Brasília (AE) – O chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, desqualificou hoje (15), na CPI dos Bingos, o irmão do prefeito de Santo André, Celso Daniel, assassinado em janeiro de 2002, o médico João Francisco Daniel, que há mais de dois anos vem dizendo que ouviu dele, em três ocasiões, informações sobre um esquema de extorsão de empresas contratadas pela prefeitura para financiar as campanhas do PT. Ele contou que se encontrou cinco vezes com parentes do prefeito de Santo André, Celso Daniel, após o seu assassinato em janeiro de 2002. Em duas delas, disse que teria conversado unicamente com João Francisco, mas negou ter falado com ele ou qualquer outra pessoa sobre um esquema de extorsão da prefeitura com empresas concessionárias, destinado a alimentar o caixa 2 do PT.

O médico disse à comissão que ele, seu irmão Bruno Daniel e uma outra pessoa ouviram Gilberto Carvalho afirmar que morria de medo quando ia em seu Corsa preto entregar o dinheiro da propina ao então presidente do PT, José Dirceu. "A única coisa que ele confirmou é que tinha um Corsa preto", informou o senador José Jorge. "No mais, fez como a maioria dos que vem aqui depor desmentindo as acusações e dizendo somente o que lhe é apropriado". O senador defendeu o afastamento de Gilberto do governo, "a exemplo do que fizeram outros que disseram não ter culpa, como José Dirceu, Genoino e Delúbio Soares". O chefe de gabinente de Lula foi categórico ao afirmar que Celso Daniel foi vítima de um crime comum, como concluiu a Polícia Civil de São Paulo, na primeira investigação, reaberta no mês passado, a pedido do Ministério Público.

Como preferiu depor em sessão reservada, suas declarações foram transmitidas pelos senadores. Segundo eles, Gilberto acusou João Francisco de fazer lobby na prefeitura em favor de uma empresa de ônibus e de criar dificuldades para o prefeito. "Ele detalhou a dificuldade no relacionamento dos dois", afirmou o senador Tasso Jereissatti (PSDB-CE). Teria dito ainda, de acordo com o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), que o prefeito chegou a pedir a João Francisco que não o procurasse mais.

Gilberto Carvalho poupou o outro irmão de Celso Daniel, Bruno Daniel, de críticas. Ao contrário, disse que o estimava muito. Mas não soube explicar porque Bruno também confirma ter ele declarado que o prefeito foi assassinado porque queria acabar com a corrupção que alimentava o caixa 2 do PT. O líder do PFL, José Agripino (RN), sugeriu ao chefe de gabinente de Lula que tome a iniciativa de propor uma acareação entre ele e os dois irmãos. "Ele disse que iria refletir, raciocinar e que depois daria a resposta", informou o líder. Se for negativa, Agripino disse que o PFL vai propor a acareação em sessão aberta. "Será essa a única forma de identificar quem fala a verdade", alegou.

Senadores aliados do Planalto tinham dado como certo que Gilberto daria um depoimento aberto. Mas ele surpreendeu, afirmando que, como chefe de gabinete do presidente, iria falar em sessão, "como fui convocado". Sua afirmação não corresponde à realidade. O que ficou acertado, diante da tentativa do governo de impedir sua convocação, é que ele teria o direito de escolher entre uma sessão aberta ou fechada.

Seu jeito educado de ex-seminaristas, capaz de se expressar sem atropelar o português – ao contrário do que tem ocorrido com outro depoentes do PT – foi elogiado pelos senadores. "Ele é sem dúvida o melhor currículo deste governo", afirmou Arthur Virgílio. O líder tucano, porém, questionou por que Gilberto Carvalho não entrou na Justiça contra João Francisco quando ele citou seu nome numa acusação "da maior gravidade".

Outra pergunta do líder é sobre os termos de uma conversa gravada pela Justiça entre ele e o empresário Sérgio Gomes da Silva, acusado pelo Ministério Público de ser o mandante do crime, "em que pareciam muito próximos, íntimos mesmo". Virgílio disse que a gravação fez parte de uma matéria exibida pela TV Bandeirantes. O chefe de gabinete de Lula respondeu que não processou o médico em respeito à família de Celso Daniel. Sobre a conversa, disse que foi editada e que não transmitia a verdade. Disse isso depois de afirmar que não apostaria na idoneidade do Sombra e de outro suspeito de envolvimento no crime, o secretário de governo da prefeitura, Klinger de Oliveira.

O senador Tasso Jereissati chamou a atenção para o fato de Gilberto Carvalho deixar claro que não quer entrar em atrito com os dois. Aliás, seu único acusado foi mesmo João Francisco Daniel. O líder do governo Aloizio Mercadante (PT-SP) se aborreceu com o repórter que questionou sobre o descaso demonstrado pelos petista com o irmão de Celso que, para fugir de represálias, teve até de se mudar de Santo André. "Isso é você que está dizendo", reagiu. Mercadante disse que Gilberto falou à CPI sobre um dossiê apócrifo que teria recebido em Santo André, com denúncias de irregularidades na prefeitura. "Ele disse que encaminhou o dossiê a Celso Daniel, como era de sua função", contou. Disse ainda não acreditar que Celso Daniel tenha preparado um dossiê sobre irregularidades na prefeitura.