Os cachorros da Polícia Militar do Paraná começam a ser preparados para combater o crime antes mesmo de nascerem. Com seleção genética, reprodução por inseminação artificial e cuidados especiais desde a barriga da mãe, os animais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) são treinados 18 meses para trabalhar em alta performance. Um cuidado que faz da Companhia de Operações com Cães (COC) referência entre as polícias de todo o Brasil.

A cada ano, de cinco a dez filhotes são selecionados para o time canino. Atualmente, 34 cachorros entre filhotes e adultos estão sendo treinados na COC para atuar no patrulhamento, detecção de drogas, armas e explosivos, além de busca de pessoas. Entre eles, uma ninhada de quatro meses da raça bloodhound, muito usado em buscas de pessoas. E todo o cuidado com os quatro-patas não é por acaso.

“Um cachorro farejador de entorpecentes bem treinado custa em torno de R$ 20 mil”, revela o capitão Gustavo Dalledone Zancan, comandante do COC.

Mesmo que o cachorro seja adquirido filhote, ainda sem treinamento, o custo é elevado. Um filhote da raça bloodhound, muito usado em buscas de pessoas – desde suspeitos de crimes até pessoas desaparecidas -, chega a custar R$ 3 mil. Portanto, com a reprodução feita dentro do próprio canil, a PM economiza ao menos R$ 30 mil por ano só na compra de filhotes.

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A cada ano, de cinco a dez filhotes são selecionados para o time canino. Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
A cada ano, de cinco a dez filhotes são selecionados para o time canino. Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

Reprodução

Para garantir os cachorros mais eficientes, a reprodução é feita por inseminação artificial a partir da análise genética feita por médicos veterinários da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O sêmen dos animais mais eficientes – os que mais se destacam no faro e resistência – é usado na inseminação das cadelas.

Os cuidados com as cadelas prenhas também é grande para que nada impacte na formação do futuro cão policial. “Precisamos evitar qualquer tipo de trauma, deixando a cadela durante a gravidez em lugar silencioso, sem muito ruído”, conta o comandante. Numa ninhada com aproximadamente 8 filhotes, em média mais da metade é selecionada para trabalhar na polícia.

Os mais curiosos, ativos, destemidos e brincalhões já começam a ser treinados pelos instrutores. Afinal, no trabalho de faro de drogas, por exemplo, é justamente isso que eles fazem: a busca pelo entorpecente é uma brincadeira para o cão.

Durante a amamentação, cujo período é de aproximadamente 60 dias, os filhotes já são estimulados a trabalhar dentro das modalidades policiais, que são patrulhamento, detecção de drogas e explosivos, além de busca de pessoas. O estímulo do faro é trabalhado assim que o cachorro sai do desmame. As rações são colocadas espalhadas na grama e não num pote, incentivando o animal a conhecer seu poder de faro.

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Reprodução é feita por inseminação artificial a partir da análise genética feita por médicos veterinários da UEL. Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
Reprodução é feita por inseminação artificial a partir da análise genética feita por médicos veterinários da UEL. Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

Modalidades de trabalho

Os cachorros do canil da PM trabalham em três modalidades. No patrulhamento o cão é um reforço no policiamento ostensivo, atuando na prevenção e controle de distúrbios, como em partidas de futebol, manifestações violentas e rebeliões de presídios. Já no trabalho de detecção, o faro do animal é usado para encontrar drogas, armas e artefatos explosivos. No trabalho de busca, por sua vez, o cachorro é condicionado a encontrar pessoas também pelo faro, podendo ser criminosos em fuga da polícia ou pessoas desaparecidas.

Cães que trabalham no patrulhamento precisam ser ativos, ter agressividade, controle ao obedecer o condutor e resposta rápida para imobilização de pessoas. Para essa atividade, os cães da raça pastor alemão, rotweiller e pastor belga malinois são os mais apropriados. “A agressividade desse tipo de cão é muito importante, porque ele precisa causar um impacto psicológico, o que evita de a equipe policial usar força”, esclarece o capitão Zancan.

Os cachorros de detecção são capacitados a identificar e diferenciar diversos odores, mesmo que misturados. Além disso, têm que ter uma boa resistência para atuar em longas jornadas sem perder o faro. Por isso, para a função, há preferência pelos cachorros mais ativos, curiosos e brincalhões. “Numa ação de abordagem e revista de ônibus na rodovia, por exemplo, o cachorro precisa ter energia para farejar vários ônibus sem cansar. Nem todo cachorro tem pique para isso”, explica o comandante do canil.

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Para buscas de entorpecentes e explosivos, as melhores raças são o pastor belga malinois, o labrador, o cocker spaniel e o beagle. O capitão Zancan lembra que nessa modalidade os animais têm que estar muito bem treinados, principalmente na busca de explosivos, já que o cachorro não pode errar.

Em apenas 15 minutos, um cão farejador consegue fazer varredura e encontrar explosivos em uma sala de cinema, por exemplo. Se fosse feito apenas pela equipe policial do esquadrão anti-bombas, o mesmo trabalho demoraria cerca de quatro horas.

Os cães indicados para a função de busca de pessoas são o pastor alemão, pastor belga malinois, e labrador. Entretanto, nos últimos anos a PM tem investido em uma raça que se adapta muito bem a essa função, o bloodhound. “Eles vão em busca de um odor específico, que pode ser de uma criança desaparecida ou até mesmo um foragido, e vão direto para a ‘caça’”, revela Zancan. O odor de cada pessoa, que pode ser adquirido a partir de uma peça de roupa, por exemplo, é quase como uma impressão digital explica o capitão Zancan – cada pessoa tem seu cheiro específico.

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Cachorros trabalham em três modalidades: patrulhamento, detecção e buscas de entorpecentes e explosivos. Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
Cachorros trabalham em três modalidades: patrulhamento, detecção e buscas de entorpecentes e explosivos. Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

Aposentadoria

Depois de seis anos de trabalho, os cães da Polícia Militar são aposentados. Eles vão para doação e podem ser adquiridos por entidades públicas, pelo próprio condutor do cachorro ou por um policial da corporação. “Caso os policiais ou nenhuma entidade tenha interesse ou possibilidade de ficar com o animal, ele é oferecido ao cidadão comum, que deve cumprir determinadas regras”, contou o comandante.

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