O presidente argentino, Néstor Kirchner, criticou ontem o distanciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas horas finais de negociação entre o país vizinho e o FMI (Fundo Monetário Internacional). Sem citar o nome do colega brasileiro, Kirchner disse, em pronunciamento, que “alguns se ausentaram por algumas horas” durante as negociações. Segundo o site do jornal Buenos Aires Econômico, a frase foi proferida em referência a Lula.

Anteontem, o jornal Clarín publicou matéria que afirmava que o governo argentino estava irritado com Lula por sua omissão em um momento em que diversos governos da região, inclusive dos Estados Unidos e do Canadá, haviam feito pronunciamentos públicos defendendo o acordo do país com o Fundo.

Com a decisão de não pagar uma dívida de US$ 2,9 bilhões na última terça-feira, a Argentina se indispôs com o Fundo. Por isso, o silêncio brasileiro foi encarado como uma espécie de repreensão à postura do país vizinho, e não como uma tentativa cautelosa de não irritar ainda mais o organismo em um momento em que o próprio Brasil começa a negociar um novo acordo.

“Hoje (ontem) era a oportunidade para que (o Brasil) mostrasse seu apoio publicamente”, disse anteontem ao Clarín, visivelmente nervoso, um alto funcionário da chancelaria argentina que não foi identificado. Segundo o jornal, os diplomatas do país vizinho tentaram durante todo o dia de anteontem encontrar Lula por telefone, mas as chamadas não foram respondidas.

Apenas após a notícia da irritação do governo argentino ser divulgada em diversos sites e agências de notícias, o governo brasileiro resolveu agir. O ministro da Fazenda, Antônio Palocci, teria telefonado para o colega Roberto Lavagna oferecendo apoio nas negociações, segundo ambos os governos.

“Bom amigo”

A lentidão brasileira não deve, no entanto, deixar cicatrizes mais profundas na relação entre os dois países. No pronunciamento de ontem, Kirchner, apesar da crítica indireta, mostrou tranquilidade pelo fechamento do acordo com o FMI e definiu Lula como “um bom amigo”.

Mas o presidente argentino fez questão de agradecer o apoio dos Estados Unidos nas negociações com o Fundo. O Brasil não mereceu esse destaque.

Lavagna

Kirchner também reconheceu que houve “pontos de diferença” entre sua posição e a do ministro Roberto Lavagna (Economia) durante as negociações. No entanto, ele descartou uma crise interna no governo.

“Que tem de mau? Ruim mesmo é fingir que todo mundo está de acordo e depois as coisas não saem como previsto e ninguém se responsabiliza por nada”, disse o presidente argentino.

Ele também disse que “Lavagna é um homem sério, responsável, preparado e capacitado” e afirmou que, em uma conversa entre os dois ontem, o clima foi de “distensão”. Segundo a imprensa argentina, Lavagna não concordava com a decisão de Kirchner de não pagar ao FMI no prazo.

Acordo

Por último, Kirchner minimizou a importância do acordo com o FMI para a recuperação argentina. Segundo ele, o acordo “é um passo importante”, mas também “não é nenhuma panacéia”.

O presidente ainda disse que o acordo não deve comprometer o crescimento econômico do país nem contribuir para aumentar a pobreza.

“Vitória” argentina favorece o Brasil

O ex-negociador do FMI para a América Latina Claudio Loser disse que o acordo fechado entre a Argentina e o FMI afeta a “credibilidade?? da instituição. Ele se referia especialmente à meta de superávit primário de apenas 3% para o ano de 2004. O FMI pode perder margem de manobra na hora de negociar com outros países, como o Brasil por exemplo??, disse Loser.

No caso do Brasil, o acordo em vigor, que expira em novembro, impõe a meta de superávit fiscal de 4,25% do PIB. Membros do governo brasileiro defendem que, em um eventual novo entendimento (que deve começar a ser discutido na próxima semana), os investimentos de empresas estatais sejam excluídos dos cálculos das metas fiscais.

Se correto o raciocínio de Loser, a “vitória?? argentina abriria maior margem para as reivindicações brasileiras. “As negociações [entre Brasil e Argentina] não são comparáveis. O Brasil tem o que preservar, enquanto a Argentina já declarou o default.” Ele diz não acreditar que a maior flexibilidade do Fundo em relação à Argentina seja provocada por culpa.

Para a Argentina, a meta de superávit fiscal de 3% pode não ser suficiente para assegurar um novo acordo, desta vez com os credores externos, dizem analistas.

A equação é “simples??: quanto menor o superávit primário, menos sobrará para o pagamento dos credores externos. Nesse caso, os credores privados terão que aceitar uma perda muito maior no valor de face de seus papéis quando, no final deste mês, a Argentina apresentar o plano de reestruturação dessa dívida.

Desconto

Com superávit fiscal primário de 3%, esses credores teriam que concordar em conceder ao governo argentino um desconto de entre 70% e 80% sobre o valor de face dos títulos, segundo cálculos do economista Aldo Abram. Do contrário, o dinheiro em caixa não será suficiente para pagar a dívida.

Se o superávit fosse de 4%, o “desconto?? não ultrapassaria a 60% do valor de face. E em torno de 50% de perda, no caso de um superávit fiscal de 4,5%. A dívida com credores privados chega a US$ 60 bilhões. Bancos estimam que os credores vão ter que aceitar desconto de, no mínimo, 60%.