A Questão do Contestado é bastante complexa. Para se entender melhor este evento deve-se buscar o conhecimento de toda a problemática atendo-se aos diferentes aspectos que poderão ser, apenas como exemplo e em princípio, divididos da seguinte forma: Aspecto antropológico ? o homem do Contestado, Aspecto político-geográfico ? questão de limites ? mapa do Contestado, Aspecto religioso ? messianismo ? catolicismo rústico, Soberania nacional ? poder central ? a Velha República, Conflito armado ? a narrativa da Guerra e Conseqüências.

O homem do Contestado foi aparecendo e se instalando por aqui já nos primeiros séculos da colonização brasileira. Veio com as primeiras expedições portuguesas e, principalmente com as expedições espanholas que insistiam, primeiramente, no Tratado de Tordesilhas, no Tratado de Madri e em tratados posteriores que garantiam a posse das terras descobertas na América do Sul. Esse contingente já era formado por um povo miscigenado com a invasão da Península Ibérica pelos árabes, que ficaram naquela região européia por mais de meio milênio. Observe-se que o povo árabe era, por aquela época, de índole nômade e, ao ser expulso da península não saiu totalmente da região. Já havia se miscigenado aos espanhóis e portugueses, deixando no genoma desses povos algumas características de sua índole.

Ao chegar à América, com as diferentes expedições, aqui também se miscigenou com as índias, primeiramente e depois com os negros, poucos ainda na região sul brasileira. Tanto o árabe, quanto o negro e, principalmente, o ameríndio não traziam no seu caráter a índole de lavrador. Eram povos que viviam do extrativismo, buscando na natureza a sua sobrevivência. Colhendo os frutos naturais, caçando, pescando e mudando de lugar, sempre de acordo com a geografia de seu “habitat“. Porém, traziam características de criadores de animais.

Além disso, o tropeirismo que comercializava animais de tração, montaria e corte, fazendo a rota entre São Paulo e Rio Grande do Sul, quiçá Argentina, deixaram muitos tropeiros por essas bandas. Estes foram formando verdadeiros latifúndios e começaram a arrebanhar o gado selvático que abundava na região, criá-los e comercializá-los, adaptando-se ao clima e à geografia, constituíram famílias e seu modo de vida ? criadores extrativistas. Poucas eram as lavouras. Quando foram criadas as províncias no Brasil, não havia entre São Paulo e Rio Grande do Sul a Província do Paraná. Havia apenas a província de Santa Catarina. Mais tarde, com a criação da Província do Paraná, não foram definidos os limites. O Paraná, como era da índole dos pioneiros portugueses, foi tomando conta do território, criando núcleos e atribuindo impostos aos comerciantes de erva-mate e de animais. Isso provocava uma revolta muito grande naqueles estancieiros que se julgavam catarinenses, principalmente na região de Canoinhas, Três Barras, Major Vieira, Valões e outras localidades próximas.

Observe-se que para garantir a posse das terras e a segurança nacional o Império deu a esses estancieiros o título de “Coronéis da Guarda Nacional”, de acordo com o número de homens que tivessem sob o seu comando. Em tempos de paz, atuavam como peões na criação de gado e na extração da erva-mate. Em tempos de conflito, eram os soldados da pátria, que na questão do Contestado denominaram-se vaqueanos. Esses coronéis eram ligados ao poder oficial e garantiam as eleições de seus correligionários. Havia rivalidades políticas entre eles. Eram os senhores da vida e da morte de seus subordinados. Padrinhos dos filhos de seus agregados e os “mandachuvas” de seus domínios. Nessa região contestada pelo Paraná, por Santa Catarina e até pela Argentina, só transitavam os coronéis, os vaqueanos, os tropeiros, os índios, enfim, o povo do Contestado, que vivia tranqüilamente, não fora o problema da taxação de impostos e a indefinição dos limites. Não há notícias de que algum deputado, algum Presidente de Estado ou governante, por mais inferior que fosse, aqui houvesse aportado. Ninguém se interessou em observar “in loco” esta região.

