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Curitiba

Projeto voluntário de Curitiba tatua pacientes que venceram o câncer

Giselle Ulbrich
Escrito por Giselle Ulbrich

Parece clichê, mas é verdade: da dor nasce o amor. E foi mais ou menos isto que levou a tatuadora Bárbara Nhiemetz, 28 anos, a criar o projeto Cores Que Acolhem, que existe há cerca de quatro anos.

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Nele, Bárbara faz tatuagens para cobrir cicatrizes de pessoas que tiveram câncer, marcas que fazem as pessoas perderem a autoestima e muitas vezes as tiram de alguns convívios sociais. Mas Bárbara pode dizer que já mudou a vida de mais de 150 pessoas, que ela atendeu gratuitamente no projeto. E o Cores que Acolhem é um dos cinco finalistas do Prêmio Bom Exemplo, promovido pela RPC e Tribuna para reconhecer iniciativas que estão melhorando a comunidade ao seu redor.

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Bárbara atende homens e mulheres todas as segundas-feiras no estúdio que trabalha, no Centro de Curitiba. Ela é especialista em esconder cicatrizes de todo tipo. Mas decidiu que aquelas pessoas que tivessem cicatrizes causadas pelas cirurgias de retiradas de câncer seriam gratuitas. Ela não aceita patrocínios, por receio de ficar “presa” a compromissos com o patrocinador e desviar o foco do projeto. Por isto, de todas as tatuagens pagas que ela faz no estúdio, uma porcentagem tira para custear os materiais usados no projeto, como tintas, agulhas, luvas descartáveis, etc.

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Entre os trabalhos de Bárbara, os que mais chamam a atenção são os de reproduzir a aréola dos seios de mulheres que passaram por mastectomia (retirada de um dos seios, em decorrência do câncer de mama). Ela estuda a aréola do seio intacto e reproduz com tatuagem no outro seio, que geralmente foi reconstruído através de prótese ou outras técnicas usando músculos e gordura do próprio corpo. A “cópia” fica tão perfeita, incluindo a aparência do alto relevo do bico do seio, que fica difícil perceber que aquilo é uma tatuagem.

Outras mulheres, ao invés de reproduzir a aréola, preferem fazer outros desenhos, como flores ou frases de superação.

Mas não são só mulheres, muito menos pacientes de câncer de mama, que ela atende. Bárbara também já atendeu um rapaz, por exemplo, que teve um câncer no esôfago, fez cirurgia, curou-se, mas vai precisar da traqueostomia para sempre. Para disfarçar o buraco da traqueo no pescoço, que chamava muito a atenção de todos que olhavam para ele, o rapaz pediu para fazer um desenho tribal no pescoço, que desvia a atenção do “buraco”.

Foi a primeira tatuagem de cobertura de traqueostomia no Brasil.
Cada sessão de tatuagem dura de duas a três horas e às vezes precisa de outra sessão de retoque. Mas não é qualquer pessoa que pode chegar e fazer a tatuagem. É preciso ter autorização do médico e Bárbara não faz sem a documentação.

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Retribuição

Barbara encontrou na tatuagem uma forma de devolver a autoestima a pacientes que sofreram com câncer. Foto: Arquivo Pessoal.

Bárbara criou o projeto depois de passar por duas fases difíceis que o câncer trouxe para dentro de sua família. Primeiro foi sua mãe, a Sueli Pedroso, depois o seu próprio filho, Zekky, que estava recém nascido quando o tumor foi descoberto.

Bárbara e a mãe moravam em Mato Grosso quando Sueli descobriu o câncer de mama, em 1999. Fez cirurgia no Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba. Depois, mãe e filha vinham a cada 15 dias para cá para o tratamento de Sueli. Bárbara tinha sete anos e estudava 15 dias no Mato Grosso e 15 dias no Paraná, para acompanhar a mãe.

