Rasgando dinheiro. É cada vez mais inerente a quem opta por adquirir um automóvel como meio de transporte a sensação de pagar por um conforto questionável. Ao mesmo tempo em que o consumidor adquire a comodidade de “não esperar por ônibus ou ir a pé”, ele assume uma série de despesas relacionadas aos custos do veículo (manutenção, seguro, estacionamento, impostos, etc). E isso não garante que se irá chegar antes ao destino ou se desgastar menos, já que os conflitos entre motoristas são até mais frequentes que eventuais discussões em um terminal de ônibus lotado.

Eventos como o Desafio Intermodal de Curitiba, do Projeto Ciclovida, do Núcleo de Psicologia do Trânsito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), já mostraram que a bicicleta reina absoluta em relação a diferentes percursos de até 10 quilômetros de distância. Com uma velocidade de 15 km por hora no pedal, quem opta por esse modal perde 40 minutos no deslocamento e, fazendo esse trajeto de bicicleta seis vezes por semana, acaba poupando mais de R$ 350 no mês. Se a ideia é fazer a pé o trajeto, a economia é ainda maior, já que não tem o desgaste da bicicleta, porém, o tempo médio de deslocamento aumenta em três vezes, mas ainda é viável dependendo da rotina e das condições meteorológicas.

Tendo essa diferença entre o tempo médio gasto a pé e de bicicleta, dá para usar o simulador do site do Projeto Ciclovida (www.ciclovida.ufpr.br) para verificar se a opção é viável dentro da sua rotina. Os usuários do transporte coletivo também conseguem visualizar o quanto podem economizar em passagens. “Dependendo da linha, o tempo entre a espera pelo ônibus e a chegada ao destino, até mesmo a pé o usuário tem vantagens. Além disso, para distâncias inferiores a 10 km, o valor da passagem acaba sendo muito caro, mesmo se comparado ao automóvel”, sugere o coordenador do Programa de Extensão Ciclovida da UFPR, José Carlos Belotto. Para o deslocamento de 10 km, durante seis vezes por semana, quem troca o ônibus pela bicicleta ou os pés economiza R$ 142,56 por mês.

Estrutura na contramão

Além dos fatores tempo e dinheiro, quem opta por um meio de transporte coletivo ou por ir a pé ou de bicicleta contribui para um trânsito melhor para toda a sociedade. Entretanto, em muitos aspectos a falta de investimentos em ciclo rotas e calçadas acabam indo na contramão dessas iniciativas. Um levantamento do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) detalhou que há mais de quatro mil quilômetros de vias para pedestres na cidade, dentre as quais apenas 30% contam com o chamado calçamento definitivo. E desse grupo, boa parte das calçadas em “boas condições” estão concentradas na área central de Curitiba.

Comodidade ou mobilidade?

O economista e professor da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Carlos Magno Bittencourt, acrescenta que, além da clara diferença de custos entre as opções de modais, o benefício que o transporte individual deveria proporcionar a quem gasta mais para ter um automóvel é cada vez mais comprometido pelo crescimento da frota em Curitiba.

“Costumo dizer que estão comprando algum conforto e luxo, mas perdendo cada vez mais a mobilidade”, alerta.

Além dos gargalos do trânsito em vários pontos da cidade que concentram escolas, universidades, supermercados e shoppings, os motoristas se submetem a longos períodos de espera para conseguir deixar os estacionamentos superlotados, e na maioria dos casos dispendiosos, de tais estabelecimentos.

“Muitos não se dão conta que o tempo perdido no estacionamento é inferior que a espera, por muitas linhas de ônibus da cidade”, compara o professor.