João de Noronha / GPP
João de Noronha / GPP

Severina, ao lado de duas filhas
e da neta: "muita fé em Deus".

Tranqüilidade e otimismo. A essas características dona Severina de Aragão Gomes atribuiu sua chegada aos cem anos de idade, ontem, com saúde plena e mente sã. A ex-professora é pernambucana e, além do sertão, já morou também no Paraguai e no Chile, até se estabelecer em Curitiba há quase um ano e meio. Mulher de fibra e cheia de lucidez, a centenária Severina já viu guerras, mudanças no cenário político, econômico e social do País, passando pelo medo de ser perseguida pelo lendário Lampião, o eterno Rei do Cangaço que, entre outras características, não gostava de professores.

?Eu tinha muito medo dele; rezava para não ir até lá?, conta, relembrando o tempo em que lecionava na cidade de Santa Maria da Boa Vista, interior de Pernambuco, nas primeiras décadas do século passado, quando o cangaceiro andava pelos arredores em defesa dos sertanejos, movido contra o coronelismo que imperava no Nordeste. Pequena, mas determinada – hoje tem 1,35m de altura, diminuídos pela idade avançada -, dona Severina ama fazer crochê e preencher palavras cruzadas, o que a família considera uma grande habilidade.

Ela também surpreende com a facilidade que tem para se comunicar. Os ouvidos falham, a memória tropeça, mas ela sabe o que a mantém viva até hoje sem remédios e com pressão arterial e colesterol em dia. ?Sempre tenho que descansar um pouco depois das refeições?, dá a dica.

A família se antecipa em dizer a fórmula do sucesso. ?Apesar de fazer muito exercício, ela sempre comeu bastante frutas e é muito equilibrada e disciplinada?, garante a filha Dilma Gomes de Rezende, a última de três filhos. ?Ela reza todos os dias, faz muitas orações?, completa a outra filha, Maria do Carmo de Aragão. Para dona Severina, fé é fundamental. ?Tenho muita fé em Deus?, o que, como ela mesma define, significa ?ter confiança no que se faz?.

Aos 100

Dona Severina faz parte de uma estatística que não pára de crescer no Brasil e no mundo. De 1991 até 2000 – de acordo com o último censo do IBGE -, o número de centenários no País teve um aumento de 77%, passando de 13.865 para 24.576 pessoas. Em todo o planeta, as previsões apontam para um aumento dessa população em 15 vezes, contando a partir do final do século passado até a metade deste. Uma constatação que, para o geriatra Emerson Fischer, tem a ver com o desejo de viver mais e os meios de prever complicações com a saúde. ?Hoje trabalhamos com a geriatria preventiva. Observamos o histórico familiar e nos preocupamos com alguns dos maiores problemas dos nossos tempos: a má alimentação e o stresse?, explica.

Características que, pelo perfil de dona Severina, ele acredita terem passado bem longe. ?Sua personalidade tranqüila contribui 100% para ter chegado aos cem anos. O estresse desencadeia uma série de doenças, sendo a maior causa do número de enfartos?, avalia.

O médico atribui às palavras cruzadas, que parecem sem importância, um dos maiores segredos para sua lucidez e vitalidade. ?Exercitar a cabeça é uma de suas maiores virtudes, porque a atividade cerebral diminui os riscos de doenças como o mal de Alzheimer?, enfatiza. Questionada sobre o que significam as palavras cruzadas, ela responde: ?É para passar tempo.? Tempo que, para essa centenária, passou sem levar embora a saúde, disposição e vontade de viver sempre mais um dia.