As vendas do varejo mantiveram o sinal positivo em julho, mas com ritmo de crescimento mais lento que nos meses anteriores.

Houve aumento de 0,31% ante junho, em desempenho que pode sugerir uma "acomodação" do setor e o início do esgotamento do ciclo do crédito, segundo avaliação de Reinaldo Pereira, da Coordenação de Serviços e Comércio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ante julho do ano passado, houve expansão de 4,5% nas vendas, completando 20 meses consecutivos de aumento.

"Esses dados podem estar mostrando sinais de alguma acomodação, mas é preciso uma série mais longa para confirmar isso", disse Pereira. "O comércio está acomodado em patamar elevado", emendou o chefe do departamento de Economia da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas.

Em maio (1,09%) e junho (1,12%), os aumentos ante mês anterior tinham sido mais fortes do que em julho. Para Pereira, a possível "estabilização" do comércio pode estar relacionada a um início de esgotamento do crédito, especialmente do consignado.

Thadeu de Freitas acredita que o baixo índice de reposição de duráveis (eletrodomésticos, automóveis), aliado à limitação de endividamento dos consumidores, está levando à perda de fôlego de segmentos diretamente vinculados ao crédito, como móveis e eletrodomésticos, cujas vendas caíram 1,88% em julho ante junho.

Por outro lado, no comércio em geral, o crescimento de 4 5% ante igual mês do ano passado ocorre apesar da forte base representada pelo dado de julho de 2004 (12,04% ante julho 2003).

Pereira avalia que, pelos números da pesquisa, a tendência é de que o crescimento do comércio ante igual mês do ano anterior prossiga nos próximos meses, já que o pico da base de comparação foi exatamente julho. Além disso, ele vê uma conjuntura favorável com a queda da taxa de juros, inflação baixa e recuperação da renda.

Thadeu de Freitas concorda com a avaliação de Pereira e acredita que a acomodação de julho é uma transição, com melhoria do desempenho ao longo do segundo semestre. "O efeito do crédito vai continuar, mas com efeito menor, enquanto a influência da renda tende a crescer", acredita.

O argumento é que a inflação em queda, o dólar baixo e o pagamento de benefícios no final do ano vão ajudar na recuperação da renda, impulsionando os bens de consumo não duráveis, como produtos alimentícios. A projeção de Thadeu de Freitas é que as vendas do comércio aumentem 5% no acumulado de 2005 ante o ano passado.

Renda

Segundo o técnico do IBGE, a estabilidade dos níveis de ocupação e a recuperação do rendimento foram os principais fatores responsáveis pelo crescimento de 3,3% nas vendas dos supermercados, hipermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo em julho ante julho 2004. A expansão foi influenciada também pelas recentes quedas nos preços dos produtos alimentícios.

Na comparação com junho, o segmento, que tem maior peso na pesquisa do IBGE, registrou recuo de -0,80%. "Esse resultado (ante mês anterior) está muito próximo da estabilidade e pode mostrar que a renda não está crescendo a um ritmo tão rápido", disse.

No caso de móveis e eletrodomésticos, que também têm forte peso na pesquisa e cresceu 17,4% em julho ante julho do ano passado, o desempenho mais uma vez é atribuído ao crédito. "Esse crédito pode estar começando a se esgotar, pode estar chegando a um limite, mas ainda é o que vem segurando o consumo desse segmento", disse Pereira.