Acusado pela morte do jogador Daniel Correa Freitas, o comerciante Edison Brittes Júnior, o “Juninho Riqueza“, permaneceu em silêncio durante seu interrogatório no Fórum de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, na tarde desta quarta-feira (4). A defesa dele, o advogado Cláudio Dalledone, entendeu que ainda há muitas coisas a serem anexadas ao processo e por isto Edison se calou.

“Ele tem não só o direito, mas a garantia de permanecer em silêncio e foi o que aconteceu. Existem muitas coisas a serem anexadas no processo, como por exemplo as deficiências e imperfeições do inquérito policial. Uma delas seria uma reprodução simulada dos fatos, algo que foi requisitado no inquérito e não foi feito. Ainda há uma série de diligências a serem feitas para instruir o processo, disse o advogado, explicando o porquê Edison não se pronunciou no interrogatório.

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Logo depois de Edison, veio o interrogatório de Evellyn Brisola Perusso, que é acusada de fraude processual, denunciação caluniosa, corrupção de menores e falso testemunho. Conforme seu advogado, Luiz Roberto Zagonel, Evellyn ratificou absolutamente tudo o que falou no inquérito policial e respondeu a todas as perguntas que lhe foram feitas. Ela disse sobre a sua participação e o que cada um fez no dia do crime. Zagonel mostrou que Evellyn, que fez a limpeza do sangue na casa, sentiu-se coagida. “Ela viu tudo. Daqui a pouco chega o agressor na casa e fala ‘vamos limpar tudo’. Ele não a obrigou. Mas qualquer pessoa nesta situação ficaria com medo. Edison determinou e ela fez”, explica ele.

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Zagonel acredita que Evelyn deverá ser inocentada de todas as acusações. “Corrupção de menores já cai por terra, pois ela nem conhecia a adolescente que estava na casa e na festa. Inclusive por não conhecer e pela adolescente estar dentro de uma casa noturna, a Evellyn nem sabia que era menor de idade”, ressalta o advogado.

Um ponto alto da defesa da cliente é uma videorreportagem que ele apresentou e que mostra o jovem Eduardo Purkote na festa. Foi o primeiro vídeo em que apareceram as pessoas sem o rosto borrado e por isso, foi possível comprovar as roupas que Purkote usava na festa.

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“Todos que prestaram depoimento afirmaram que uma das pessoas que agrediram o Daniel era um rapaz de camisa cinza e cabelo mais cheio em cima. Então, hoje conseguimos comprovar com este vídeo que era o Eduardo Purkote. Tiramos a dúvida se era ele ou o irmão dele. Então, não era a Evellyn que deveria estar aqui respondendo crime. Ela é apenas testemunha e o próprio delegado já tinha entendido isso lá no inquérito policial. Quem tinha que estar aqui respondendo é o Purkote. Ele sim deveria ser réu”, diz o advogado, que acredita que Purkote ainda poderá ser chamado em juízo.

Réus presos

Encerradas as oitivas das duas rés soltas, Allana e Evellyn, iniciaram-se as oitivas dos réus presos. A juíza Luciani Regina Martins de Paula, da 1ª Vara Criminal de São José dos Pinhais, onde tramita o processo, optou por seguir a ordem de réus listadas na denúncia do Ministério Público. Desta forma, Edison, que foi o primeiro, optou por calar-se. Depois dele vieram Ygor King e David Willian Vollero da Silva, que por orientação de seu advogado, Rodrigo Faucz, também se calaram.

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“Entendemos que o Edison deveria se pronunciar primeiro, já que ele deveria falar sobre todo o crime. Ficou bem provado que o Ygor e o David participaram só das agressões. Então se Edison não falar primeiro, eles também ficarão em silêncio”, disse Faucz, que trabalha para que os dois jovens não sejam levados a júri por homicídio (triplamente qualificado), somente pelos outros crimes que respondem, como ocultação cadáver, fraude processual, e corrupção de menores. David responde ainda por denunciação caluniosa. “Mas claro que se forem a júri terão que esclarecer tudo”, analisou o advogado.

