O ano de 2013 foi tão prolífico quando 2012 na literatura – e 2014 promete ainda mais. Entre traduções, reedições, lançamentos e centenários, a Contracapa deste 25 de dezembro (o primeiro post natalino da coluna) vai indicar os dez melhores livros inéditos lançados no Brasil neste ano – que quase se finda. Alguns dos títulos escolhidos foram lançados anteriormente em seu país de origem, porém só aportaram por aqui em 2013. Haverá também algumas gratas surpresinhas como bônus tracks.

10. A Vida privada das árvores – Alejandro Zambra (Cosac Naify)

Lançado originalmente no Chile em 2007, Zambra continua a contar a história de Julían, iniciada em Bonsai, publicado no Brasil em 2012, um professor de literatura e aspirante a escritor que espera a chegada de sua esposa, Verónica. Como companhia, Julían tem Daniela, filha de Verónica. Para poder passar o tempo, ele cria um mundo à parte, no qual os dois se entrelaçam na difícil tarefa de aceitar o que é a vida. O lirismo de Zambra, uma das revelações da literatura chilena, é puro e sem rodeios, mas também se fecha a concessões, colocando o leitor face a face com a vida de seus personagens.

9. Reprodução – Bernardo Carvalho (Companhia das Letras)

Carvalho já não é novidade para ninguém. Seus livros são reconhecidos além mar e a história do jornalista que deixou um cargo de chefia na Folha para viver de literatura já não choca mais. Reprodução é, justamente, uma prova dessa maturidade, tanto pela temática, quanto pela escrita, em si. O livro conta a história de um “estudante de chinês” que, ao ser parado pela Polícia Federal, não consegue mais esconder quem é e traz à tona a série de preconceitos velados que fazem parte da sociedade brasileira.

8. Diga a Satã que o recado foi entendido – Daniel Pellizzari (Companhia das Letras)

Quando Pellizzari não entrou para a Granta dos melhores jovens escritores brasileiros no ano passado, muita gente reclamou, brigou e chamou de injusto. E com razão. Diga a Satã que o recado foi entendido faz parte da (quase) mal fadada série “Amores expressos” – criada pela Companhia das Letras que mandava um escritor para o estrangeiro, para que ele escrevesse uma história de amor na cidade em que desembarcou. Pellizzari esteve em Dublin, na Irlanda. Pessoalmente, ele deixou claro que a empreitada não foi das melhores, mas em se tratando de literatura o arranjo saiu muito bom. O livro conta a história de Magnus Factor, uma pessoa que, de repente, está em Dublin e já não consegue mais descobrir o porquê ainda não foi embora.

7. O Apocalipse dos trabalhadores – Valter Hugo Mãe (Cosac Naify)

As histórias das diaristas Maria da Graça e Quitéria confundem a sua rotina esmagadora com o desastroso presente que as rodeia, indo desde um patrão aproveitador até à viuvez involuntária. Mãe, que não era muito festejado no Brasil até receber o Portugal Telecom por A Máquina de fazer espanhóis, recebe o merecido reconhecimento pela sua obra. Assim como A Vida privada das árvores, foi lançado em meados dos anos 2000 em Portugal, m as só chegou por aqui neste ano.

6. Divórcio – Ricardo Lísias (Alfaguara)

Dissoluções de casamentos e relacionamentos são uma constante na literatura e já não nos fazem mais tremer. Esse não é o caso de Divórcio. Lísias, após encontrar o diário da esposa, se vê às voltas a repulsa e a infelicidade da mulher amada – que não é exatamente a pessoa que ele pensava ser. Ao se confrontar com essa realidade, o personagem central precisa se reerguer e encontrar forças para voltar a escrever e viver a sua vida. O grande trunfo do livro é a verdade nua e crua, verdade que chegou ao causar um certo mal-estar, já que muita gente se reconheceu no romance.

5. Mudança – Mo Yan (Cosac Naify)

O escritor chinês Mo Yan surpreendeu a todos quando levou o Nobel de Literatura do ano passado – quando o favorito era o japonês Haruki Murakami. Até então inédito no Brasil, ele chegou às terras tupiniquins com um livro autobiográfico – um tendência mundial, ao que parece – em que conta a sua infância pobre, sem perspectivas, seu ingresso no exército e sua transformação em escritor. Mudança pode não ser uma obra-prima do autor, mas é uma boa introdução aos próximos títulos a serem lançados por aqui.

