Não há dúvidas de que a pandemia mudou o comportamento do brasileiro no supermercado. Pesquisa da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) revela que os alimentos mais vendidos na quarentena foram os processados e ultraprocessados.

Os hambúrgueres ficaram em primeiro lugar ( aumento de 283%), logo depois petiscos e empanados (173%), conservas e enlatados (166%) e patês e antepastos (141%). O macarrão instantâneo, o popular miojo, e os salgadinhos também ficaram entre os alimentos mais vendidos, com alta de 68% e 58% respectivamente.

A maior procura por produtos com alto teor de sódio, açúcar e gordura trans preocupa, já que a recomendação de nutricionistas é sempre dar preferência para alimentos in natura. “O guia alimentar para a alimentação brasileira classifica os alimentos em cinco categorias: in natura, minimamente processados, temperos e condimentos, processados e ultraprocessados. Ele fala para que a base da alimentação seja in natura ou de minimamente processados. E que devemos evitar sempre o ultraprocessado”, avalia a nutricionista Flávia Auler. 

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Avaliando a pesquisa da ABComm, é possível notar o brasileiro caminhando na contramão da recomendação de especialistas nesta pandemia, pois o miojão e o hambúrguer de caixinha têm sido escolhas frequentes no supermercado. “Esses alimentos ganharam espaço na pandemia e não foi só na mesa do brasileiro. Estudos mostram isso também fora do país. Acontece por dois motivos: preço e praticidade. E a indústria se aproveitou disso”, comenta a especialista. 

Mesmo entre as pessoas que moram sozinhas, como também em famílias grandes, os industrializados como salgadinhos prontos e refrescos em pó ficaram mais presentes. A escolha, no entanto, pode ter péssimas consequências a longo prazo.

“No produto industrializado, perdem-se nutrientes e adicionam-se produtos químicos. É acrescentado açúcar simples, gordura trans e sódio. A gente faz um paralelo com as doenças do grupo de risco da covid-19: diabéticos, hipertensos e obesos. Não temos um estudo específico sobre isso, mas se a população inteira começou a consumir mais, os grupos de risco podem ter consumido mais também, o que é preocupante” analisa a nutricionista. 

Cesta básica mais cara

O paranaense está assustado com a alta de produtos básicos de alimentação e não é à toa. O Paraná foi o segundo estado brasileiro com maior alta no preço do arroz nos supermercados no mês de agosto, com aumento de 55% em comparação com janeiro e fevereiro desse ano. Outros itens também básicos estão pesando mais no bolso, como o feijão preto, o óleo e a carne.

Consumo de ultraprocessados cresceu muito na pandemia. Foto: Daniel Castellano / Gazeta do Povo / Arquivo

Com arroz e feijão mais caros e ultraprocessados com o preço atrativo, fica mais tentador escolher produtos mais acessíveis ao bolso. “Com o aumento do desemprego e diminuição de renda das famílias, muita gente acabou adotando produtos como o macarrão instantâneo na alimentação”, conta a especialista.

Riquíssimo em sódio e gordura trans, o miojo é considerado um alimento pobre em nutrientes, principalmente para crianças, que são alvos frágeis desse tipo de consumo. 

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A orientação sempre é optar pelo in natura e minimamente processados. Em caso de dúvidas se o produto é saudável ou não, a dica é dar uma olhada no rótulo. “Quanto mais ingredientes tem um produto, mais processado ele é. Um iogurte natural minimamente processado, por exemplo, vai ter em torno de três ingredientes. Mas há tipos de iogurte que tem vários acidulantes, açúcares, extratos de soja. A mesma coisa acontece com leite infantil, que não é saudável se tiver muitos ingredientes. Por isso é importante muita atenção”, orienta a profissional. 

A importância de saber cozinhar

A escolha pelos ultraprocessados reflete também o problema de muitos jovens: o de não saber cozinhar. Enquanto muitos melhoraram as habilidades culinárias na pandemia já que passam mais tempo em casa, há quem parou de comer fora de casa e acabou refém dos semi-prontos.

“Acontece uma pressão da própria indústria, que facilita a alimentação para quem tem não tem tempo. Há também o próprio preconceito de ir para a cozinha. É mais fácil pedir delivery, mais rápido. Mas é necessário prever uma organização de tempo, cozinhar”, comenta a nutricionista. 

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A importância de saber fazer a própria refeição, na avaliação de Flávia Auler, é questão de saúde pública. “Em Portugal existe a disciplina de culinária nas escolas, em que os jovens aprendem a cozinhar. Estar em contato com alimentos faz com que a pessoa fique mais calma, menos ansiosa. O que está acontecendo é que essa geração mais nova não tem habilidade nenhuma e nenhum interesse em cozinhar. Quem cozinha tem mais independência. O ideal seria que todo mundo soubesse cozinhar, pelo menos o básico”, defende.

Fazer a própria comida pode ser algo prazeroso com o tempo. “A nutrição tem batido muito nessa tecla. Se eu não tenho tempo, posso programar meu almoço, fazer marmitinhas saudáveis, procurar receitas novas, saborosas para o paladar. Vale a pena aprender a cozinhar e comer comida de verdade”, finaliza. O momento é de se alimentar bem, de forma saudável e com prazer.