Pedro Sampaio e a família
convivem com o esgoto a céu aberto.

A falta de qualidade na habitação é um dos problemas que mais atinge a sociedade moderna. Até cidades anteriormente conhecidas por seu padrão de vida mais elevado, hoje sofrem com a migração e a conseqüente “favelização”. Curitiba e sua Região Metropolitana não fogem dessa realidade. Segundo dados da Companhia de Habitação de Curitiba (Cohab), existem 262 ocupações irregulares na capital. Fora essas ocupações, existem mais 39 loteamento clandestinos.

Segundo o coordenador de regularização fundiária da Cohab, Marco Aurélio Becker, 23 dessas áreas foram regularizadas até este mês. “Hoje a Cohab não mais compra áreas invadidas, ela serve como uma espécie de fiadora, intermediária do negócio. Mas são os próprios moradores que pagam pelas terras”, explicou, destacando que a prioridade não são ocupações e sim as famílias que estão na fila para adquirir um lote urbanizado.

Conforme Becker, a capital paranaense tem 12% de sua população, ou seja, 50 mil famílias, morando em áreas de ocupação. Todavia, esse número vem se mostrando estável nos últimos anos. “É um percentual alto, mesmo assim ainda bem menor que outras capitais como São Paulo e Rio, por exemplo”, disse.

Região Metropolitana

Os números da Cohab referem-se apenas à capital, mas a Região Metropolitana também passa por uma situação parecida ou até pior. Pedro de Freitas Sampaio, de 32 anos, é pedreiro e há dez anos mora na Vila Zumbi dos Palmares, em Colombo, Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Ele contou que comprou o terreno de um antigo morador, mas não tem título nenhum garantindo a posse do imóvel. “Minha única confirmação é o talão da água”, revelou. Por sinal, as condições em que Sampaio, sua esposa e sua filha vivem, passam longe das ideais. Ele tem água encanada, porém as valetas com esgoto a céu aberto que passam em frente à sua casa causam um grande mau cheiro. “O cheiro é realmente muito ruim”, reclama, citando como outro exemplo de falta de infra-estrutura da região a energia elétrica. “Aqui só temos “gatos?. Queria poder ter luz legalizada e que eu pudesse pagar.”

Ainda esperançosos que as administrações estadual e federal venham resolver o problema, ele contou que, à noite, a família nem toma banho de chuveiro porque a energia de noite fica muito fraca, quase com a metade da intensidade normal. “Temos que nos lavar em uma bacia”, revelou, destacando ainda que já viu várias casas se incendiarem devido às ligações clandestinas.

A falta de segurança é outro problema. “Não saio de noite. Confesso que mesmo morando há bastante tempo aqui não conheço bem a vila”, disse, esperançoso de conseguir morar num local melhor. Entretanto, aí surge um problema. Trabalhando como pedreiro autônomo e vendendo algodão-doce, ele não consegue mais do que R$ 300,00 mensais. “O grande problema é conseguir um emprego fixo”, revelou.

Sonhos

Mesmo morando em condições difíceis, os moradores de áreas de ocupação não deixam de sonhar. A dona de casa Laudelina Carneiro, 55 anos, tem um sonho muito próprio: “Quero um dia ter um sítio”. O anseio justifica-se pelo fato dela ser uma mulher ligada ao campo. Há seis anos Laudelina veio do interior de Mato Grosso, onde vivia num sítio. “Aqui as casas são todas apertadas, uma em cima da outra. Lá havia espaço, era bem melhor”, reclamou, queixando-se também das valetas a céu aberto e da energia elétrica. “Quanto à segurança, graças a Deus, nem eu nem meus filhos tivemos problema. Mas é porque eles vão de casa para o trabalho, do trabalho para a igreja, da igreja para casa de novo. Mesmo assim todo dia a gente ouve tiros e sabe de gente morta aqui”, destacou.