Quem anda na garupa não segura as rédeas, dizia o quase imperceptível vice-presidente Marco Maciel. Dele não se tem memória de uma só discordância do quanto disse, fez e refez o titular Fernando Henrique Cardoso. Em silêncio, ele vivia aparando e costurando as pontas. Já o vice de Lula, empresário José Alencar, além de segurar as rédeas do poder nas viagens do titular, quando está na garupa dá palpites sobre a marcha da montaria. Apesar de sua idade, já na casa dos 71 anos, é um participativo co-piloto de viagem. E tem razões de sobra. Mas não se diga que o companheiro Alencar faça isso movido por qualquer pretensão ou ambição. “Eu não ingressei na vida pública para atender qualquer tipo de necessidade pessoal”, avisa ele.

José Alencar já disse, repetiu e fundamentou: é contra os altos juros praticados no Brasil, um país que rema contra a maré dentro de um universo globalizado, onde economias, como a japonesa, apresentam juros com taxas negativas. E ele, a exemplo do que ocorre com a banda radical do PT, não é contra sozinho. O braço empresarial de Lula, o metalúrgico sindicalista que em outros tempos já esbravejou juros e usuras, fala pelas multidões silenciosas. “Indiretamente – ensina o vice-presidente – cada brasileiro está pagando” isso que aí está. E pagando caro.

O que Alencar diz, encontra ressonância nos agentes econômicos brasileiros. Melhor dizendo, ele fala o que esses agentes, empresários de carne e osso como ele, pensam. Há ociosidade nas lojas, que traz o encarecimento dos custos – diz -, observando que “o Brasil, além do desemprego, está às voltas com o subemprego” e a “única saída é a retomada do crescimento”. Não haverá, entretanto, estímulos para investimentos enquanto as taxas de juros forem inibidoras. Esse, aliás, foi o discurso de campanha dele, que continua preocupado com a estagnação do País, e de seu aliado Lula.

Conta a crônica brasiliense que o presidente Lula anda irritado com as declarações do vice. Tão irritado que na quinta-feira, antes de partir para o Peru, ficou calado durante a solenidade de lançamento do programa de revitalização das ferrovias. Mal conseguiu sorrir para Alencar que, entretanto, assumindo as rédeas da montaria, ou seja, a cadeira de presidente, manteve-se eticamente calado e rejeitou qualquer tipo de provocação. Uma das demonstrações dessa irritação teria sido o pronunciamento do presidente da Câmara, deputado João Paulo, que qualificou de “tagarelas” todos quantos do governo defendem a redução dos juros.

O presidente da Câmara, percebendo o alcance de suas palavras, ligou depois pessoalmente ao vice-presidente para tentar desfazer o equívoco. “Não tem problema nenhum” – teria dito Alencar – para aduzir: “Mas, João Paulo, nós estamos encabrestados com esses juros; temos de sair disso”.

Fosse em outras épocas, juros nessas alturas significariam um ato de continuada subserviência aos interesses do FMI – o Fundo Monetário Internacional que hoje elogia o governo do PT. Significariam também a mancomunação do governo com os capitais voláteis e de arribação, que chegam quando querem e se vão quando bem entendem, sem nada deixar aqui plantado. Por qual motivo hoje seria diferente? Onde estaria a graça de fazer tudo certinho, exatamente como querem os mercados financeiros, em detrimento – como diz o vice Alencar – da produção e do desenvolvimento do País?

É uma explicação que nos deve o governo de Lula. Afinal, encabrestados estão todos os brasileiros. Pouco a pouco, ficaremos todos tagarelas, roucos de reclamar. Como antes.