O maringaense Ranieri Gonzalez: loucura
fascinante e distância do estigma.

Mal se desvencilhou do desequilibrado Maurício de Esperança, e o maringaense Ranieri González encarna outra personalidade atormentada: o pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890), no espetáculo Vermelho Sangue Amarelo Surdo. A peça é destaque do Fringe do XII Festival de Teatro de Curitiba, com apresentações de hoje ao dia 27, no Memorial de Curitiba. O texto e a direção são de Edson Bueno.

O espetáculo em si já é uma insanidade: a estréia nacional acontece menos de três meses depois da primeira conversa com o diretor, na qual Ranieri resolveu abandonar o projeto de encenar Confissões de Um Comedor de Ópio, de Thomas de Quincey, para mergulhar no universo de Van Gogh. Nesse meio tempo, Bueno fez a pesquisa, produziu o texto e passou para o ator, que teve menos de um mês para ensaiar – uma eternidade para quem estava acostumado com o ritmo de Esperança.

Ostentando cabelos e barba ruivos, Ranieri descreveu a aventura a O Estado:

“Eu estava vivendo emoções tão intensas na novela, fiquei tão impregnado pelos conflitos do Maurício, que não podia deixar isso passar. Precisava canalizar essa energia de alguma maneira. E assim comecei a ir atrás de textos como Werther (de Goethe) e Confissões, mas acabei arrebatado pela história de Van Gogh ao ler os textos dele e de Antonin Artaud”, relata. “Na mesma hora liguei para o Edson e sugeri a mudança”. Mesmo tendo sido feito no susto, o texto se revelou “muito rico, forte e sensível”, na opinião do ator.

Embora mencione a infância, a adolescência, os amores frustrados e os entreveros com a comunidade artística da época, a peça não é uma biografia do pintor holandês: vai do instante em que ele sai do manicômio de St. Rémy de Provence até o seu suicídio em Auvers, na França, em 1890. E consegue contornar o estigma do gênio enlouquecido, bem como os clichês dos girassóis e da orelha: “Mostramos a loucura e o tormento de Van Gogh, mas também a sua extrema sensibilidade, a solidão, os rompantes, a paixão pela natureza, o amor pelo irmão Théo (que era o seu marchand e o sustentava financeiramente) e, principalmente, a incompreensão”, conta Ranieri. “Incompreensão da comunidade artística européia, então no auge do impressionismo, com a sua arte expressionista, incompreensão da família, das mulheres… e a história de Van Gogh não tem sexo, ele só se apaixonou duas vezes, e ainda assim por prostitutas que não quiseram nada com ele. Portanto ele é praticamente casto, quase virgem, sem sensualidade nenhuma”.

Apesar da vida e morte trágicas, Ranieri tenta fugir da percepção piedosa em relação ao artista. “Ele era uma pessoa extremamente difícil de se conviver, mas também era dono de um senso de humor singular, ácido e refinado”. E a orelha? “Foi um ato de desespero. Ele era espezinhado pelos impressionistas, e não se conformava com o fato de a sua pintura não vender, enquanto a de Paul Gauguin – que chegou a morar com ele – era bem aceita. No calor de uma discussão, ele ameaçou o colega com uma lâmina de barbear. Mas não teve coragem de consumar o ato, foi para casa, cortou um pedaço da orelha esquerda e mandou de presente para uma prostituta, recomendando que ela tomasse conta daquela peça preciosa”.

Quanto ao suicídio, Ranieri conta que não foi uma coisa planejada, solene. “Ele simplesmente cansou. Cansou de brigar com os impressionistas, cansou de passar fome para pintar, cansou de ser incompreendido… e concluiu que não valia a pena viver. Simples assim”.

Outros relatos dão conta de que Van Gogh teve uma recaída ao saber das dificuldades financeiras do irmão Théo e da doença do seu sobrinho, e deu um tiro no peito enquanto pintava ao ar livre em Auvers. A tentativa quase foi frustrada, pois o ferimento não parecia ser tão grave. Porém, dois dias depois, em 29 de julho de 1890, morria Vincent van Gogh.

Ranieri e Bueno colocam o bloco na rua com a cara e a coragem: “Montamos o espetáculo sem grana nenhuma, estamos batalhando para entrar na Lei Rouanet, mas enquanto isso é a paixão que nos move. Nesse momento ninguém vai ganhar nada”, diz o ator. Depois do Festival, Vermelho Sangue Amarelo Surdo entra em cartaz no Teatro José Maria Santos, e em seguida Ranieri pretende excursionar com o espetáculo. “Vamos nos inscrever nos principais festivais do País, e fazer temporadas no Rio e em São Paulo”, adianta.

