Muitas vezes mais que uma hecatombe, na mitologia grega o sacrifício ritual de cem bois, é a enfadonha tarefa de levar a efeito o sacrifício sanitário de quase sete mil bovinos em várias fazendas do Estado, nas quais se detectou a presença do vírus causador da febre aftosa.

São as cenas finais da estranha e longa novela iniciada no ano passado, com o alarde feito pelas autoridades sanitárias sobre um foco de aftosa no Mato Grosso do Sul, próximo à divisa com São Paulo e Paraná. Em tempo recorde o vírus também foi detectado em fazendas paranaenses.

Desde então escorreu uma série de informações desconexas entre si, escancarando o total desencontro de ações protagonizadas pelo Ministério da Agricultura e a Secretaria da Agricultura e Abastecimento, essa, na verdade, cerceada pela limitação de recursos tecnológicos para o estabelecimento de laudo definitivo e à mercê do resultado das análises realizadas em laboratórios federais.

Mesmo depois do sacrifício dos animais existentes na fazenda de Eldorado do Sul, MS, cujas amostragens foram encaminhadas para análise laboratorial, concluiu-se pela não existência de dados confiáveis para atestar a presença da febre aftosa, ensejando a suspensão da barreira sanitária à carne e derivados oriundos da região sob suspeita.

A essa altura, porém, o prejuízo era irreversível, tendo em vista o bloqueio às importações imposto pela maioria dos países compradores da carne bovina paranaense. A pecuária estadual sofreu um baque financeiro de imensas proporções, ora agudizado pela confirmação dos focos e imediata eliminação dos animais.

Esse contexto prenhe de dúvidas e ambigüidades exercerá efeito contrário sobre o até então louvado apuro tecnológico da nossa pecuária, que deverá cumprir um período de 180 dias até estar apta a obter novo certificado negativo de febre aftosa.

Ocorre que a reação do mercado comprador de carne bovina não se dá com a mesma rapidez e, não raro, a quarentena se estende por anos até o reinício das importações. Nesse tempo de incerteza quanto ao futuro da atividade, o criador limitará investimentos na melhoria genética do rebanho, gerando um círculo vicioso de médio e longo prazo, com prejuízos inevitáveis.

A pecuária paranaense acaba de ingressar, literalmente, na sua fase de vacas magras.