Ausente, o prefeito Rafael Greca (DEM) foi o alvo preferido dos candidatos no primeiro debate da eleição à prefeitura de Curitiba na noite de quinta-feira (1.°), na TV Bandeirantes. O prefeito recebeu alta quarta-feira (30) após quatro dias internado com covid-19. Porém, antes mesmo de ter sido infectado, ele já havia anunciado que não iria ao debate alegando que o debate não cumpriria todos os protocolos sanitários de prevenção do coronavírus.

Dos sete participantes do debate, seis concentraram críticas à atual administração municipal, apesar do clima cortês e ameno do encontro. A condução da pandemia, a crise econômica gerada pela covid-19, a crise hídrica, o socorro às empresas de transporte público e as políticas públicas na área de segurança e educação foram as situações questionadas pelos candidatos no programa. Das 24 interações entre os candidatos, 10 tiveram críticas diretas à gestão de Greca.

Participaram os candidatos Fernando Francischini (PSL), João Arruda (MDB), Professor Mocellin (PV), Paulo Opuszka (PT) Dr. João Guilherme (Novo), Camila Lanes (PCdoB) e Marisa lobo (Avante). Os outros oito candidatos participam de uma segunda rodada do debate, marcada para o próximo dia 14.

Os ataques a Greca fizeram surgir até tabelinhas inesperadas entre adversários históricos e candidatos com perfis antagônicos na disputa, como nas surpreendentes interações entre PT e PSL. Fernando Francischini (PSL) questionou Paulo Opuszka (PT) sobre qual seria sua política para o funcionalismo público, citando que os profissionais de saúde ficaram sem Equipamentos de Proteção Individual em determinado momento da pandemia de Covid-19 e que os de educação entraram em depressão por terem de enfrentar as aulas virtuais sem terem sido preparados.

O petista defendeu a valorização dos servidores e afirmou que “a prefeitura estagnou as carreiras do funcionalismo”. Na sequência, Opuszka perguntou a Francischini se ele teria uma política de gasto social para ajudar o curitibano a sair da crise. “Vou criar o auxílio emergencial curitibano, utilizando o fundo de reserva da prefeitura, que, até agora, o prefeito só usou para socorrer seus amigos empresários do transporte”, afirmou.

João Arruda (MDB) também trocou perguntas com Opuszka e Francischini em tom crítico à atual administração. O candidato do MDB criticou a condução do prefeito durante a pandemia, principalmente na área econômica e prometeu criar linhas de crédito para os pequenos empresários. “Um socorro que não fosse só para as empresas do transporte público”, citou.

Arruda também comentou a crise hídrica enfrentada pelo município, afirmando que “o atual contrato com a Sanepar foi assinado pelo prefeito Greca com a então governador Cida Borghetti e precisa ser revisto. Não é possível Curitiba fornecer tanta água para o estado todo e sofrer com o desabastecimento”. Para Francischini, Arruda perguntou sobre a Muralha Digital, sistema de câmeras interligadas para auxiliar a segurança pública anunciado por Greca e que, segundo o candidato, nuca saiu do papel. “A muralha do Greca não passou do primeiro tijolo”, ironizou Francischini.

Bastante acionado em um debate em que cada candidato poderia escolher para quem perguntar, independente do número de vezes que o interlocutor já havia sido questionado, Professor Mocellin (PV) também começou o debate criticando Greca por conta da condução da pandemia. “O que faltou aqui, foi firmeza na postura. Quando se toma uma decisão, tem que ir até o final”, disse, ao debater com Dr. João Guilherme (Novo) as reviravoltas nos decretos com medidas restritivas.

“Como médico, mandei uma carta ao prefeito em abril alertando sobre medidas simples que poderiam ajudar no combate à pandemia, como o uso dos ônibus escolares para desafogar o transporte público. E também apontei o fechamento precoce da cidade e o risco de acontecer o que aconteceu, de as pessoas não aguentarem mais o isolamento no momento de maior necessidade”, disse o candidato do Novo.

Crítica aos “políticos profissionais” e protesto por boicote

Dr. João Guilherme foi um dos poucos a criticar os adversários. No último bloco, comentou as promessas ouvidas durante o debate. “Estamos vendo muitas promessas de pessoas que já tiveram oportunidade, são políticos profissionais, têm habilidade pra falar e enganar as pessoas. Nossa proposta é reduzir o Estado. Ele não pode ficar inchado, aparelhado, e sujeito à corrupção. Temos que reduzir para poder fazer o investimento no cidadão, no pagador de impostos, na pessoa que precisa de melhor serviço da prefeitura”, disse. O candidato do Novo ainda anunciou a proposta de criação de um fundo de aval para dar crédito aos empresários atingidos pela crise do coronavírus.

A pauta da educação também foi bastante explorada pelos candidatos. Professor Mocellin lamentou a que considera fraco desempenho de Curitiba no Ideb. Camila Lanes (PCdoB) pautou a discussão sobre o momento adequado para a retomada das aulas presenciais no pós-pandemia e a aplicação dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Nosso plano apresenta investimento público para educação pública, orçamento da educação tem que chegar às salas de aula, que hoje estão superlotadas. Temos que aumentar escola em tempo integral e investir na capacitação dos professores”.

Se Mocellin foi muito acionado, a candidata do Avante, Marisa Lobo, não respondeu a nenhuma pergunta durante todo o debate. “Quero registrar meu protesto por ter sido ignorada. Talvez por ser conservadora, aliada do presidente Bolsonaro, tendo o maior programa conservador da história, contra ideologia de gênero, a favor da família”, declarou em suas considerações finais. Nas três vezes em que perguntou, a candidata discutiu com Opuszka questionando como ele queria governar uma cidade que deu 76% dos votos a Bolsonaro se ele é crítico ao presidente, anunciou um programa de acolhimento a mulheres em situação de gravidez precoce ou indesejada, “para que elas tenham alternativa ao aborto” e debateu com Camila Lanes a situação dos moradores de rua da cidade, dizendo que iria cuidar dos cidadãos de bem em situação de rua, mas não dos criminosos que nela vivem.