4. Todos nós adorávamos caubóis – Carol Bensimon (Companhia das Letras)

Uma das mais gratas revelações da literatura brasileira dos últimos anos, Bensimon conta a história das amigas Cora e Julia que, com um quê de road movie, faz um acerto de contas entre as duas. Ao colocar os “pingos nos is”, a autora coloca os destinos de seus personagens em xeque, cortando e desfiando as possibilidades de um final feliz. Mas não é o final que realmente importa, já que o recheio é o que preenche com maestria Todos nós adorávamos caubóis.

3. Toda poesia – Paulo Leminski (Companhia das Letras)

Leminski estava há alguns anos esquecido pelas editoras, à exceção da Iluminuras que relançou Catatu e Agora é que são elas. Mas a audácia da Companhia das Letras ao compilar (praticamente toda a obra (poética) de curitibano em um único volume trouxe de volta a lembrança da importância de um homem que não só foi poeta, como também tradutor, biógrafo, prosador e publicitário, além de ser parceiro de grandes nomes da música brasileira. Na esteira de Toda poesia, veio Vida – volume com quatro biografias escritas por Leminski -, a exposição Múltiplo Leminski e diversas apresentações musicais.

2. Vida querida – Alice Munro (Companhia das Letras)

Um pouco mais conhecida no Brasil que Mo Yan, seu antecessor no Nobel de Literatura, a escritora canadense tem na riqueza psicológica de seus contos sua maior características. Vida querida é justamente um condutor, pois coloca o leitor em contato com o universo criado por Munro. Entretanto, a riqueza dos seus textos é proporcional à brevidade de seus escritos, que encantam pela concisão e pela forma direta em que tudo é discutido.

1. Autobiography – Morrissey (Penguin Classic)

Tudo bem, o livro do cantor britânico ainda não chegou a ser lançado aqui, propriamente dito – o que deve acontecer somente em abril do ano que vem -, mas sua edição original inglesa foi suficiente para movimentar o mercado da importação. Contando a sua vida com seu lirismo incondicional, Morrissey reflete sobre relacionamento com o fotógrafo Jake Walters, em meados dos anos 90, quando o “eterno ‘eu’ se transformou em ‘nós’”. Infelizmente, essa passagem será cortada da edição brasileira, assim como foi da americana e, provavelmente, será das próximas lançadas na Inglaterra. Mas o livro é muito mais que isso: é possível conhecer a rivalidade entre seus músicos, seu desapontamento com os antigos companheiros de The Smiths e que sua irmã tentou matá-lo algumas vezes.  

  Bônus tracks

O Lugar sem limites – José Donoso (Cosac Naify)

Donoso é considerado um dos maiores escritores chilenos de todos os tempos, porém foi por anos deixado de lado no Brasil. O lançamento de O Lugar sem limites, originalmente publicado em 1956, faz jus à memória do autor, morto em 1996, mas que não teve nenhum pudor ao contar a história de Manuela, uma transexual a dona de um bordel, em um povoado pobre no interior de seu país.

Lanterna mágica – Ingmar Bergman (Cosac Naify)

Bergman foi, sem dúvida, um homem com uma carreira cinematográfica incrível, no entanto, a sua vida pessoa não fica atrás. Por isso, ao contar o seu passado, o cineasta mostra o amálgama entre homem e artista, uma perigosa combinação – que pode gerar confusão e desapontamento aos desavisados.

Pescoço ladeado por parafusos – Manoel Carlos Karam (Arte e Letra)

É muito difícil enquadrar Karam em qualquer gênero e com Pescoço ladeado por parafusos a empreitada é muito pior. A editora curitibana Arte e Letra cumpre o seu dever (levando arte e literatura) ao ressuscitar Karam, morto em 2008. Apesar de ter nascido em Santa Catarina, ele é um dos maiores escritores paranaenses, tendo inclusive uma importante passagem pela Tribuna.

Conheça também a lista dos piores livros de 2013.