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Curitiba

Futebol para transformar vidas na Grande Curitiba

Giselle Ulbrich
Escrito por Giselle Ulbrich

Ela tinha tudo pra dar errado na vida. Submetida a todo tipo de violência na infância, inclusive o assassinato do pai, foi abandonada pela mãe e passou algum tempo nas ruas.

Mas a futura bombeira civil Sheila Silva Agapito, 32 anos, encontrou alguém que acreditou no potencial dela, olhou em seus olhos e disse “você pode, você consegue, você vai”: seu primeiro treinador de futebol.

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E foi esse incentivo, do esporte, que fez a jovem deixar toda a falta de perspectiva de vida para trás. Ela se reconstruiu e decidiu fazer pela sociedade o mesmo que fizeram com ela um dia. Assim fundou o projeto Boleirinhas Kakau FC, que é um dos cinco finalistas do Prêmio Bom Exemplo, da Tribuna e RPC.

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No projeto, Sheila pega meninas de 5 a 14 anos da comunidade em que vive, lá nos “fundos” do bairro Capela Velha, em Araucária, e dá treinos de futebol todas as terças e quintas-feiras no fim da tarde, depois do horário escolar. Elas utilizam uma quadra pública, da prefeitura local, que não tem iluminação própria. Só há a iluminação dos postes da rua ao lado. Então treinam até a escuridão não deixar mais enxergar a bola. E Sheila diz que prefere pegar só meninas porque considera que a sociedade ainda é machista e que, por conta disto, prefere empoderar as mulheres jovens, para mostrar que elas podem fazer o que quiserem e não devem abaixar a cabeça para um “não” ou para injustiças.

“Eu só fico triste porque muitos pais não entendem muito bem o objetivo do projeto, não ligam muito”, lamenta Sheila. Por outro lado, há pais e mães que incentivam e estão sempre junto. A dona de casa Rosiani Lima, 29 anos, colocou a filha Graziele, 10 anos, no projeto para evitar que a menina ficasse pelas ruas. Foi meio a contragosto, pois ela queria que a garota fizesse algo mais “feminino”, como dançar ballet. Mas entre um treino e outro da filha, Rosiani passou a bater uma bolinha aqui, outra partida ali, e hoje também joga futebol e adora. Sorte da Rosiani, já que com o esporte Grazi aprendeu a ser mais participativa com os afazeres da casa.

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Quem também mudou o comportamento através do esporte foi a Larissa Gabriela, 12 anos. “Antes eu respondia a minha mãe, tinha preguiça. Com o futebol eu perdi uns cinco quilos, hoje eu respeito meus pais, estou mais disposta e até minhas notas na escola melhoraram. O projeto não é só chutar bola. Não é só um monte de meninas correndo atrás de uma bola. É muito mais que isso”, conta a adolescente, que quer ser professora ou jogadora de futebol.

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E conforme Sheila, este tem sido um relato constante das mães. “Teve uma das meninas que tinha apenas uma semana de treino. A mãe veio me perguntar: ‘Ô Sheila, o que você faz com as meninas? Antes elas chegavam da escola, se jogavam na cama, não queriam nada. Hoje chegam em casa e vão bater bola, uma ajuda a outra, ajudam em casa.’ Aí eu explico para os pais que o objetivo não é só treinar futebol e melhorar a disposição física, mas também ensinar respeito, ajuda ao próximo e a melhorar a autoestima”, explica a treinadora.

Para participar dos treinos, as meninas que têm condições “pagam” uma mensalidade, que é a doação de dois quilos de alimentos não perecíveis. Com as cestas que elas conseguem montar, elas distribuem os alimentos na própria comunidade, a pessoas carentes, uma forma de incentivar a solidariedade.

Há seis meses, a casa de Sheila pegou fogo e ela perdeu tudo, incluindo os materiais de treino, como bolas e uniformes, objetos que ela pagou do bolso a maioria para treinar gratuitamente as meninas. Aos poucos está se reerguendo, vivendo numa casa alugada na região, e conta com a ajuda de quem quiser patrocinar o time doando os materiais esportivos.

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Das sombras à vida

O nome do projeto, Boleirinhas Kakau FC, foi uma homenagem que Sheila fez a uma amiga, que faleceu num acidente de moto. A Kakau jogava futebol com Sheila, num time chamado Boleiras FC. Como as duas eram muito unidas, ela quis eternizar a amizade dando o nome da amiga ao projeto, que existe há cinco anos.

Para Sheila, não é o mundo que precisa mudar e sim os seres humanos. “E eu estou aqui pra isso”. Foto: Giselle Ulbrich/Tribuna do Paraná

Mas o que hoje é alegria para Sheila, surgiu de momentos muitos sofridos que ela viveu na infância e na adolescência em Itu (SP). Quando ela tinha três anos, seu pai foi assassinado. A mãe, sem qualquer estrutura emocional, abandonou os cinco filhos. Quando Sheila tinha cinco para seis anos, foi dada a uma família. Mas ao invés de finalmente receber cuidado e carinho, foi abusada sexualmente pelo pai adotivo alcoólatra.

Habitualmente o abusador mandava a menina ir ao bar comprar bebidas para ele. Num destes dias, Sheila foi reconhecida e abordada na rua por uma amiga de sua mãe, que abriu a mochila, viu as garrafas de bebidas dentro e denunciou o caso ao Conselho Tutelar. Resultado? Sheila foi mandada de volta aos “cuidados” da mãe. “Eu sofri muito com ela, uma pessoa desajustada, que nunca cuidou de mim. Apanhei demais. Um dia eu não aguentei e fui pra rua. Passei três dias dormindo com mendigos e gente de toda sorte. Mas como eu ainda era muito menina, a fome bateu e eu voltei pra casa”, diz a instrutora.

Quando Sheila tinha 11 anos, ainda morando em Itu, no interior de São Paulo, um treinador a convidou para jogar futebol. Ele olhou fundo nos olhos da jovem, disse que acreditava no potencial dela e que ela podia chegar onde quisesse. “Eu mesma achava que não ia dar em nada na vida. Mas eu sempre quis ser uma pessoa boa”, diz a jovem, que começou a treinar e sua vida passou a ser futebol o tempo todo. Aproveitava e descontava toda a sua raiva na bola.

Com 15 anos, ela engravidou e parou com o futebol por um tempo. Passou por alguns relacionamentos conturbados, até que encontrou o atual marido, que lhe incentiva, dá força e apoio. Tanto que foi ele quem a inscreveu no Prêmio Bom Exemplo e está sempre lá no pé da quadra, levando os materiais de treino e fazendo tudo o que Sheila pede para não parar o projeto. “Eu me vejo em algumas destas meninas. Nem que daqui nunca saia nenhuma atleta profissional. Mas se eu conseguir tirar uma só menina que seja de uma vida difícil, igual a que eu tive, já está valendo. Que eu consiga ‘multiplicar’ as Sheilas por aí, que alguma dessas meninas monte um time e replique o projeto e crie mulheres de bem e empoderadas”, diz a treinadora.

No entender de Sheila, não é o mundo que precisa mudar. E sim, os seres humanos. “E eu estou aqui pra isso. Ser indicada para esse prêmio me fez sentir uma super mulher, feita de aço, capaz de tudo. Posso fazer qualquer coisa”, diz ela.

Sobre o autor

Giselle Ulbrich

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