Sueli retirou toda a mama esquerda. “Eu era criança ainda. Mas eu notava que a minha mãe só usava blusa cacharel, com a gola bem alta, não trocava a roupa na frente de ninguém, nem de mim”, disse Bárbara. Mas a criança sempre gostou de desenhar de canetinha pelo corpo da mãe. E notava que a mãe ficava sempre muito feliz com o carinho da filha. Até o dia que Bárbara disse: “Um dia eu vou desenhar de verdade em você, pra você nunca mais ficar triste”.

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Filho

Os anos passaram e Bárbara engravidou em 2013. Numa gestação de risco, o bebê nasceu prematuro, com seis meses e meio. Ficou dois meses e meio na UTI neonatal, até ir pra casa. Mas o pior ainda estava por vir. No primeiro dia em casa, ela foi dar banho em Zekky e viu uma bola no ombro do garoto. Como ele era muito pequeno, não tinha nem dois quilos, Bárbara pensou que tinha deslocado o braço da criança e que aquela bola fosse a ponta do osso. Correu para o hospital.

Quando Bárbara viu a médica chegando com um exame, com o símbolo do Erasto Gaertner, já entendeu tudo. Quando a cirurgia começou, descobriram que não era só um tumor, mas três na axila do bebê. E as perspectivas eram as piores: que um pedaço muito grande do braço seria retirado na cirurgia, havendo o risco dele perder o braço inteiro ou até morrer, já que era uma cirurgia de altíssimo risco para uma criança tão nova e pequena. E a cirurgia poderia trazer definitivamente a perda de força e coordenação motora no braço, entre outas consequências à fala e coordenação motora.

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Mas o inacreditável aconteceu. Zekky sobreviveu, não perdeu o braço e, já com dois anos de idade, brincando em casa, apoiou os braços em balcões próximos e ergueu o corpo sozinho, com a sua própria força. Praticamente nenhuma das “previsões” dos médicos se concretizou. Hoje Zekky tem cinco anos.

Reclusão e meditação

Quando o menino teve alta do Erasto, Bárbara e o marido, Thiago, ficaram um ano reclusos em casa, sem trabalhar, para não haver o risco de trazerem alguma infecção ao bebê, que ainda não tinha boa imunidade. Foi num destes dias que Bárbara concluiu que as experiências ruins não poderiam ser um fardo ou um peso na vida de ninguém e precisava tirar algo bom de tudo aquilo.

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Foi quando Thiago questionou Bárbara: “Sua mãe não te acolheu no peito dela na fase ruim do câncer? Você não acolheu seu filho no peito quando ele precisou? Então por que você não acolhe outras pessoas que também estão passando por isso?”. Foi assim que surgiu o nome do projeto, Cores Que Acolhem, no qual Bárbara decidiu tatuar as cicatrizes provenientes do câncer gratuitamente.

Primeira paciente

Primeira paciente de Bárbara foi a própria mãe. Foto: Giselle Ulbrich/Tribuna do Paraná

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E nada mais cheio de simbolismo do que começar com a própria mãe. Por causa da radioterapia, Sueli não conseguiu refazer o seio com próteses. Ela concordou com a ideia da filha e disse que queria se “sentir livre que nem flor em jardim”. Por isto, tatuou um ramo de flores no lugar do seio esquerdo. “Eu nem tinha feito a tatuagem toda ainda. Minha mãe se olhou no espelho e chorou muito. Parece que colocou pra fora tudo aquilo que vinha fazendo mal a ela nestes 20 anos”, disse Bárbara. E a reação é muito parecida com a das outras pacientes que ela atende.

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“Foi a partir daí que eu vi que era isso que eu queria pra minha vida. O Cores Que Acolhem surgiu da gratidão de eu ter pessoas que eu amo vivas. É o meu jeito de retribuir amor, de ajudar outros pacientes”, conta a tatuadora.

Sobre o autor

Giselle Ulbrich

Giselle Ulbrich

(41) 9683-9504