Porto União

Em Porto União há de se estudar com carinho a questão dos limites, pois essa arbitrariedade partiu o coração de Porto União da Vitória ao meio, deixando-nos uma herança de dependência. Tudo foi se agravando. No mundo ocidental moderno, da época, na Europa, descobriu-se um meio revolucionário de transportes. A Estrada de Ferro que, com suas locomotivas podiam tracionar dezenas de vagões que transportariam toneladas de produtos, em tempo “record” e com segurança. O Brasil viu nessa inovação a possibilidade de tomar posse efetiva das terras sulinas, de garantir a povoação da região, de transportar as mercadorias com maior rapidez e construir essa via quase a custo zero. Para tanto, deu uma Companhia Americana a “Southern Brazil Lumber & Colonization Company” , subsidiária de “Brazil Railway Colonization & Development Company” , o direito de explorar as terras contestadas, quinze quilômetros de cada um dos lados que margeariam a dita ferrovia, tirando daqui toda madeira de lei milenar (imbuias, pinheiros, cedros e outras), das matas nativas de Santa Catarina e do Paraná.

Além disso, poderiam vender os lotes das terras devolutas, demarcadas nesse mapa a europeus que seriam trazidos ao Brasil para “branquear” o povo brasileiro e transformar a região em sítios agrícolas. Insisto. Para cá não veio nenhuma autoridade brasileira do poder executivo ou mesmo legislativo, não fora os agrimensores, o Engenheiro João Teixeira Soares e aqueles que fizeram o levantamento topográfico à Estrada de Ferro. Mas, veio até o Coronel Theodore Roosevelt, que foi Presidente dos Estados Unidos, com o intuito de verificar o potencial madeireiro a ser explorado. E o fizeram muito bem. Para a construção dessa via férrea contrataram gentes de várias regiões brasileiras, notadamente da Bahia e do Rio de Janeiro. Para aqui vieram homens de boa índole, pais de famílias, fugitivos da justiça, desertores, bandoleiros, ladrões, desocupados de toda sorte e trabalhadores honestos. Enfim, era o contingente que colocaria a funcionar a Estrada de Ferro. Ao final da construção da obra foram dispensados sem nenhuma garantia trabalhista, sem nenhum recurso para retornarem aos seus locais de origem, sem nenhum meio de sobrevivência e ainda sem poder se estabelecer em nenhum pedacinho de terra ao longo dos trinta quilômetros que margeavam a ferrovia. Como não possuíam economias, já que tudo era deixado nos armazéns da Companhia, seu destino era vagar, nem tendo estrada para andar, feito o povo de Deus.

O Brasil, uma neo-república, não garantiu sob contrato com os americanos a previdência de seu povo, não estabeleceu políticas públicas. Esse foi o grande erro. Estavam os governantes, pois, preocupados em garantir o poder. Quem haveria de governar a República, quem faria parte do poder e não se interessavam pelo seu povo que é a essência de uma nação. Para quê? Se não estavam sob as suas vistas. Nem sabiam o que se passava no sul e nem queriam saber. Esse contingente humano, na sua maioria ignorante e miserável, tendeu a se agrupar aqui e ali, engrossando a massa popular com os posseiros e agregados, espoliados de suas terras, na tentativa de sobreviver. Quando surgiu uma esperança.

