos e psicológicos. Por serem tão recorrentes, a pessoa pode não reconhecê-los em um primeiro momento e acaba se acostumando com a sensação de cansaço constante, a alteração no humor e nos hábitos de sono, infecções de repetição, sentimentos de fracasso, insegurança e incompetência, entre outros.

“O burnout seria o estresse do estresse, porque é o acúmulo de fatores que levam ao esgotamento. Na pandemia, o trabalho está além do processo normal, porque você não tem mais horários definidos. Se antes precisava se deslocar para ir ao trabalho, agora a reunião das 8 horas já se junta com a das 9h e depois com a das 10h, porque são todas online. As pessoas tentam otimizar o tempo e nisso colocam mais pressão”, explica Raphael Henrique Castanho Di Lascio, psicólogo clínico, organizacional e do trabalho, além de professor universitário.

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A síndrome foi classificada como um fenômeno ocupacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019 e acomete com mais frequência alguns grupos profissionais, como médicos, enfermeiros, professores, policiais e jornalistas, que atuam sob pressão e com grandes responsabilidades. Estudo realizado pela PEBMED mostrou que 83% dos profissionais de saúde na linha de frente do combate à Covid-19, no Brasil, tiveram sintomas de burnout.

Dos primeiros a listarem os sintomas desse esgotamento profissional, estão o psicólogo alemão Herbert Freudenberger e a psicóloga norte-americana Gail North. Eles descrevem os 12 estágios (que não são necessariamente etapas, mas sinais) do burnout:

  • Compulsão em provar o próprio valor;
  • Trabalhar sempre mais, com incapacidade de se desligar;
  • Negligenciar as próprias necessidades;
  • Fugir de conflitos;
  • Valores pessoais são revisados, e o foco está apenas no trabalho;
  • Negar os problemas, como uma crescente intolerância, e perceber os colegas de trabalho como incompetentes, preguiçosos e indisciplinados;
  • Reduzir a vida social;
  • Mudar o comportamento de forma óbvia para família e amigos;
  • Despersonalização, incapacidade de ver a si mesmo como alguém com valor;
  • Vazio interno, que leva a pessoa a comportamentos compulsivos na alimentação, sexo e no uso de drogas;
  • Depressão;
  • Síndrome de burnout, com o colapso físico e mental total.

“Sentir um cansaço muito grande, tanto físico quanto mental, é um dos sintomas do burnout. Outros podem ser físicos, como dores de cabeça frequentes, alteração no apetite, para mais ou para menos, insônia, dificuldade de concentração, com sentimento de fracasso e insegurança. Também pode ter aumento na pressão arterial, dores musculares, problemas gastrointestinais. O pior deles é o sintoma da apatia, que torna a pessoa indiferente e isolada”, complementa Di Lascio.

“Sintomas que você sente, mas ignora”

Durante meses, Carol Miltersteiner, ex-funcionária de uma agência de marketing, teve sintomas que indicavam o início de um esgotamento físico e mental. Dores de garganta recorrentes, que fizeram com que tomasse medicamentos antibióticos durante longo período, e uma dor no peito que não passava (e que ela demorou a perceber) foram alguns dos sinais. Em 2015, teve o primeiro episódio de burnout. O segundo veio dois anos depois.

“Quando eu tive esse segundo episódio, que eu chamo de colapso, não tinha me recuperado do primeiro ainda, e foi muito pior. Demorei dois anos e meio até conseguir retomar algum tipo de rotina de trabalho”, relata.

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Se Carol soubesse mais sobre o burnout antes de ter o primeiro episódio, um alarme poderia ter soado quando ela ficou sabendo, por colegas de trabalho, que seu comportamento havia mudado. “Eu comecei a ficar com pavio muito curto e pessimista. No trabalho me disseram que as pessoas tinham medo de mim, e eu me achava uma flor de pessoa. Estava me tornando outra pessoa por causa desse processo todo do burnout”, diz.

Embora um dos sintomas seja o cansaço, Carol sentia que tinha energia, mas o trabalho não rendia. “Esse é um dos sintomas também. Você não entende mais o que está fazendo, comete erros, o humor muda, a imunidade é afetada. Eu me afastei muito de amigos, só conversava com pessoas do trabalho e só pensava nas tarefas. Mas percebi, pela dor no peito e pelas infecções, que minha saúde estava indo embora e pedi um afastamento temporário da empresa.”

