Walter Salles, Alberto Granado
e Rodrigo de la Serna.

Cannes – O filme Diários de Motocicleta, de Walter Salles, foi extremamente bem recebido na sessão de gala oficial do 57.º Festival de Cannes. Foram aproximadamente 15 minutos de aplausos, começando nos últimos minutos do filme, quando surgem imagens em preto e branco de vários dos rostos com que Ernesto Guevara (Gael García Bernal) e Alberto Granado (Rodrigo de la Serna) cruzaram durante sua viagem.

Os aplausos foram brevemente interrompidos, e recomeçaram quando o verdadeiro Granado surgiu na tela. Daí em diante não pararam mais até o fim dos créditos e continuaram quando a equipe do filme apareceu na tela do Grand Theâtre Lumière, ao vivo.

Alguns figurões do meio cinematográfico compareceram à sessão, como os diretores Stephen Frears e Michael Moore e o ator Tim Roth (que entrou junto com a equipe do filme; Roth é o protagonista de Dark water, o próximo filme de Walter Salles).

Ontem, revistas de mercado como a Hollywood Reporter anunciaram que Salles já escolheu seu novo projeto, e que se trata de Linha do passe, uma história de ficção sobre quatro irmãos que tentam a sorte no futebol. O diretor teria feito o anúncio em Londres. Em encontro com a imprensa brasileira, na terça-feira à tarde, contudo, Salles parecia bem menos definitivo. Ele se referiu ao projeto como algo que o interessava e que poderia vir a fazer no futuro.

Embora a produção de Diários seja internacional, o fato de o diretor ser brasileiro pode significar um incrementeo sem precedentes na história do cinema nacional.

Críticos e público também gostaram

Foi o filme mais aplaudido na sessão de imprensa, que aconteceu ontem de manhã, até agora. Nem Michael Moore obteve recepção tão calorosa – o público começou a aplaudir Diários de Motocicleta desde o momento em que apareceu na tela, nos minutos finais, a frase “Eu não sou mais eu”, depois fez uma pausa enquanto eram projetadas as fotos com personagens que representam a América Latina e, então, os aplausos voltaram ritmados no admirável desfecho do filme de Walter Salles – que é bom não dizer qual é, para o caso de você ainda não ter visto Diários. A tão sonhada química ocorreu em Cannes e, na seqüência, foi bom ver a sala em que se realiza a coletiva lotada. Isso em geral só ocorre com filmes interpretados por astros e estrelas de Hollywood.

Toda a imprensa mundial estava lá para falar com Walter Salles. Ele foi perfeito. Falou em português, quando lhe pediram que a resposta fosse nessa língua (a nossa). Respondeu em espanhol e inglês, ocasionalmente, mas pediu licença para, em Cannes, responder em francês. (Isso faz lembrar Bruno Barreto, que, dias atrás, reclamou para um amigo de problemas com o som na projeção ao ar livre de Dona Flor e o cara respondeu: “Vocês, brasileiros, estão na m…, mas são sofisticados”.)

Estavam todos na coletiva – o diretor Salles, os atores Gael García Bernal e Rodrigo de la Serna, que fazem o jovem Ernesto Guevara e Alberto Granado, o roteirista José Rivero e o próprio Granado, que não faz outra coisa senão dizer o quanto tem sido emocionante acompanhar a carreira do filme. Granado diz que o Che, a viagem da Poderosa (a moto) pela América Latina e a Revolução Cubana são os três grandes acontecimentos que marcaram sua vida. “Tudo me traz de volta a viagem, não me importa se eu me lembre de uma grande alegria ou de uma injustiça dolorosa. Essa viagem eu carrego comigo.”

Críticos franceses e ingleses já publicaram resenhas favoráveis e o primeiro fruto é que o filme deve estrear na Itália com 200 cópias – quase o triplo das 68 cópias com que estreou no Brasil. “Esse filme tem uma missão”, diz Salles. “Ele se dirige preferencialmente ao público latino. É um filme sobre a nossa identidade latino-americana e sobre a alteridade – temos de aprender a conhecer nossas diferenças para poder aceitá-las e superá-las.” Ele diz que quando iniciou o projeto era um diretor brasileiro. Continua brasileiro, até porque não poderia ser de outra maneira, mas se sente cada vez mais latino.

Gael García Bernal admite que interpretar o jovem Ernesto mudou sua vida. “Seria um desperdício interpretar um personagem como ele e não ser tocado pela experiência”, define.

Salles nunca trata o jovem Ernesto como o Che. O personagem não é glamourizado nem glorificado. Não há um plano em que ele seja filmado de baixo nem nada que se assemelhe à iconografia oficial. O que existe é o olhar humano e transparente de Gael. A viagem de motocicleta do futuro Che é uma viagem interior. A crítica em Cannes reconheceu isso e, por isso, o filme foi tão aplaudido.