O discurso já está pronto: se o programa Fome Zero, lançado oficialmente em festa retumbante, quinta-feira, em Brasília, não der certo e fracassar, isso deve ser debitado mais à falta de mobilização e engajamento da sociedade que à inapetência ou desacertos do governo. Autorizam a assim pensar as palavras textuais do presidente Lula, logo no exórdio de sua emocionada oração aos brasileiros: “Sei que muitos, antes de mim, tentaram enfrentar de algum modo o problema da fome no Brasil. E se não o solucionaram, foi porque essa causa não teve a prioridade que merece, nem contou com a indispensável mobilização da sociedade”.

Ora, prioritário o problema é para este governo que, instalado há apenas um mês, faz três que só fala no programa, tendo nesse interstício promovido inclusive uma visita ministerial – o “fometur” – a três áreas onde a pobreza humana foi considerada exemplar. Logo, se algo errado acontecer e a fome persistir, o fracasso retumbante do combate à fome estará por antecipação detectado: não houve o engajamento ou a mobilização da sociedade no nível necessário.

Em outras palavras, o que o presidente Lula quis dizer, ou melhor, disse claramente, é que esta “guerra para salvar vidas” é problema nosso. De todos. Aliás, como está sendo nossa a responsabilidade pela solução de outros problemas: das estradas, através do pedágio; da segurança, através de portões eletrônicos, guarda particular ou blindagem e isolamento; da falta de vaga nas escolas públicas, pela compra a peso de ouro de vagas nas escolas e universidades privadas; da falta de habitação, pela humilhante morada sob a ponte ou em cortiços onde o morro desliza e mata…

Como está sendo também nosso o problema do analfabetismo: em seis anos, segundo diz um folheto com a imagem do ministro Gilberto Gil em pose de pedinte, o programa “Alfabetização Solidária” atendeu mais de três milhões de alunos em mais de dois mil municípios brasileiros. O programa consiste em adotar um analfabeto, criança, jovem ou adulto. E isso é feito através da autorização de desconto, em cartão de crédito, de R$ 17,00 por mês, durante seis meses. A campanha, com o apoio da Aneel, tem telefone, fax, banco e site na internet.

O problema também é nosso para centenas de instituições (asilos, creches, hospitais) que passaram a profissionalizar seus serviços de telemarketing, que não dão tréguas aos cidadãos, já assaltados também nas campanhas de arrecadação locais, naquelas instituídas em condomínio, sala de aula ou local de trabalho. Sem falar no pedido de ajuda embutido nas contas de luz, água, telefone, com seguros conta apagão e coisas do gênero, ou descaradamente adicionadas ao preço dos combustíveis, ou cobradas em forma de gêneros comestíveis, algumas de meritória finalidade.

O Brasil não pode continuar com tanta desigualdade, disse o presidente Lula da Silva ao declarar guerra à fome e, assim, dar início ao supermutirão das doações com que sonham os coordenadores do Fome Zero. De fato, é uma ignomínia. Mas se neste País não se resolve mais nada sem doação, onde vão parar os impostos pagos, muitos em cascata, pelos brasileiros de todos os calibres? As nossas diferenças já não começam aqui, onde o dinheiro de muitos vai para a manutenção de um sistema de governo que se basta em si próprio, guloso de mordomias e privilégios que a poucos aproveita, e se descuida de oferecer serviços, obras e ações em benefício de todos?