Se um paciente desenvolve um quadro mais grave da Covid-19, os médicos sabem que parte da culpa está em uma reação exagerada do sistema imunológico, que desencadeia a chamada “tempestade de citocinas”. Estas são substâncias que instigam uma resposta inflamatória do organismo diante de um agente infeccioso, como o novo coronavírus.

O aumento dessas citocinas, e o impacto delas na saúde, já era conhecido dos médicos. O que não se sabe ainda é qual paciente vai evoluir para quadros de maior gravidade e quais não. Embora as doenças crônicas associadas, como hipertensão, diabetes ou mesmo obesidade, sejam indicadores de uma doença potencialmente mais grave, nem todos seguem esse padrão.

LEIA TAMBÉMParaná tem 54 mortes e quase metade dos internados por covid-19 em UTIs neste sábado

Um estudo publicado no fim de julho na revista científica Nature tenta trazer essa resposta. Pesquisadores da Universidade de Yale e de Rockefeller, nos Estados Unidos, analisaram a resposta imunológica de 113 pacientes internados com sintomas moderados (sem estarem em Unidades de Terapia Intensiva) e graves (em UTIs), ao longo de 25 dias. Nos resultados, perceberam uma associação entre o aumento das citocinas após o 10º dia da doença e um quadro mais grave da covid-19.

Esse período coincide com o pico de reprodução do vírus no organismo, o que tende a aumentar o trabalho das citocinas, favorecendo uma resposta intensa do sistema de defesa. Embora os pacientes com um quadro mais moderado também apresentassem elevação na produção dessas substâncias, ao longo do tempo elas reduziram em quantidade. O mesmo não era visto entre aqueles com quadros mais graves.

“Essas observações indicam diferenças acentuadas na expressão dos marcadores inflamatórios durante a progressão da doença, entre pacientes que exibiram sintomas moderados versus pacientes com sintomas mais severos da Covid-19”, detalham os pesquisadores na publicação. Desenvolvido nos Estados Unidos, o estudo contou com pesquisadores brasileiros, como a pós-doutoranda em Imunobiologia Carolina Lucas e o pesquisador em Imunologia Tiago Castro.

Conhecendo melhor o “inimigo”

Apesar de o estudo não trazer uma resposta direta para o tratamento da covid-19, ele amplia o entendimento da própria doença, de acordo com Isabel Kinney Ferreira de Miranda Santos, médica imunologista e professora associada do departamento de Bioquímica e Imunologia da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto.

“Conhecer o ‘inimigo’ já é metade do caminho andado. [O estudo] não resolve do ponto de vista do paciente, mas ajuda a entender o que está acontecendo. É uma pesquisa importante para entender o mecanismo da doença, por que o paciente está ficando grave e ter um biomarcador para ver quais pacientes têm maior chance de evoluir mal”, explica a especialista.

A médica infectologista Viviane Maria de Carvalho Hessel Dias concorda. “É uma chamada de atenção importante para esse padrão. Entender qual é o paciente que vai ter problema com uma doença mais grave, além das comorbidades e, se a pessoa não tiver doenças associadas, qual é o padrão de imunidade que pode fazer o médico suspeitar de uma piora? Quanto melhor entendermos a fisiopatologia da doença, melhor podemos direcionar”, explica a especialista, que também é coordenadora do núcleo de Epidemiologia e Controle de Infecções Hospitalares do Hospital Marcelino Champagnat, e presidente da Associação Brasileira dos Profissionais em Controle de Infecções e Epidemiologia Hospitalar.

LEIA MAIS Prestes a alcançar 20 mil infecções, Curitiba tem 15 mortes por covid-19 neste sábado

Diferentes citocinas

Como há uma variedade grande de tipos de citocinas no organismo, o estudo também detalha quais tiveram maior impacto na mortalidade, e quais menos. Destaque foi dado à citocina CCL2, que também está envolvida na obesidade, condição que aumenta o risco de complicações na Covid-19.

“Essa é uma coisa que já se desconfiava, e eles confirmaram no estudo. IMC [Índice de Massa Corporal] alto está associado a um aumento de 60% no risco de morte. Essas citocinas, CCL2, estão associadas com obesidade. Todos os marcadores avaliados estão envolvidos na obesidade, e isso é interessante”, explica a imunologista Isabel Santos.

Para a especialista, a covid-19 tende a piorar uma inflamação que a pessoa já tenha, desencadeada por doenças de base, como uma hipertensão, por exemplo. O uso de medicamentos que combatam essas citocinas, portanto, poderia ajudar no tratamento.

Um deles é um anticorpo monoclonal (tipos de anticorpos, ou agentes que atuam na defesa do organismo) chamado de tocilizumab, que atua bloqueando a ação da citocina IL6, ou Interleucina 6 – também identificada no estudo. O uso da medicação no início dos sintomas, no entanto, não é viável, segundo explica Victor Horácio de Souza Costa Junior, médico infectologista pediatra do Hospital Pequeno Príncipe e professor da PUCPR e da Faculdade de Medicina do Pequeno Príncipe.

“Alguns pacientes graves têm usado o tocilizumab, já faz parte do protocolo de alguns. Mas, de forma geral, o uso desse medicamento no início dos sintomas não será feito, porque é uma medicação cara. O que terá de reflexo ao paciente é o uso do anticorpo entre aqueles graves, para reduzir a resposta inflamatória”, avalia o médico.

Segundo os pesquisadores, essa é uma das possibilidades apontadas pelo estudo. “De forma geral, nossa análise oferece um exame abrangente das diversas dinâmicas inflamatórias durante a Covid-19 e possíveis contribuições sobre diferentes mediadores inflamatórios que atuam na progressão da doença. Isso levanta a possibilidade de uso de intervenções imunológicas iniciais, que mirem nos marcadores inflamatórios preditivos de cenários piores, para bloquear o aparecimento tardio das citocinas”, destacam.