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Sem a sombra de Elis

  • Por Jornalista Externo
A herdeira: consciência, personalidade
e sofisticação, com brilho próprio.

São Paulo – Milton Nascimento costuma cantar em seus shows uma adaptação, melhor seria dizer variação, de La Bamba: alegre, entusiasmante, mais bonita do que o original. Maria Rita pediu-lhe que escrevesse uma letra. Ouviu alguns nãos, até que Milton um dia cedeu e surgiu A Festa, a faixa que abre o CD Maria Rita (Warner) e que já toca no rádio desde a semana passada.

É muito bom. É popular e é sofisticado. Usa parâmetros de mercado (a moda da música caribenha, alguma frase de sotaque oriental aparecendo aqui e ali), nada contra: não se curva a ele. Dá-lhe, ao contrário, uma perspectiva de nobreza. O Clube da Esquina, lembrando, dominava esse método.

O tratamento musical tem peso, mas fica a serviço da voz da cantora. Bateria, banjo, contrabaixo, percussão, acordeão, estão ali criando condições para que Maria Rita possa passear pela melodia, escandir as palavras, criar divisões, incitar ânimos, convidar para a… “Festa”, pois então, o nome da música.

E ela se esbalda. A beleza da voz, a força da intepretação e a emissão límpida, cristalina e para fora, como era a interpretação de Elis, em contraponto ao intimismo da bossa nova, são coisas que até parecem estranhas no tempo de vozes fanhosas que querem soar como as cantoras norte-americanas de soul music.

Parecem antigas, essas qualidades de Maria Rita? Um mal-humorado pode dizer que sim. Uma volta, um retrocesso, um conservadorismo na abordagem, na escolha do repertório. Lê-se disso muitas vezes, nos jornais e revistas. A regra parece ser: é preciso ser moderno, quem determina o “moderno” é o mercado, é preciso seguir seus cânones.

Maria Rita desafia esses padrões para criar os seus. Regrava Rita Lee – Agora só Falta Você e Pagu, essa em parceria com Zélia Duncan. Regrava Milton e Fernando Brant (Encontros e Despedidas), Nonato Buzar e Paulinho Tapajós (Meninha do Portão), Lenine e Bráulio Tavares (Lavadeira do Rio). Apresenta Renato Motha, mineiro talentoso conhecido no circuito dos festivais do interior (Menina da Lua) e traz de volta à cena os irmãos Jean e Paulo Garfunkel, que Elis já havia gravado, no emociontante blues Não Vale a Pena, em que ela exerce suas graças, seu humor, dotes de atriz, carisma que vaza dos limites do disco.

Do repertório do Buena Vista Social Club extraiu o bolero Dos Gardenias, de Isolina Carillo, defendida originalmente por Ibrahim Ferrer. Aqui há um golpe de produção: entram as maracas e o primeiro acorde do piano elétrico é o mesmo (timbre, inclusive) da introdução de Dois pra Lá, Dois pra Cá. Mas a interpretação de Maria Rita tem o que ela pretende – sua digital, sua marca sendo criada, passionalismo contido, sem arroubos melodramáticos.

Um belíssimo momento está na canção bem lenta de Renato Motha: Maria Rita canta inteira a letra de Menina da Lua e cede espaço para um entrecho instrumental. E o que se ouve é a bela valsa Maria Rita, que César Camargo Mariano fez para a filha pequenininha e gravou no disco Samambaia, que dividia com Hélio Delmiro.

Maria Rita, o disco, traz um sopro de esperança para a cansada música de mercado. Essa moça vai entrar nesse mercado, quer isso, movimenta-se para isso, está sendo ajudada pela gravadora. Vai oferecer, assim, referências de sofisticação e qualidade cujos parâmetros pareciam perdidos para sempre.

Clã Mariano com mais novidade

Adriana Del Ré

São Paulo – Pedro Mariano e César Camargo Mariano, respectivamente irmão e pai de Maria Rita Mariano, acompanham a ascensão da cantora com certo distanciamento. Não interferem de modo nenhum na carreira dela, numa atitude adotada em consenso pela clã Mariano há tempos. “Minha função, como irmão, é a de espectador, esta é a forma que ela quer que a gente aja. Quer a gente torcendo, não interferindo”, diz Pedro. E César emenda: “Especialmente eu. Interferir não é saudável. Fico só com uma caixinha de band-aid, esparadrapo e, quando alguém cai, digo “vamos lá?”.

Maria Rita está lançando o primeiro álbum da carreira, ao mesmo tempo em que Pedro e César Camargo Mariano chegam ao mercado, juntos, com um projeto muito particular: o CD batizado de Piano & Voz, que esteve engavetado por sete anos. Como o título adianta, trata-se de um álbum conduzido basicamente por uma voz e um piano, e nada mais. A concretização do disco prova a tremenda afinidade musical do duo, e o respeito pelas diferenças de pensamento e influências.

“Por causa de um provável conflito de gerações – que poderia acontecer, mas não aconteceu -, resolvi me transportar para a “praia” do Pedro, para manter a personalidade dele. Isso faz parte da função do acompanhador, do arranjador”, diz o pianista, que assina a produção com Pedro e outro filho, Marcelo Mariano. Nesse período de convivência profissional, César constatou duas surpresas. “Houve uma interação: fui até o meio do caminho, o Pedro andou outra metade e nos encontramos. Surpreendeu ainda o potencial de sua voz; ele teve um crescimento, distante do que vinha fazendo”, avalia o pai orgulhoso.

Espontaneidade

O resultado é um trabalho bonito, no qual foi priorizada a gravação mais próxima possível da espontaneidade, do registro sem exaustivos ensaios anteriores ou racionalização dos arranjos. A seleção do repertório recebeu o dedo dos dois. Há desde composições de Cartola (Tarzan, o Filho do Alfaiate) até Jair Oliveira (Papo de Psicólogo), passando por Djavan (Dupla Traição) e Gilberto Gil (Se Eu Quiser Falar com Deus e Deixar Você). O disco só traz uma inédita, a canção Par Ímpar, de César Camargo Mariano e Jair Oliveira. O restante é regravação.

“Se fosse aberta uma bolsa de apostas sobre o que eu coloquei e o que ele colocou, ninguém ia acertar nada”, brinca Pedro. “A idéia de incluir uma música de Lulu Santos foi do meu pai, e as de Noel Rosa e Tom Jobim fui eu quem sugeriu”. Pedro é muito ligado às velhas canções da MPB, e gosta de garimpar composições esquecidas na discografia de músicos consagrados. “Vou pegar aquela quarta faixa do lado B que ninguém conhece”, diz ele. Os dois fazem o show de lançamento de Piano & Voz em São Paulo, no Directv Music Hall, dia 19 – dois dias depois do espetáculo de Maria Rita no mesmo local.

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