Segundo Henrique Meirelles, os escândalos
políticos não vão afetar a economia brasileira.

Nova York (AE) – O presidente do BC, Henrique Meirelles, em palestra para empresários, analistas e investidores estrangeiros na Câmara de Comércio Brasil-EUA em Nova York, disse que o governo Lula quer deixar uma mensagem clara para o mercado. “A mensagem que quero dar é que este governo considera uma pré-condição para o crescimento a estabilidade de preços definida pelo CMN com a meta de 5,5% para a inflação deste ano.”

Meirelles citou a política monetária como um dos pilares da economia brasileira. Segundo ele, a estabilidade de preços permite maior previsibilidade da economia. “A previsibilidade é algo novo e muito importante”, afirmou Meirelles, dizendo que, permitida pela maior estabilidade da economia, garantiu, por exemplo, que os exportadores pudessem planejar, o que resultou no ótimo desempenho da balança comercial. “O regime de metas de inflação, combinado com o regime de câmbio flutuante permitiu no ano passado a melhoria dos fundamentos do País.”

Escândalos

Henrique Meirelles afirmou ainda que os escândalos políticos não vão afetar a economia brasileira.

“As bases da economia brasileira estão muito mais fortes do que eram no passado”, disse em uma entrevista coletiva à imprensa posterior ao seu pronunciamento na Câmara do Comércio Brasil-Estados Unidos.

“A economia está muito menos vulnerável aos impactos exteriores, venham de onde vierem, mercados internacionais (…) ou problemas internos”, acrescentou.

Meirelles respondeu desta maneira à pergunta sobre o escândalo que veio à tona há um mês envolvendo Waldomiro Diniz, ex-assessor do chefe da Casa Civil, José Dirceu.

Uma fita de vídeo foi divulgada mostrando Diniz pedindo contribuições a um chefe de uma rede de jogos ilegais para financiar campanhas políticas em 2002, entre elas, a do Partido dos Trabalhadores (PT).

Diniz, que foi destituído do cargo após a divulgação do vídeo, entrou no governo em 2003, pelas mãos de Dirceu, considerado o homem forte do presidente Lula.

FMI x Argentina

O presidente do BC elogiou o acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional) que levou a Argentina a pagar aos orgão US$ 3,1 bilhões que lhe estava devendo.

“É uma decisão importante, que foi bem tomada, e o acordo parece equilibrado”, disse ele. “Isso é bom para o Brasil, na medida que a Argentina é um país aliado.”

O presidente do BC salientou que, mesmo se a Argentina tivesse optado por não pagar a dívida com o FMI, o Brasil estaria protegido de possíveis consequências negativas.

“O Brasil está em uma posição sólida e já não é contaminado por crises internas como no passado”, disse. “O mundo já sabe que o Brasil está numa rota de desenvolvimento sustentável, de economia estabilizada. O Brasil está protegido dessas crises.”

Henrique Meirelles também comentou as próprias negociações entre o Brasil e o FMI. As autoridades brasileiras apresentaram uma proposta ao fundo para que no cálculo do superávit primário, base do acordo com o fundo, sejam descontados os investimentos brasileiros em infra-estrutura.

Outra proposta que, segundo ele, foi apresentada no encontro encerrado nesta segunda-feira na Basiléia foi a de que seja criado um seguro do FMI para ajudar países que têm “os fundamentos da economia em ordem”, para “protegê-los contra flutuações ou crises dos mercados internacionais”.

“A proposta foi muito bem recebida, porque a Basiléia é uma reunião de Bancos Centrais. É verdade que os BCs não participam do conselho do FMI, mas tem grande influência nos países que tomam essas decisões”, completou.

Dólar sobe e Bolsa fecha em queda

O mercado se agitou com as declarações do presidente do BC. Pela primeira vez neste mês, o dólar fechou na casa dos R$ 2,90. A moeda americana subiu ontem 0,65%, vendida a R$ 2,902, cotação máxima do dia e a Bolsa registrou queda de 4,43%. A declaração de Meirelles, sinalizando uma decisão conservadora do Copom (Comitê de Política Monetária) sobre o juro na próxima quarta-feira, provocou uma onda de venda de ações e títulos brasileiros e uma corrida dos bancos para comprar divisas.

Em Nova York, Meirelles disse que o Brasil tem de ficar “muito atento” à inflação e que o governo considera a estabilidade nos preços como a precondição para o crescimento da economia. O mercado interpretou que o BC não ainda vê motivos para abandonar a cautela e voltar a reduzir a taxa Selic, hoje em 16,5% ao ano.

A fala do presidente do BC coincidiu com a divulgação pelo IBGE de que a produção industrial cresceu 1,7% em janeiro, comparada a igual período de 2003. É um dado que reforça a avaliação de que a economia voltou a crescer, após a queda de 0,2% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2003. Por outro lado, a maior produção industrial cria o temor de que o setor reajuste preços, pressionando os índices de inflação.

O alerta para o aumento dos preços no atacado foi dado anteontem pelo IGP-DI (Índice Geral de Preços -Disponibilidade Interna), que subiu para 1,08% em fevereiro, acima das expectativas dos investidores.