‘Abriu o bico’

Eduardo Henrique da Silva foi o primeiro dos réus presos que de fato falou em juízo. Conforme seu advogado, Edson Stadler, Eduardo disse exatamente tudo o que já tinha declarado em fase policial. Afirmou que saíram da casa da família Brittes, em São José dos Pinhais, apenas com a intenção de dar uma lição no jogador, expor ele ao ridículo, cortando o pênis para que não fizesse com outra mulher o que fez com Cristiana. Não tinham a intenção de bater ou matá-lo e achavam que Daniel conseguiria buscar socorro em algum hospital. Mas as coisas mudaram no meio do caminho, quando Edison viu alguma coisa no celular que o desagradou.

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“Ele parou o carro bruscamente e ficou transtornado”, disse Stadler, que não soube dizer de quem era o celular que Edison manuseava, se era dele mesmo ou se era de Daniel. Ygor e David também não sabem o que foi que Edison viu no aparelho.

O fato é que Edison pegou Daniel do porta malas, pela camiseta e pelo cabelo e carregou pro meio do mato. Foi quando Ygor e David viram ele fazendo um movimento como se cortasse algo e logo em seguida viram o movimento do comerciante jogando algo para cima, que enroscou numa árvore. Os jovens pensaram que era algum pedaço da roupa de Daniel e só depois souberam que era o pênis do jogador.

Choro e emoção

O último interrogatório do dia foi o de Cristiana Brittes, que demorou quase uma hora. “Um interrogatório emocionante, de uma mulher que foi abusada sexualmente e que teve sua vida desgraçada por um indivíduo que invadiu sua casa, que invadiu o quarto, que se deitou na cama, se despiu e abusou sexualmente dela”, resume o advogado da ré, Cláudio Dalledone.

Conforme o defensor, que tenta a liberdade da cliente, ficou claro nesta fase de instrução processual que Cristiana não participou de nenhum crime, nem prestou nenhum auxílio moral ao homicídio. Ainda afirmou que foi o próprio jogador Daniel quem buscou esse trágico fim, abusando de uma mulher indefesa.

“Ficou a certeza que a condição de Cristiana Brittes está sendo aviltada e não estou vendo a condição feminina ser defendida. Creio que essa acusação de homicídio não vai vingar em relação a Cristiana e que muita coisa vai ser tirada da decisão de pronúncia”, disse Dalledone.

O advogado já protocolou, na semana passada, um pedido de liberdade de Cristiana. Na audiência, o Ministério Público se manifestou contrário à liberdade da ré e caberá a juíza decidir isto nos próximos cinco dias. Caso ela negue a liberdade, o advogado terá que recorrer ao Tribunal de Justiça ou ao Superior Tribunal de Justiça para conseguir um habeas corpus.

Acabou, por enquanto

Na opinião do advogado Nilton Ribeiro, assistente de acusação (que trabalha em favor da família do jogador Daniel), o processo está andando muito rápido e ele espera que todos os réus sejam mandados a júri popular. Ele lamentou que três, dos sete réus, não se pronunciaram. “É um direito deles permanecerem calados. Mas perderam a oportunidade ímpar de se defender e tentar apresentar alguma justificativa para o que fizeram, sé é que há alguma”, diz ele.

Com o encerramento desta fase de instrução processual, explicou Ribeiro, agora vem alegações finais, ou seja, quando acusação e defesa elaboram suas teses finais e as anexam ao processo. A juíza analisa todo este conjunto e tem um prazo para ver se pede novas diligências (levantamento de mais provas), ou se já pronuncia os réus a júri popular (quais réus irão ser julgados e por quais crimes cada um).

Isto se alguma das partes não entrar com algum tipo de recurso neste meio de caminho, o que pode gerar demora e o desmembramento do processo, ou seja, que cada réu ou grupo de réus seja julgado separadamente um do outro.

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