Foto: Anderson Tozato
 Para Lídia, mudar a vida profissional, amorosa ou social não é fácil.

D.G., 30 anos, é dentista. Ou melhor: ela está em dúvida sobre isto. Depois de formada e trabalhando na área, surgiu a insatisfação com a carreira. Agora precisa resolver se vale a pena recomeçar em uma nova área. Segundo a coordenadora do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná, Lídia Weber, muitas pessoas vivem a mesma situação. Mas o medo da mudança acaba fazendo com que muita gente permaneça infeliz.

Lídia explica que tomar uma atitude para mudar a vida profissional, amorosa ou social não é fácil. Ela comenta que as pessoas têm medo do desconhecido, da sensação de falta de segurança e do que os outros vão pensar a respeito. "Até para decidir se cortamos ou não o cabelo, pensamos no que os outros vão falar", exemplifica.

Segundo Lídia, o medo é uma emoção natural do ser humano. "Ele é benéfico. Ativa todo o corpo e nos prepara para reagirmos bem a determinadas situações. Ajuda a avaliarmos com cautela o que está acontecendo", diz.

No entanto, por medo, é comum as pessoas permanecerem numa situação que não agrada, mas que é conhecida, do que viver experiências novas que poderiam ser melhores. "As vezes a garota fica com um namorado não muito carinhoso e acaba perdendo a oportunidade de encontrar outro melhor", cita.

Com o trabalho ocorre a mesma coisa. As pessoas começam a pensar no que já investiram, no espaço conquistado e no que os outros vão falar. Algumas acabam desistindo de mudar a situação e outros preferem usar o medo para dar um tempo e refletir sobre o assunto.

Nesta hora, Lídia diz que as pessoas precisam ser realistas e verificar se a mudança é realmente possível. Nenhuma atitude deve ser tomada de modo impulsivo. Devem analisar, por exemplo, se vão ter condições de se sustentar nesta fase de transição e se a nova atividade vai proporcionar o mesmo rendimento. O custo-benefício emocional e psicológico também não pode ser esquecido. "Serei mais feliz trabalhando num banco, ganhando um bom salário, ou abrindo uma padaria, com um rendimento menor. Deve-se se pesar os prós e os contras", compara.

Mas se mudar de profissão ou emprego não é possível, nem tudo está perdido. Neste caso, Lídia aconselha as pessoas a tentarem melhorar o ambiente de trabalho. "Pedir para mudar de sala ou ficar longe de determinada pessoa são alguns exemplos", indica.

Mas, para muitos, ter coragem para dizer o que se quer representa um grande problema. Esta habilidade é chamada de assertividade e muitas vezes é minada pela própria família. Pais muito autoritários, que não conversam, se limitando a impor ordens, criam pessoas com problemas para lidar com a autoridade. O problema pode ser resolvido através de terapia. As pessoas aprendem a como reagir em determinadas situações.

O medo exagerado das coisas também pode trazer problemas. Como a assertividade, também começa a ser construído na infância. Ele é estimulado pela reação dos pais diante de situações comuns do dia-a-dia. Fazer um escândalo ao observar uma barata ou porque o filho pequeno subiu em uma árvore são alguns exemplos. Lídia afirma que o correto é explicar à criança que ela precisa ter cuidado ao subir na árvore porque se cair pode se machucar. "Deve mostrar como ela deve proceder diante da situação", orienta.

Dentista frustrada pensa em abrir negócio próprio

D.G. está na fase de pesar os prós e contras para mudar de atividade. Conta que fez Odontologia devido à pressão dos pais. Além disso, o cunhado dela era dentista e estava no início da carreira ganhando muito bem. Ele era um ótimo exemplo a ser seguido. D.G., com 17 anos na época, topou a idéia sem ter certeza se tinha vocação para a atividade.

D.G. conta que a idéia de cursar Publicidade e Propaganda sempre a agradou, mas não pôde pensar muito sobre seu futuro profissional. No início da faculdade de Odontologia até gostou da idéia, mas no meio do curso descobriu que não era aquilo que queria. Tentou falar com a família, mas não encontrou forças para ir contra o pai militar, que sempre decidiu tudo por todos.

No último ano da faculdade, D.G. conta que voltou a gostar do curso devido às aulas práticas. Mas o mesmo não aconteceu depois que ela permaneceu durante alguns anos no mercado de trabalho. "A profissão está prostituída. Alguns dentistas cobram muito barato, fazendo concorrência desleal", fala. A falta de retorno financeiro e a tendência para atuar em outra área a levaram a dar um basta na situação.

Voltou a estudar e começou a fazer marketing. No entanto, as coisas não melhoraram para ela. Quando bateu nas portas das empresas, ouviu que preferiam pessoas mais jovens. "Diziam até que eu tinha o perfil para atuar, mas devido à idade, por ser mulher e casada, não dava", lembra.

D.G. comenta que está passando por uma fase muito complicada e às vezes se sente uma pessoa fracassada. Este foi um dos motivos pelos quais não quis revelar seu nome e nem ser fotografada. A família ainda torce o nariz para a mudança.

Agora ela está pensando em montar seu próprio negócio e participa de cursos no Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas (Sebrae). Se não achar nada interessante, não descarta a possibilidade de voltar para odontologia. "O que eu não posso é ficar parada", afirma. (EW)

Batalhou para estudar o que os pais não queriam

Vinícius Moura, 25 anos, já passou pelo problema. A faculdade de Química foi escolhida porque ele ia bem na matéria durante o ensino médio. "Mas quando me vi naqueles ambientes de laboratório, desisti", recorda. Mesmo contra toda a família, trocou de área e hoje cursa Psicologia, feliz com a escolha.

Mas passar pelo processo de mudança também não foi fácil para ele. Depois de quatro meses de aula, mesmo indo bem nas matérias, Vinícius chegou à conclusão de que não gostava do curso. Mas não tinha coragem de falar para os pais que custeavam os estudos. "Os livros comprados eram caríssimos, eles pagavam o ônibus e o lanche", lembra. Além disso, havia passado na Universidade Federal do Paraná. "A família toda, tios, cunhados e até amigos criaram um clima de tensão", relata.

Mas quando Vinícius se viu chorando sobre os livros, decidiu tomar uma atitude. O apoio veio só do irmão. Parou de estudar e arranjou um emprego. Passou num concurso da Urbanização de Curitiba S/A (Urbs) e começou a trabalhar como fiscal de pátio.

No entanto, o sonho da faculdade ainda martelava sua cabeça, mas só ia voltar para a sala de aula quando pudesse pagar sozinho seus estudos. "Durante três anos guardei 80% do meu salário para pagar um curso particular", conta. Mas ele acabou passando mais uma vez na UFPR. "É bem melhor assim. Eu posso decidir as coisas sem ter que enfrentar aquela pressão", fala. Para ele, a situação acabou ajudando-o a amadurecer e ter coragem de decidir as coisas. Pediu demissão da Urbs e já está no quinto ano de Psicologia, sem arrependimento. (EW)