Arthur Rodrigues de Almeida

Pensei muito antes de escrever este texto. A indagação principal era: Como será que o leitor poderia encará-lo, pensando que o mesmo foi escrito por um policial federal, com 28 anos de serviços prestados, que, agora mais do que nunca, no trabalho de repressão em seu dia-a-dia profissional, vê e escuta coisas que jamais um dia iria imaginar.

Lembro-me, quando criança no Rio de Janeiro, a preocupação maior eram duas coisas: o maconheiro e o comunista. Engraçado como as coisas mudam, pois já ouvi relatos de pais que dizem: ?Meu filho é somente maconheiro?, enquanto por outro lado, ser comunista é sinônimo de bom cargo político.

Olha que isso não faz muito tempo, podemos dizer algo em torno de 30 a 35 anos atrás. Evolução?

Gerações se passaram, o mundo se desenvolveu e globalizou, todos têm acesso a qualquer tipo de informação, a rapidez e, às vezes, as impropriedades das informações, podem formar opiniões errôneas e distorcidas da realidade. Você teria coragem de dizer: Meu filho é só maconheiro!

Mas por que todo esse preâmbulo, se por enquanto nada de chocante foi relatado, em se comparando aos noticiários que no nosso dia são sobejamente oferecidos, em capas de jornais em suas manchetes, ou em noticiários de televisão e rádio.

São exatamente as inversões de valores que hoje vivencio que mais me preocupa, sem contar que tudo pode parecer até inocente para quem lê inicialmente, mas pode trilhar um perigoso e às vezes um caminho de ida sem volta.

Ao se prender um traficante, normalmente é feita uma entrevista a respeito da droga, onde comprou, para quem ia e etc., enfim, um quadro demonstrativo da droga, desde sua compra e seu destino final.

Ouvi e vi coisas nesses últimos dias que me deixaram preocupado. Apesar de que, às vezes pelo nosso dia-a-dia de policial, perdemos um pouco da sensibilidade humana, em face da adrenalina da ação, voltada tão-somente em defender a sociedade do malefício da droga, não podemos jamais deixar de escutar.

Primeiro caso é de um pai e seu filho, de mesmo nome, somente levando um ?Junior? ao final, que com certeza ao nascer foi fruto de sonhos de um futuro próspero e de que orgulharia e levaria o hon-rado nome da família para os mais altos e dignos rincões da sociedade. Ledo engano. Os dois em um veículo, com fundo falso no interior do tanque de combustível, levariam cinco quilos e cem gramas de crack, para revenda em outro estado da federação, auferindo lucro que poucos negócios podem dar, porém de irreparável dano a consciência moral familiar, onde, com um apenamento severo, talvez os faça vivenciar no cárcere a mesma dor de uma família que sofre com um dependente dentro de casa.

O segundo caso foi a prisão de uma traficante que, apesar de seus vinte anos de idade, de experiência comprovada na vida do crime, exacerbava-se em palavras para demonstrar que o crack é atualmente a droga que mais vende e causa dependência, citando casos que os ?playboys? só querem pedra e contava em risos que um dependente lá na sua terra, deixava a esposa para ser usada pelo dono da boca em programas em troca da pedra para queimar. Disse ainda que se gostasse de mulher, ela a teria o dia inteiro, pois o cara só queria ?queimar pedra?. Mãe de dois filhos, não titubeava em afirmar que, em sociedade com uma amiga, gastou 10 mil reais e esperava ganhar 20 vezes mais, auferindo um lucro que o tempo de cadeia que irá puxar irá se diluir em advogado e pensamentos.

Dois casos e duas situações. Um pai e um filho se juntam para transportar a ?pedra da morte?, independente de saber quantas vidas serão ceifadas e famílias destruídas, mas com um egoísmo algoz, pensavam no lucro fácil. A outra em sociedade com uma ?amiga? deixa filhos, sabe-se lá com quem, esconde em seu corpo dois tabletes de crack, algo em torno de dois quilos, droga essa que para ser consumida tudo se faz, até um viciado oferecer a própria mulher para conseguir a maldita.

Essas duas situações foram vivenciadas em menos de 40 minutos de uma barreira, efetuada em conjunto da Polícia Federal e a Receita Federal, na cidade de Medianeira, distante 50 km de Foz do Iguaçu.

Se fossem relatar todas as histórias já acompanhadas nas apreensões de drogas, sugeririam tantas outras mais, tragicômicas ou só trágicas, onde o bem maior danificado é a família.

O triste ainda é saber que, conforme relatos desses presos, alguns policiais tem o seu ?p.p.? (pagamento de propina) para fazer vistas grossas ao tráfico em sua região, sem querer saber se a pessoa que será a próxima vítima da droga possa ser seu filho.

Quarenta minutos e duas estórias trágicas. Se todos os policiais transcrevessem suas experiências, poderíamos mensurar com mais exemplos aquilo que já é fácil se concluir, ou seja, o interesse financeiro está acima de tudo, até da própria moral de uma família.

De quem é a responsabilidade ?

De todos nós. O Estado, a igreja, a família, o pai, a mãe, a escola, a professora, a comunidade, o Lyons, a maçonaria, o Rotary, a televisão, o jornal, rádio, enfim, todos nós.

Tento administrativamente, apesar de sabedor das dificuldades de pessoal e estrutura material, com que façamos dentro da Polícia Federal trabalhos de repressão mais acentuados e seqüentes, pois essa é a nossa atividade fim, mas vejo de forma preocupante se esvair uma importante qualidade familiar, que  o Estado não pode intervir, em que é exatamente a moral.

O consumo e venda do crack estão alarmantes, apreensão vem aumentando consideravelmente em comparação a outros anos, já não é mais a droga dos drogados miseráveis, como aqueles da ?cracolândia? do Centro de São Paulo, retratados em televisão e jornais, na verdade essa droga, já se alastrou em todo o País e seu poder de dependência é impressionante.

Quantos mais irão morrer, quantos mais a polícia irá prender?

Quanto por cento da droga produzida é apreendida ?

Ninguém na verdade sabe responder, ninguém na verdade quer se responsabilizar, mesmo que de forma indireta, pelo aumento do consumo dessa poderosa inimiga.

Não adiantará nada fechar as portas, trancar as janelas, soltar os cachorros, pois ela está batendo na sua porta e se caso não fizer sua parte, não pedirá licença e entrará.

O que fazer para que ela não entre em sua casa? Não sei, mas faça sua parte e rápido.

Arthur Rodrigues de Almeida, Agente de Policia Federal, lotado na Delegacia de Policia Federal em Foz do Iguaçu, 28 anos de PF, Bacharel em Direito.