Na primeira entrevista como candidata do PV à Presidência da República, a senadora Marina Silva (AC) defendeu a sanção do projeto que concede reajuste de 7,72% aos aposentados que ganham acima do salário mínimo e posicionou-se contra o fim do fator previdenciário. Ela reconheceu a necessidade de redução do déficit da Previdência Social, mas argumentou que deve ser feita “justiça pública” com os aposentados. “O reajuste é importante para que essas pessoas recuperem o seu poder aquisitivo, pois gastam muito com remédios”, disse ontem à noite, em entrevista no Programa Roda Viva, da TV Cultura.

Marina Silva considerou o aumento pequeno em comparação com outros gastos do governo federal. “O BNDES faz empréstimos de R$ 8 bilhões a empresas que não merecem. Eu daria R$ 1 bilhão aos aposentados.” Hoje acaba o prazo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionar ou vetar as propostas.

Na entrevista, Marina voltou a se colocar como uma alternativa entre PT e PSDB. A candidata do PV defendeu políticas adotadas pelos dois partidos quando no comando do Palácio do Planalto e negou ser uma candidata de oposição. “Não estou nem à esquerda nem à direita, mas à frente.” A presidenciável se comprometeu a dar continuidade ao Plano Real e ao Bolsa Família, o que avaliou serem “as grandes conquistas dos governos anteriores”. “O amadurecimento do Brasil é dar continuidade às politicas dos últimos 16 anos, mantendo os avanços, mas fazendo mais.”

Apesar do tom amistoso, Marina não poupou os adversários de críticas. De acordo com ela, tanto o candidato do PSDB, José Serra, como a candidata do PT, Dilma Rousseff, são desenvolvimentistas e se colocam como “gerentes do Brasil”. “Não tenho nada contra o José Serra e a Dilma Rousseff, mas contra algumas de suas crenças.”

Para Marina Silva, o País não precisa de “gerentes”, mas de líderes que saibam planejar. Ela deu como exemplo o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), vitrine eleitoral de sua adversária petista. “O PAC não é um programa, mas um ajuntamento de obras, um gerenciamento de obras. O Brasil precisa ter planejamento econômico e enérgico”, provocou.

Em outra crítica ao PT, a candidata do PV reconheceu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem exagerando no apoio dado a Dilma e cobrou respeito à Justiça Eleitoral. “É legítimo que quem seja de um partido se envolva com o candidato desse partido, mas quando se é presidente não deve haver exagero neste envolvimento”, ressaltou Marina. “Não quero que o presidente tenha um papel coadjuvante nas eleições, mas acredito que tenha de haver observância à Lei Eleitoral.”

Perguntada, Marina Silva creditou a sua saída do PT à ausência de realizações concretas no governo Lula na área de Meio Ambiente. Segundo a ex-ministra, o seu ex-partido alcançou vitórias na luta pela democracia e na promoção da justiça social, mas deixou a desejar quanto à sustentabilidade. “Preferi ser uma relva no campo a ser um bonsai no Palácio do Planalto”, disse. “A questão ética também foi um fator que me deprimiu. Mas o que mais pesou na minha saída foi a falta de visão do PT quanto aos problemas que o País enfrenta na área ambiental”, explicou. De acordo com a candidata do PV, o incentivo do governo federal à produção de energia nuclear é um erro. “É uma energia suja e perigosa. Defendo que seja investido o mesmo dinheiro em energias limpas e seguras, como a hidrelétrica e a biomassa, por exemplo.”

Irã e religião

A presidenciável defendeu o diálogo do Brasil com o Irã, mas considerou equivocada a maneira como o acordo nuclear com a Turquia, intermediado pelo Brasil, foi conduzido. Para Marina Silva, as conversas entre os dois países deixaram de ser negociações para se transformar “em espaço de audiência” do Irã. “O Brasil foi em direção contrária ao que fizeram as outras democracias modernas.” A candidata do PV rechaçou as sanções impostas pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) ao país do Oriente Médio, mas considerou que o Brasil deu muito espaço a uma nação que “atenta contra os direitos humanos”.

Questionada se, caso eleita, rezará antes de sancionar cada proposta que chegar ao seu gabinete, a senadora evangélica respondeu, entre risos, não se considerar uma pessoa de “fé”, sugerindo não ser de fé exagerada, e disse não ver problema em o Brasil ter um presidente que faça orações. “No Brasil temos, graças a Deus, um Estado laico, que favorece quem tem fé e não tem fé”, afirmou. Marina ressaltou que o fato de uma pessoa ter fé não a incompatibiliza para governar o País e lembrou que os eleitores não estão elegendo nem um padre nem um pastor, “mas o presidente da República”. “Eu não vou transformar púlpitos em palanques nem satanizar os outros candidatos. Porque política com P maiúsculo se faz com ética em relação ao seu concorrente.”