Transporte público

Frota envelhecida e problemas mecânicos; acidentes ligam sinal de alerta em Curitiba

Grave acidente vitimou empresário em Curitiba. Frota de ônibus está envelhecida. Foto: Átila Alberti / Tribuna do Paraná

O trânsito de Curitiba registrou recentemente episódios graves que acenderam um sinal amarelo sobre a segurança mecânica do transporte coletivo. As ocorrências ligadas a problemas no sistema de frenagem chamaram a atenção da população e levantaram questionamentos sobre a rotina de fiscalização da frota da capital.

O caso de maior impacto ocorreu na Avenida Iguaçu, no bairro Água Verde, quando um ônibus sofreu uma pane no sistema de freios, ficou desgovernado em um trecho de descida e invadiu a preferencial, atingindo em cheio o carro do empresário Marcos Lazario, proprietário da tradicional Churrascaria Master Grill, que não resistiu aos ferimentos e morreu no local.

No mês passado, outro registro de falha mecânica voltou a assustar os passageiros no bairro Prado Velho, onde um ônibus da linha alimentadora perdeu a capacidade de frenagem durante o trajeto e colidiu contra um poste de iluminação pública na calçada, deixando feridos leves. E mais recentemente, um ônibus do transporte coletivo perdeu o controle e bateu em cheio contra a fachada de um imóvel no bairro São Francisco.

As ocorrências reacenderam o debate sobre como é feita a fiscalização diária, os socorros técnicos nas ruas e a rotina de oficina dos 1.445 ônibus que cortam a cidade diariamente — especialmente em um momento em que 680 veículos (47% do total) operam acima do prazo de dez anos de vida útil.

Entre os biarticulados, o índice de veículos com mais de uma década de rodagem alcança 60,98% (100 de 164 ônibus). Nos modelos comuns, o indicador é de 56,22% (271 de 482) e, nos veículos tipo padron, chega a 45,91% (146 de 318).

Com isso, a idade média da frota curitibana ultrapassou a marca de 9 anos — índice que causa preocupação ao confrontar as regras vigentes do sistema.

URBS determina guincho obrigatório e pune descumprimentos

Procurada pela Tribuna do Paraná e diante das ocorrências com falha de freio, a Urbanização de Curitiba S.A. (URBS) informou que reforçou a rotina de inspeções e emitiu uma determinação formal a todas as concessionárias do sistema.

Pela nova regra, caso seja constatado qualquer problema em sistemas vitais de segurança — como freios ou direção —, o veículo é proibido de rodar por conta própria e deve ser obrigatoriamente recolhido por guincho até a garagem. Se a empresa descumprir a ordem e permitir que o ônibus rode quebrado, será autuada.

“A segurança dos passageiros e dos colaboradores é prioridade. O trabalho de fiscalização é diário e minucioso, envolvendo a conservação, a mecânica e a higiene dos veículos. O guincho é chamado sempre que o técnico atesta a impossibilidade de circulação normal ou falhas em itens de segurança”, informou a URBS.

Sobre a auditoria nas garagens, o órgão gestor reiterou que o limite de dez anos é um parâmetro tarifário e contratual, e não um impedimento de rodagem. No entanto, para compensar o desgaste natural dos veículos mais velhos, a URBS encurtou a periodicidade das vistorias: enquanto ônibus novos passam por inspeção a cada seis meses, os veículos com mais de dez anos são fiscalizados obrigatoriamente a cada 90 dias.

A autarquia acrescentou ainda que 162 novos ônibus foram incorporados desde 2025 (somando 745 desde 2017) e que a solução definitiva para a frota virá com o leilão da nova concessão, previsto para novembro na Bolsa de Valores (B3), prometendo ônibus elétricos e descarbonizados.

Setransp afirma que veículos com falha grave não voltam rodando

Em nota oficial enviada à reportagem, o Sindicato das Empresas de Ônibus de Curitiba (Setransp) garantiu que a manutenção preventiva e corretiva segue parâmetros rigorosos estabelecidos pelos fabricantes de chassis e carrocerias.

O sindicato assegurou que, quando uma falha crítica em freios ou direção é identificada em trânsito, o protocolo das operadoras é retirar o veículo imediatamente de circulação e transportá-lo exclusivamente por reboque.

“Nessas situações, o veículo não é liberado para retornar à garagem rodando. As empresas mantêm acompanhamento permanente e reforçam os procedimentos de manutenção nos veículos mais antigos, justamente para identificar desgastes e promover a substituição preventiva de peças antes que comprometam a operação”, destacou o Setransp.

A entidade patronal explicou também que as concessionárias utilizam telemetria para monitorar em tempo real a condução dos motoristas e identificar anomalias mecânicas durante os trajetos.

Apesar de defender que a idade do veículo isoladamente não atesta insegurança — desde que as revisões a cada 90 dias sejam cumpridas —, o Setransp voltou a cobrar a aceleração na renovação da frota. Segundo as empresas, operar com quase metade dos ônibus “vencidos” encarece o orçamento de oficina e exige um esforço técnico desproporcional para evitar falhas materiais nas ruas.

Fiscalização preventiva é essencial para evitar novas tragédias

Especialistas em transporte e segurança viária apontam que o socorro prestado nas ruas e o rigor das oficinas são cruciais para que episódios como os da Avenida Iguaçu e do Prado Velho não se repitam.

Enquanto o leilão na B3 não é concluído e os novos ônibus não chegam às garagens, a garantia de viagens seguras para mais de meio milhão de curitibanos depende do cumprimento à risca das vistorias trimestrais da URBS e da remoção imediata por guincho de qualquer ônibus que apresente alteração nos freios.

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