O novo coronavírus que circula agora não é exatamente o mesmo que foi detectado na China no início da pandemia. Como todo vírus, o Sars-Cov-2 sofre mutações. E uma dessas mudanças genéticas gerou debate na comunidade científica: o vírus se tornou capaz de se espalhar mais rápido? Essa mutação pode afetar as vacinas que já estão em desenvolvimento?

Cerca de 30 mil “letras” formam o genoma do vírus causador da covid-19. Em algum momento no início do ano, uma mutação causou a troca de uma letra A (aminoácido ácido aspártico) para G (aminoácido glicina) na posição 23.403 do genoma. Embora minúscula, a troca ocorreu na área que codifica a proteína “spike”, estrutura em forma de espinho que o Sars-CoV-2 usa como chave para invadir células humanas.

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Essa mutação, chamada de D614G ou simplesmente “G”, está presente na forma do vírus que se tornou dominante no mundo todo, segundo estudo publicado na revista científica Cell em julho. Essa variante representava 10% de amostras coletadas de pacientes pelo mundo em março e chegou a 78% em maio. Os pesquisadores dos Estados Unidos disseram que essa mutação dominou o planeta possivelmente por ser mais transmissível, mas a questão ainda está em debate.

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O artigo da Cell relata ainda que a forma G não parece causar uma forma mais grave da doença. De fato, o novo coronavírus pode ser bem sucedido justamente porque causa apenas poucos ou nenhum sintoma na maioria dos pacientes.

“Normalmente, linhagens menos virulentas acabam tendo mais sucesso evolutivo”, explica a geneticista Maria Cátira Bortolini, do Laboratório de Evolução Humana e Molecular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “A seleção natural não favorece um vírus que mata o hospedeiro, porque [o vírus] morre junto. Ela trabalha para que o vírus se propague. O fato dessa linhagem ser mais eficiente na replicação e não ser mais virulenta está de acordo com o esperado”, diz Bortolini, que coordenou um estudo que descobriu um mecanismo genético que facilitou a propagação do novo coronavírus em humanos.

Futuras vacinas

Uma mutação que afeta a proteína spike e se tornou tão comum trouxe questões sobre o funcionamento de vacinas que estão sendo desenvolvidas com base na versão original do Sars-CoV-2. Mas se a mutação D614G deu maior capacidade de infecção ao coronavírus, parece que também o deixou mais vulnerável a anticorpos neutralizantes, sugere um estudo divulgado na plataforma preprint medRxiv em 24 de julho.

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Pesquisadores da Universidade da Pennsylvania (EUA) queriam saber se a variante G poderia escapar da resposta imune induzida por uma vacina. Para isso, eles injetaram a vacina da empresa Moderna em humanos, ratos e macacos, e coletaram amostras de sangue semanas depois, já com anticorpos.

Eles descobriram que os anticorpos se ligavam ligeiramente mais ao pseudovírus (vírus sintético) com a mutação – o que indica que ela não impediria as vacinas atuais. Outra descoberta recente também trouxe notícias animadoras. Segundo um estudo da Universidade de Bologna (Itália), o novo coronavírus apresenta pouca variabilidade, o que é uma boa notícia para os pesquisadores que buscam uma vacina. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram mais de 48 mil genomas do Sars-CoV-2, que foram isolados em laboratório de todo o mundo.

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O estudo, publicado no final de julho no periódico Frontiers in Microbiology, relata que o novo coronavírus tem seis cepas (ou variações) principais e em média sete mutações por amostra. A taxa de variabilidade do vírus da gripe comum é mais do que o dobro, por exemplo.

“O coronavírus Sars-CoV-2 provavelmente já está otimizado para afetar seres humanos, e isso explica a sua baixa mudança evolutiva”, explica Federico Giorgi, coordenador do estudo italiano, em comunicado à imprensa. “Isso significa que os tratamentos que estamos desenvolvendo, incluindo uma vacina, podem ser eficazes contra todas as cepas do vírus”.