Mônaco – Existe uma cláusula nos contratos dos pilotos de Fórmula 1 que é das mais cruéis e já vitimou pelo menos um brasileiro, Roberto Moreno, em 1991 ? ele foi demitido da Benetton para a entrada de Michael Schumacher. Fala, a cláusula, sobre condições físicas e psicológicas do contratado para guiar um carro da categoria. A avaliação é quase sempre subjetiva e pode servir a propósitos pouco nobres, como a disposição de se livrar de alguém antes do tempo. Essa é a nova preocupação de Ralf Schumacher.

Um bate-papo entre Patrick Head, um dos donos da Williams, e quatro jornalistas ingleses em “off”, com pedido explícito para que não fosse publicado, vazou. E ontem o dirigente praticamente confirmou o teor da conversa, travada em Barcelona. Ralf estaria abalado por um acidente que sofreu em Monza no ano passado, em testes. E, por isso, está andando mal.

O “andando mal”, no entanto, não é subjetivo. A telemetria da equipe mostra que Ralf vem freando de dez a 15 metros antes, nas curvas, do que ele mesmo costumava fazer. Como a Williams não vai ficar com o alemão no ano que vem, pode usar seus dados como argumento para demiti-lo por justa causa e colocar logo no cockpit alguém pensando em 2005.

“O assunto era o fato de Montoya estar se classificando sempre na frente dele”, tentou explicar Head. “Mas a verdade é que já tivemos pilotos antes que sofreram grandes acidentes e sabemos o que acontece. Piquet e Boutsen me contaram que levaram de seis a nove meses para se recuperar totalmente. Eu especulei que talvez o acidente de Monza pudesse ter alguma influência no que está se passando com Ralf.”

A batida aconteceu por uma falha na suspensão do carro de Schumacher Júnior. Ele teve uma concussão cerebral e saiu do hospital, em Milão, sem autorização dos médicos. Dias depois, no primeiro treino para o GP da Itália na mesma pista, passou reto numa chicane. Ao voltar aos boxes, falou que se esqueceu de frear. O time pediu que fosse avaliado pelo médico-chefe da FIA, Sid Watkins, que recomendou que ele não corresse. Marc Gené assumiu o lugar.

Ralf reclamou que Head “parece viver 20 anos atrás” por ter dito o que disse. “Ele deveria vir conversar comigo”, queixou-se. Mas na Williams ninguém mais se fala. E se o piloto continuar rendendo abaixo do esperado, a equipe pode despachá-lo alegando que ele não tem mais condições de dirigir.

Isso acontecendo, Jacques Villeneuve senta no carro na mesma hora. Head confirmou que já conversou com o canadense. “Tudo é possível, até Mansell voltar”, brincou o sócio do time. E elogiou mais um: Anthony Davidson, piloto de testes da BAR, que ontem fez o segundo tempo no primeiro dia de treinos para o GP de Mônaco. “É muito bom e um nome a se considerar.” Na frente, como sempre, ficou Michael Schumacher. Mas isso já não é mais notícia.

Hoje é dia de folga em Monte Carlo. O grid para a sexta etapa do Mundial sai amanhã, a partir das 8h com a pré-classificação.