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Dias 21 (12h), 23 (18h), 24 (15h), 25 (24h), 26 (21h) e 27 (15h). Ingressos a 10 e 5 reais (estudantes e bônus).

Presença de Denise e Clarice

Mesmo fora do Festival de Teatro de Curitiba (“já fui convidada várias vezes, é hora de ceder o lugar”), Denise Stoklos estará presente “em espírito” no Fringe: estréia hoje, às 21h, no ACT – Ateliê de Criação Teatral -, o espetáculo-solo Micro-Revolução de um Ser Gritante, com a atriz, diretora e produtora teatral paulistana Silvana Abreu, discípula de Denise e seu Teatro Essencial. Inspirada no livro A Paixão Segundo G.H., escrito por Clarice Lispector em 1964, a montagem terá dez apresentações até o dia 30, em diferentes horários, com ingressos a 10 reais (5 para estudantes).

A proposta de Silvana é usar a sensibilidade para apresentar um trabalho fiel “à intensidade e à força da obra de Clarice, transportando a poética e as questões essenciais presentes em seu texto para a linguagem teatral”. “Assim, o espetáculo cumpre também o objetivo de apresentar e divulgar a obra de Clarice a um público mais amplo, estimulando debates e reflexões e colaborando no processo educativo, no qual a literatura e o teatro se firmam como bases sólidas da formação humana”, explica a artista.

Para ela, Micro-Revolução de Um Ser Gritante busca o sentido original de revolução. “O permanente risco que implica cada escolha, a cada momento. A afirmação do desejo ou a desistência que se faz a cada gesto. Uma revolução íntima que começa sutilmente a revolver camadas internas que estavam sedimentadas. Aí os alicerces cedem, e todo o mundo conhecido parece esfacelar-se”, descreve.

Silvana Abreu se diz plenamente consciente dos desafios da empreitada, que pretende colocar em cena, tendo apenas o seu corpo como palco, veículo e instrumento, o universo interior complexo e multifacetado de Clarice, e suas palavras “à flor da pele”. “É um grande desafio enfrentar Clarice. Ela se coloca de uma forma absurdamente clara, profunda, lúcida, lançando seus pensamentos e sentimentos mais íntimos à mais completa exposição, para olhos curiosos e perplexos diante da carne viva que ela apresenta”.

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Em cartaz na Sala Kazuo Ohno do ACT (Rua Paulo Graeser Sobrinho, 305 – São Francisco). Mais informações pelo telefone (41)338-0450.

Shakespeare sem palavras

Luigi Poniwass

Nos próximos cinco dias, às 19h, o espelho d?água do Parque Tanguá, em Curitiba, será o cenário do espetáculo gratuito A Tempestade, de William Shakespeare – a célebre história de Próspero, o duque que é expulso de Milão e vai morar com a filha numa ilha habitada por seres fantásticos. A entrada é franca. O detalhe é que na montagem da companhia Ogawa Butoh Center, que integra os eventos especiais do Festival de Teatro de Curitiba, não há uma só palavra. “Usamos a linguagem corporal, transmitimos todas as intenções pelo corpo”, define o diretor e coreógrafo João Roberto de Souza.

A técnica utilizada é o butô, movimento de vanguarda japonês que seria “a mais perfeita aliança entre teatro e dança”, nas palavras de João Roberto, a maior autoridade brasileira no assunto. A Tempestade será encenada por um elenco de trinta pessoas, a maior parte formada por alunos da oficina que o diretor ministrou em Curitiba no mês passado, e encaram um festival pela primeira vez. O resultado porém foi tão bom, que ele decidiu não só participar do festival, mas transferir a sede da sua companhia de São Paulo para Curitiba. “O material humano que encontrei aqui é excepcional, e eu não podia abandoná-los”, confessa.

João Roberto conta que o butô foi uma das ações da comunidade artística japonesa para tentar impedir a ocidentalização do país no pós-guerra. Sua estética se inspira nos sobreviventes das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945. “Os personagens são fantasmas, os movimentos e expressões remetem a pessoas mortas, a maquiagem e o figurino reproduzem os efeitos da radiação”, descreve.

Depois da temporada no Festival de Teatro, o Ogawa Butoh Center deve manter uma temporada de A Tempestade em Curitiba, e pretende viajar com o espetáculo. João Roberto quer montar outros três trabalhos, Clowns e Clownesses, Ad Aeternum (apresentada no FTC do ano passado) e Ovo Sapiens de Pina Bausch, que também entrarão em circuito na cidade.