No Brasil, algumas coisas ocorrem de modo muito estranho, para dizer o mínimo. Estranho e incompreensível. Ou inaceitável. Foi preciso morrer crivada de balas a freira Dorothy Stang, nas matas do Pará, alcançada por ominoso e impune sentimento de esbulho às leis, para desnudar o quadro real da gradativa destruição da Amazônia.

O único consolo dos amigos e cooperadores da religiosa é constatar a comoção mundial causada por sua morte, e ver o governo tomar providências negligenciadas há décadas, a fim de frear o ritmo alucinante do desflorestamento criminoso em voga na maior reserva de mata natural do planeta.

A conjunção de interesses de madeireiros ilegais e grileiros, cujo escárnio à legislação os leva a contratar e armar milícias particulares, foi muitas vezes denunciada por uma mulher de 74 anos, de coragem exemplar, cuja única arma era uma pequena bíblia.

É nauseante supor que tais indivíduos se sentissem intimidados pela autoridade moral de irmã Dorothy, a ponto de invocar os códigos da mais crassa bandidagem para condená-la à morte. Assim aconteceu, sem que a autoridade policial – não importa discutir se o crime é estadual ou federal -, protegesse cidadãos probos, trabalhadores e bem-intencionados.

Por outro lado, é vergonhoso aceitar que uma frágil anciã tenha sido abatida a tiros, como um animal, pela ousadia de bloquear o avanço dos madeireiros sobre uma reserva destinada aos povos da floresta.