Bem antes de massacrar 32 pessoas na maior matança da história dos Estados Unidos, o atirador Cho Seung-hui, da Universidade Politécnica da Virginia, foi perseguido e maltratado pelos colegas na escola, que ridicularizaram e humilharam a sua timidez e a maneira como ele falava, dizem antigos colegas de classe. Chris Davids, estudante na Virginia Tech que se graduou no segundo grau na escola Westfield, em Chantilly, na Virgínia, com Cho em 2003, relembra que o colega sul-coreano quase nunca abria sua boca e ignorava tentativas para levar em frente uma conversa.

Uma vez, durante uma aula de inglês, o professor pediu para os alunos lerem um texto. Quando foi a vez de Cho, ele apenas olhou para o chão em silêncio, lembra Davids. Finalmente, depois que o professor ameaçou lhe dar uma nota baixa por falta de participação, Cho começou a ler em uma estranha e profunda voz, que soava como se ele "tivesse alguma coisa dentro da boca," disse Davids. "Tão logo ele começou a ler, toda a turma começou a rir, a apontar para ele e a dizer, ‘volte para a China,’" diz Davids.

As lembranças dos colegas da escola secundária entram na conta do retrato psicológico que começa a tomar forma, e pode jogar luz sobre o estado da mente de Cho no vídeo que ele postou no correio à emissora NBC, em uma pausa em meio ao massacre na segunda-feira na Virginia Tech. No vídeo, freqüentemente incoerente, Cho, de 23 anos, apresenta-se como um perseguido e faz um discurso bombástico sobre os garotos ricos.

"Seus Mercedes não eram o bastante, suas crianças chatas," diz Cho, que chegou aos EUA em 1992 e cujos pais trabalham em uma lavanderia num subúrbio de Washington. "Suas correntes de ouro não eram o bastante, seus esnobes. Seu dinheiro aplicado nos fundos não era o bastante. Sua vodca e seu conhaque não eram suficientes. Todos os seus deboches não bastavam. Eles não bastavam para preencher suas necessidades hedonísticas. Vocês tinham tudo.

Entre as vítimas da matança estavam duas graduadas na mesma escola secundária de Cho: Reema Samaha e Erin Peterson. A polícia afirmou que não está claro se Cho reconheceu as duas. Stefanie Roberts, de 22 anos, uma antiga colega de graduação na escola secundária de Westfield High, disse que nunca testemunhou ninguém maltratando Cho no local. "Eu apenas lembro que ele era um garoto tímido, que não queria falar com ninguém," ela disse. "Eu acho que muita gente imaginava que existia uma barreira na questão da linguagem.

Mas ela lembra que muitos amigos que estiveram com Cho na escola relembraram que ele era humilhado pelos outros. "Só existiam alguns que realmente perseguiam ele, eram maus, derrubavam ele no chão e riam," disse Roberts. "Ele realmente não falava bem o inglês e eles faziam piadas." Alison Heck, estudante na Virginia Tech, disse que uma colega dela no campus, Christina Lilick, encontrou uma misteriosa marca, meio apagada, na porta do seu quarto. Lilick veio da mesma escola que Cho. Cho deixou uma marca rabiscada na folha de presença na sala de aula na Virginia Tech, no primeiro dia da aula de literatura, e ficou conhecido pelos outros alunos como o "garoto do rabisco.

"Eu não sei com certeza se ela sabia se foi Cho quem fez o rabisco na porta," disse Heck. "Eu me lembro que ela se sentia perseguida e mencionou o rabisco na porta. Ela nos contou isso porque queria que soubéssemos que alguém estava andando perto do seu quarto." Lilick não foi encontrada para comentar o episódio.