Repensar os hábitos alimentares durante a pandemia pode ser uma boa ideia, desde que isso não signifique adotar dietas muito restritivas. Como se trata de um momento carregado de incertezas, rotinas novas e impacto emocional, restringir demais alguns alimentos, como os doces ou as gorduras, poderia ter efeito contrário e afetar a saúde.

O sistema de defesa do organismo, segundo Patrícia Conter Lara Prehs, nutricionista do hospital Marcelino Champagnat, em Curitiba, seria o primeiro a sofrer os prejuízos. “Se a pessoa restringe a alimentação sem acompanhamento adequado, afeta o sistema imunológico de forma negativa, por não consumir adequadamente tudo que é preciso. Nesta época, fazer uma dieta restritiva não seria algo adequado”, explica.

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Para a nutricionista Luisa Amábile Wolpe Simas, além do impacto fisiológico na delimitação do que a pessoa come ou não, essas amarras também poderiam ser um “incentivo” a grandes deslizes.

“As pessoas acham que uma dieta saudável é, normalmente, restritiva. Mas ela é variável, inclui doces e gorduras, só que no momento certo. Se eu falo para a pessoa que ela não pode comer tal alimento, vou despertar uma ansiedade, e ela vai acabar comendo aquilo. Se eu der opções saudáveis, vai substituir. Quando você impõe, você cria essa ansiedade, que acaba atrapalhando”, detalha a especialista em Nutrição Clínica pela UFPR e sócia da clínica Santorini.

Em um levantamento feito com quase 700 pessoas via formulário digital, a nutricionista percebeu um aumento no número de refeições diárias durante a pandemia. Dos entrevistados, 12,7% das pessoas disseram que, antes da Covid-19, faziam cinco refeições por dia. Durante a pandemia, esse número aumentou para 23,5%.

O motivo para isso recai, segundo Luisa, no estresse e na ansiedade do momento. “Não fomos feitos para vivermos isolados, e podemos até comparar nossa situação a dos animais de zoológico. Eles têm um aumento do cortisol, o hormônio do estresse, que gera irritação, agressividade e também está associado à compulsão alimentar. Quando a pessoa está no trabalho e dá vontade de comer, ela não tem acesso rápido. Em casa, você vai até a geladeira ou pede alguma coisa”, explica a especialista.

Em geral, essas escolhas alimentares durante momentos de estresse e tensão não são as mais saudáveis. “Normalmente não é a maçã ou outra fruta, mas tem uma resposta fisiológica que explica isso. Quando nos sentimos mais tristes, diminuímos a secreção da serotonina, o neurotransmissor do prazer. Então buscamos carboidratos simples, refinados, e açúcares. É uma resposta do próprio organismo”, explica.

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Mantenha a organização pré-pandemia

Antes da pandemia, segundo as especialistas, era natural que as pessoas mantivessem uma organização das refeições, até por uma questão logística. No dia seguinte, não haveria tempo de preparar o almoço antes de ir para o trabalho. Então, montar a marmita à noite, ou pelo menos pensar no que iria comer no outro dia, fazia parte da rotina.

Quem está trabalhando no modelo home office não deveria mudar essa organização – embora pareça que essa tarefa seja mais “fácil” de resolver estando em casa. “Por mais que as pessoas pensem que por estarem em casa não precisam planejar as refeições, como faziam antes, o dia a dia acaba tomando as nossas horas, e o tempo para a alimentação fica cada vez menor. Precisamos planejar, um dia antes, qual será o lanche, o café da manhã, para não sermos tomado pelos industrializados”, destaca a nutricionista Patrícia Prehs.

Cansei de cozinhar

São pelo menos cinco meses de isolamento e de adaptações na rotina. Se no início as refeições saíam com mais criatividade, é comum que, agora, o cansaço de cozinhar (e lavar a louça) surja. Ter o planejamento, nesse momento, é ideal para que a preguiça não impacte na alimentação.

Esse planejar deve incluir, de acordo com as especialistas, até mesmo o momento de descascar as frutas e picar os vegetais. “E é importante ter em mente que estamos fazendo isso para a saúde mesmo. As comidas prontas são fáceis, estão à mão, mas com um planejamento de quais serão as refeições na semana, a pessoa vai ao mercado com a lista certa e evita a compra dos processados. Isso instiga a realmente picar uma fruta, fazer escolhas melhores”, explica a nutricionista Patrícia Prehs.