O monge

Um líder natural alcunhado de José Maria, à guisa de monge, conforme já circularam por essas bandas dois outros anteriores. João Maria de Agostini, jesuíta, culto e inteligentíssimo, que naquela época, já pregava a preservação ecológica surgido ao final da Monarquia brasileira e João Maria de Jesus, posterior ao primeiro, curandeiro e errante que só fez o bem ao povo desassistido pela igreja que não enviava seus ministros à evangelização de ermos tão desconhecidos. Esteve em Porto União, cavou grutas no Morro da Cruz, plantou cruzes, fez profecias, benzeu as águas do pocinho e desapareceu, como o primeiro, sem deixar rastros. José Maria, ao contrário dos antecessores, permitia o ajuntamento de pessoas ao seu derredor, formando verdadeiros arrais. Pregando, benzendo, distribuindo mezinhas e chás, curando e, quando sua situação foi questionada, instigando à insurreição à República. Estava arranchado próximo a Curitibanos, nas terras do Coronel Francisco de Almeida. Era prestígio político abrigar esse homem que, certamente, garantiria muitos votos. Causou ciumeiras em outro Coronel, Francisco de Albuquerque, que enviou correspondência ao Presidente do Estado de Santa Catarina, denunciando rebeldia e insurreição. O governante catarinense enviou tropas policiais para demover os rebeldes. José Maria fugiu para Irani, tida como terra paranaense. O Paraná acreditou que Santa Catarina estivesse invadindo seu território e enviou tropas policiais para desmantelar a ocupação. Deu-se o primeiro conflito armado. Morreu José Maria e morreu o Comandante João Gualbert, das forças policiais paranaenses. Começou a Guerra do Contestado, que duraria até 1916.

O relato dessa Guerra, esse trágico evento, poderá ser estudado nos mais de cem livros já publicados por diferentes autores e em outros tantos que estão no prelo. Quero apenas acrescentar que nada foi certo e nada foi errado. Havia apenas a realidade. Cada lado buscava o seu direito ou o seu dever. De maneira intemerata tomaram decisões, agiram e reagiram, conforme as circunstâncias da época. Não há de se buscar culpados e nem vítimas, mas apenas levantar o passado para prevenir o futuro. E lhes dizer que estudar o Contestado é conhecer a nossa própria história. Saber porque a nossa região é a mais pobre do sul brasileiro, saber porque, enquanto 11% dos jovens entre 18 e 24 anos do restante do Estado cursam a Universidade, nossa região só agora coloca 2% na Instituição Universitária. Saber porque a nossa gente ainda visita o pocinho de São João Maria para batizar seus filhos na Sexta-feira Santa, mas já não lhes dá mais os nomes de João Maria ou Maria José. Ignorando a história de nossa gente, dá o nome de suas crianças de Jeniffer, Uesley, Tífani e outros tipicamente americanos, contrariando a sua própria descendência de Povo espoliado.

Estudar o Contestado é saber que só através da educação e do conhecimento sairemos, mesmo que a longo prazo, desse “status quo” . Estudar o Contestado é encontrar caminhos para não incorrer nos mesmos erros que provocaram uma guerra entre irmãos. Somos responsáveis, principalmente os governantes, em encontrar formas para dar trabalho, estabelecendo políticas públicas, garantindo dignidade àqueles que não têm índole de lavrador. Não adiantará tirá-los de nossas vistas sem lhes dar cidadania, pois voltarão a se reunir ao comando de quem lhes der esperanças, haja vista o MST ? Movimento dos Sem Terra -, que surgiu em Caçador, SC, e se alastrou no Brasil todo e ainda não é levado a sério. Estudar o Contestado é conhecer as periferias de nossas cidades, é conhecer as abandonadas casas das vilas ferroviárias ao longo da desativada Estrada de Ferro e ver o que ali acontece. Estudar o Contestado é incluir como cidadão o caboclo, o negro, o alemão, o polaco, o ucraíno, o bugre, o italiano, o mascate, o russo, o francês, o suíço, o austríaco, o português e outros tantos descendentes que formam a gente de nossa terra. Se um só for excluído, continuaremos a condenar à miséria humana aqueles que só terão as vinhas da ira para colher.

Irene Rucinski é a autora é professora e membro da Academia de Letras do Vale do Iguaçu (ALVI)