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Alto da Glória Curitiba

Ecobarreira que limpa rio na Grande Curitiba foi feita no ‘quintal de casa’

Gustavo Marques
Escrito por Gustavo Marques

Sabe quando você está perto de uma pessoa do bem e tem certeza que dali só vão sair boas histórias. A missão de entrevistar o Diego Saldanha, de 33 anos, em Colombo, foi daquelas reportagens que todo jornalista gosta de fazer.

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O personagem é um verdadeiro campeão na vida com exemplos de solidariedade e ajuda ao próximo. Aliás, Diego é um dos 5 finalistas do Prêmio Bom Exemplo Paraná 2019, da RPC. Iniciativas como a dele, de limpar o Rio Atuba, se destacam pelo desenvolvimento de ações solidárias voltadas à promoção da cidadania. “Estar entre os cinco finalistas do prêmio Bom Exemplo é uma gratidão e um honra muito grande. Um reconhecimento pelo trabalho que realizo e pela luta de ver o Rio Atuba melhor. Eu não conheço ainda os outros finalistas, mas tenho certeza que são pessoas especiais”, disse Diego Saldanha.

Bem, lá fomos nós para o bairro Jardim das Flores. O nome é convidativo e penso logo em um lugar florido e com toda a estrutura para morar. Realmente, o espaço é tranquilo, ar puro, barulho de rio, cachorros brincando e um clima pacífico no ar. Até que uma voz surge e um braço no ar aparece para dar boas-vindas. Chegamos na terra do Diego, o cara que madruga para comprar frutas na Ceasa, vende os produtos em semáforos durante o dia e ainda entra no rio para recolher o lixo que alguém jogou.

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A relação de Diego e da família com o rio é antiga, semelhante a de todos os paranaenses. O Atuba avança por Curitiba, Colombo e Pinhais. Historicamente, nas suas margens se deu o início da colonização da cidade de Curitiba e na união com o rio Iraí, é formado o Rio Iguaçu, o maior do Estado e que desemboca lá nas Cataratas em Foz. Com o Atuba passando na lateral de casa, Diego aproveitava a época em que se nadava no rio e se alimentava dos peixes. “Na década de 1990, brincava com meus amigos dentro do Atuba. Com o tempo, fui percebendo que o rio foi ficando sujo e decidi sair do comodismo para tentar trazer uma vida melhor ao rio”, relatou Saldanha.

Ecobarreira com galões

Galões serviram pra Diego criar sua ecobarreira. Foto: Hedeson Alves/Tribuna do Paraná

Chateado e revoltado com o que via passar no rio da sua infância, Diego procura entender mais sobre ecologia e, especialmente, fazer a sua parte para melhorar o dia o dia. Afetado com a sujeira que era cada vez maior, uma Ecobarreira foi confeccionada aos poucos. O bolso não ajudou e a grana era pouca para o tamanho da proeza. A princípio, em janeiro de 2017, ele pegou garrafas pet de dois litros e uma rede e estendeu de uma margem à outra com uma extensão de 12 metros. O simples protótipo teve ótimo resultado, mas a ideia de aprimorar o projeto avançou e Diego comprou 25 galões de 50 litros, uma rede bem mais forte e o resultado aumentou. “Neste caso, a quantidade de material recolhido não é nada legal. Eu fico triste demais por recolher os objetos, mas logo chega a felicidade de limpar o rio”, desabafa Diego.

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Em quase três anos de projeto, 3 toneladas de lixo foram retiradas por Diego. A quantidade exagerada de produtos recolhidos no rio assusta qualquer um. Depois de tirar, tudo é secado ao ar livre até para não deixar resquício de água parada que pode ocasionar doenças como a dengue. O material reciclado é vendido e a renda (R$ 400) é utilizada para outros projetos ou até mesmo o deslocamento de Diego para escolas de Colombo, onde ministra palestras para crianças. “Elas perguntam de tudo e demonstram muita atenção no tema. Acredito que esta geração vai mudar um pouco desta realidade. Infelizmente, temos a falta do poder público. É preciso mais incentivo e orientar as crianças sobre a importância da limpeza dos rios urbanos do Brasil. Eles estão sofrendo”, ressaltou o vendedor/ ativista.

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Museu do lixo

Diego criou um museu para mostrar o que já retirou do rio. Foto: Hedeson Alves/Tribuna do Paraná

Além de ir aos colégios, Diego abre a sua própria casa para estudantes interessados no projeto. Ao chegar no reduto ambiental é impossível não visualizar o Museu do Lixo. A ideia é chocar mesmo a sociedade com o que estava dentro do rio. Ali você encontra garrafas de vidro, garrafas pet, carcaça de máquina de lavar, televisores de tubo, capacetes de motociclistas, para-choque de carro, fogão, escada, bonecas e bolas esportivas. “Ele tem um prazer em fazer isto. A consciência que temos hoje é diferente de outros tempos. O Diego é especial e o reconhecimento de todos deixa a gente muito feliz”, confidenciou Marizete Saldanha, mãe do Diego.

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Além da Ecobarreira, na casa dos Saldanha, mais duas situações ecologicamente corretas chamam a atenção, ou seja, é um verdadeiro ponto de educação ambiental. Na entrada, um pequeno poste solar ilumina o jardim florido da Dona Marizete. O sistema é simples e utiliza uma placa solar, uma bateria de moto, canos de obra e uma garrafa pet que protege o LED. “Uma energia limpa e sustentável. Funciona como uma maravilha e pode ser utilizado futuramente em lugares sem iluminação pública. Está em teste ainda, mas é o Ecoposte”, avisou Diego.

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Ainda no terreno, tem a Ecofossa. O objetivo é tratar o esgoto de maneira sustentável para lugares sem tratamento ou coleta, o que é muito comum no bairro em que reside a família Saldanha. Ali e em outros locais, as pessoas jogam o lixo de maneira errada ou cavam uma fossa negra que certamente irá contaminar o lençol freático. “Eu construí um quadrado de alvenaria todo selado com um túnel de pneus. Uso bananeira e taioba que fazem um trabalho de limpeza. É sem dúvida, mais um trabalho de ajuda ao rio Atuba”, concluiu o ativista.

Por fim, a reflexão do que estamos fazendo com a natureza é inevitável. Como diria o bilionário americano e filantropo Ross Perot, falecido em julho deste ano: “Ativista não é o homem que diz que o rio está sujo. Ativista é o homem que limpa o rio”.

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Gustavo Marques

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