Quando chegou em casa, Carol ficou quase 30 dias sem sair da cama. “São sintomas que você sente, mas ignora, porque acha que são coisas normais. Você pensa que a infecção é de alguma comida, que a dor no peito pode ser outra coisa. Como eu não conhecia ninguém que tinha passado por isso, eu não achava nem mesmo plausível. Tive colega que fez uma cirurgia de vesícula e respondia e-mail do hospital, então eu achava que estava tudo bem”, relata.

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O psicólogo Raphael Di Lascio compara o diagnóstico do burnout à fábula do sapo fervido. “Se você colocar um sapo em uma água fervendo, ele vai pular fora. Mas se você for esquentando a água devagar, ele se acostuma e morre cozido. O burnout é isso, ele vai devagar, levemente esquentando. A pessoa tem que estar realmente atenta para perceber”, descreve.

Carol mudou de rotina, de profissão e de país (do Brasil para a Holanda). Escreveu um livro sobre a própria experiência “Minhas Páginas Matinais: crônicas da Síndrome de Burnout” e se tornou empreendedora. Para ela, voltar às antigas estruturas de trabalho não faz mais sentido. “Eu acho pouco provável voltar a um trabalho mais tradicional. O que funciona para mim, hoje, é ter a possibilidade de fazer os meus horários, ser responsável pelas minhas demandas.”

Tratamento

Uma vez identificados os sintomas, a melhor orientação é que se busque por especialistas na área, como psicólogos, psicoterapeutas ou médicos psiquiatras. Os tratamentos variam, mas podem ser usados medicamentos para sintomas de ansiedade ou depressão que a pessoa venha a desenvolver, além de psicoterapia e mudanças nos hábitos de vida.

Entre as alterações, a condição de trabalho deve ser reavaliada, bem como a alimentação e os exercícios físicos. “Quando você segue o tratamento adequado, você sente que as coisas vão mudando, que os principais sintomas vão reduzindo e consegue se adequar, de novo, ao equilíbrio emocional e fisiológico”, explica o psicólogo Di Lascio.

Responsabilidade também é das empresas

Não se pode falar em uma responsabilidade única quando se trata de burnout. A condição é influenciada por fatores nas esferas do individual, organizacional e social/cultural. Há uma carga da própria pessoa em lidar com o estresse e ter comportamentos workaholics, mas também da empresa em respeitar os limites dos funcionários; além da própria sociedade em que se está inserido.

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“Eu não teria tido burnout se tivesse tido um ambiente de trabalho legal, se estivesse tudo certinho. Quando a pessoa não fala [sobre burnout], se mantém em silêncio, quem ganha são as empresas que se eximem da responsabilidade. O burnout exige que a empresa olhe para dentro e fale: ‘tem algum problema na minha gestão’ e isso é mais difícil do que jogar para o indivíduo”, pontua Carol.

Mariciane Gemin, CEO da S7 consulting, empresa de recrutamento de executivos e soluções voltada para capital humano, concorda. “Dentro das organizações deveria ser mais discutido [o burnout], porque a partir do momento que você tem um ambiente que não é emocionalmente saudável, não é possível desconsiderar esse cenário”, explica.

Segundo ela, a área de Recursos Humanos tem se mostrado mais preocupada a essas questões de saúde mental nos últimos anos, mas para que mudanças de fato aconteçam, é preciso que o tema seja discutido nos altos cargos de liderança. “Para ser efetivo dentro de uma organização, tem que vir de cima para baixo. Se a corporação não oferece um canal, não deixa o espaço aberto, os colaboradores não vão se sentir a vontade, e não é só pelo medo de perder o emprego. É pelo rótulo, pela falta de empatia e julgamento”, explica.

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Há esperanças, porém, de acordo com Mariciane, e elas estão nas próximas gerações. “De certa forma, para a geração mais nova, eles fazem isso com mais naturalidade. Eles trazem com mais liberdade o que eles gostam e o que os incomoda.”

Estar emocionalmente bem no ambiente de trabalho — seja de uma forma presencial, seja no home office — será cada vez mais valorizado pelos profissionais, segundo a especialista. “Temos hoje a questão do assédio moral e uma não tolerância muito maior com isso, independentemente da hierarquia. Há a discussão da questão do respeito bem colocada”, explica.