O governo do PT, muito preocupado em barrar a CPI do Banestado sob a alegação de que a apuração da remessa ilegal da assombrosa quantia de trinta bilhões de dólares ao exterior já está sendo investigada pelo Ministério Público e Polícia Federal, passa a enfrentar o fogo cruzado também da ala intelectual do partido. Nomes de peso que antes davam respaldo incondicional às ações nem sempre coerentes da agremiação, agora se dizem dispostos a tudo para fazer brecar a reforma da Previdência que está, como dizem, demonizando o funcionalismo público.

Se contra os companheiros que detêm mandato popular a ordem é o enquadramento, o que fazer contra a metralhadora de pessoas como o jurista Fábio Konder Comparato, a filósofa Marilena Chauí, o geógrafo Aziz Ab?Saber e outros que passaram a comandar atos de protesto tendo como palco a Universidade de São Paulo – USP? No entanto está vindo deles a parte mais dura das críticas até aqui já recebidas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Eles prometem “uma ação política” como responsabilidade histórica para “impedir o colapso, o fracasso e a direitização de um governo de esquerda que está lá porque nós o construímos”.

Uma das propostas é a realização de um referendo nacional para fazer a proposta de reforma da Previdência passar pelo crivo de toda a população. “Nenhum órgão do Estado tem competência – segundo dizem – para reduzir as garantias estabelecidas na Constituição”. Se falhar o referendo, o jeito será provocar o Poder Judiciário com uma ação direta de inconstitucionalidade. A convocação é clara: todos os movimentos devem concentrar esforços “numa luta técnico-jurídica para impedir essa reforma”.

Os intelectuais convocam todos os que elegeram Lula a lutar contra a “colossal contradição que se instalou no governo: de um lado, uma política externa independente e democrática jamais vista antes; de outro, todo o peso da estabilização financeira e monetária recaindo sobre as camadas mais pobres da população”. Mas que Lula, encantado com sua performance lá fora, não se engane: os outros países não ouvem ninguém com sinceridade. Ao propor a reforma da Previdência, que era um item da agenda de FHC, o governo abre uma brecha que tende a se tornar um abismo a separá-lo de sua base política. Alguns intelectuais classificam o projeto de reforma previdenciária como “crime nacional”, um “engodo de reforma” à qual todos precisam dizer não.

Segundo os analistas inconformados, Lula está equivocado mesmo quando diz que está semeando para colher depois. Ele está semeando tempestades, dispara o sociólogo engajado Otávio Iani. Críticas não são poupadas nem contra a Central Única dos Trabalhadores, que está sendo vista como muito complacente com o governo. Mesmo assim, nas passeatas e protestos contra a reforma previdenciária, é a CUT e seu know-how que predominam. Lula é prisioneiro de seus próprios companheiros. E corre o risco – segundo já dizem analistas políticos como o também engajado Francisco de Oliveira – de tornar-se um “refém da direita”.

Não é bem assim. Seria mais adequado dizer que tanta conversa decorre de fortes ligações desses críticos com as estruturas distorcidas de direitos atribuídos ao funcionalismo público que tem na senadora Heloísa Helena sua nova musa, a ponto de lançá-la candidata a presidente do Brasil. Essa reforma, segundo ela, já simulando campanha, é uma farsa. Não tem compromisso com os pobres nem com os oprimidos, e nem com a concepção programática de aparelho de Estado do PT. “Atende a uma canalha que não sabe enfiar um prego numa broa.”