Surpresa e muito desafio. Essas são as palavras que todo professor definiria o ano letivo de 2020 diante da pandemia de coronavírus. O distanciamento social forçou todos os educadores a se reinventarem, criando novos métodos de ensino.  

Diante dos pais e alunos, eles se tornaram heróis nesse período conturbado – e merecem todas as homenagens nesta quinta-feira (15), Dia do Professor. Não vestiram capa, literalmente, mas usaram fantasias para manter a atenção dos alunos à distância nas aulas on-line, como a professora de educação física Célia Berthier, do Colégio Sion. Para poder prender a atenção dos alunos, ela criou vários personagens nas suas videoaulas: usou peruca, cavanhaque, criou um irmão gêmeo, se fez de vovozinha, de cigana, ninja, pirata e até chinês.

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“Eu tive o desafio da falta de espaço e também de criar brincadeiras usando as coisas que as crianças tinham em casa. Eu fico quebrando a minha cabeça, buscando atividades em que os alunos possam brincar sozinhos. Não posso dar brincadeira com bola, fazer eles correrem dentro do apartamento. Mas posso brincar de pular num pé só, pular corda imaginária, tem muitas outras coisas”, conta a professora Célia.

Professora de educação física Célia Berthier incorporou vários personagens pra manter a atenção dos alunos na pandemia.

No começo foi bem complicado. A professora de educação física precisou enfrentar as dificuldades da tecnologia, recurso que normalmente não é usado nas atividades em quadra. “Moro em apartamento e tem muita criança que mora também. Foi um desafio grande. Inventei brincadeiras com bolinha de papel, bolinha de meia, latinha de alimento, caixa de leite. Já dei até aula com tampa de panela”, revela. 

Isolada desde 21 de março, Célia só saiu de casa seis vezes durante todo o período de pandemia, só para ir ao banco e ao médico. Como tem familiares no grupo de risco, a professora escolheu respeitar rigorosamente a quarentena. “Acredito que têm muitas crianças que estão em casa também. Tem muitos pais trabalhando em casa com horário superpuxado. É importante manter os alunos com o corpo e a mente funcionando”, explica. Para ela, a educação física tem sido fundamental na saúde mental das crianças. 

Professora Célia usou diferentes materiais para dar aulas de educação física. Foto: Gerson Klaina / Tribuna.

As atividades, planejadas para ser um momento lúdico entre os pequenos, acabou também chamando a atenção dos pais. Muitos aproveitam as aulas para manter o corpo em movimento também. “Eu sempre coloco música no final da aula e vejo pai dançando, mãe dançando. E eles estão ali para ajudar nas dificuldades. Como eu não posso estar perto para ajudar, as mães têm feito esse papel. Tem sido bem importante, nos aproximou mais da família”, conta, entusiasmada. 

Ajuda que vem da família toda

A repentina mudança do ensino presencial para o remoto mexeu com o dia a dia de todas as escolas. Mas quando se trata de ensino para crianças com necessidades especiais, o contato físico, o carinho e o abraço dos professores fazem ainda mais falta. 

Amélia Margarete dos Santos tem 58 anos, 22 deles dedicados a ser professora de ensino especial infantil. Mesmo com toda a experiência, os últimos meses têm sido desafiadores na Escola de Educação Especial Nilza Tartuce, no bairro Alto da Glória. “Muita coisa mudou, principalmente o contato com os pais. Com as videochamadas nós entramos na casa da família, ficamos conhecendo onde cada um mora, como se comportam, como convivem. E claro, a carinha das crianças quando nos vê no celular é gratificante demais”, revela. 

Com o tempo, a professora aprendeu a trabalhar com a tecnologia a seu favor. E a falta do carinho e do contato com as crianças foi suprido com a evolução que cada aluno tem demonstrado diariamente. “Nossas crianças são especiais, então ver eles sentadinhos esperando a professora ligar a videochamada é maravilhoso”, comemora. 

Entre os vários alunos que Amélia tem, entre 4 e 5 anos, uma pequena aluna autista tem chamado a atenção. “Numa atividade, eu peguei a proposta de um sapinho. No vídeo, ela estava com um sapinho de brinquedo na mão. Quando eu vi, comecei a interagir e fui puxando os sapinhos que eu tinha. Ela olhou o que tinha na minha mão, olhou para a tela, para a mãe, e disse: ‘olha, tem quatro sapos’. Eu fiquei maravilhada com a contagem, eu sabia do comprometimento dela”, relembra a professora, emocionada. 

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Professora Amélia Margarete dos Santos, da Escola de Educação Especial Nilza Tartuce, está tendo de lidar com a tecnologia para dar aulas aos alunos. Foto: Lineu Filho / Tribuna do Paraná

Com as aulas dos alunos em casa, sempre acompanhados dos pais, avós, ou outro familiar, a evolução tem sido surpreendente. “Os pais geralmente olham mais para a limitação dessas crianças do que para o potencial. E com as aulas em casa eles perceberam o que as crianças são capazes. Para muitos, ir para a escola era só socialização. Mas com o tempo eles começaram a entender que as atividades são fundamentais”, comenta a professora. 

Nessa nova forma de ensino, toda a família passou a acreditar mais nas crianças. “Tem crianças que não falam, vi muitas mães se surpreendendo com os filhos. É avó que filma, que faz junto, manda foto. O empenho da família é maravilhoso. A gente poderia escrever um livro dessa pandemia”, revela Amélia. Para ela, a dedicação de toda a família tem criado resultados surpreendentes. 

Mesmo sabendo que nada substitui o ensino presencial, Amélia acredita que o trabalho dos últimos meses foi coroado com muitas surpresas. “Tem sido maravilhoso. Trouxe dificuldades para mim, como professora, mas foi inspiração. As crianças agora estão falando mais, o desenvolvimento acontece aos olhos da família. Elas vão voltar para as aulas presenciais muito melhores, com certeza”, comemora.