Quais as explicações para a queda de Ciro Gomes e o crescimento de José Serra nas pesquisas de intenção de voto? A principal delas é seguramente a influência do programa eleitoral ou, para ser mais exato, o ataque tucano ao perfil do ex-governador do Ceará. Mas a propaganda negativa tem eficácia? Depende do tipo de abordagem. Quando o ataque tem substância, envolvendo questões centrais de caráter e personalidade do atacado, torna-se pertinente e é aceito pelos telespectadores. Quando atinge valores como a honra e transborda pelos porões da baixaria, afundando nos compartimentos da intimidade, o ataque é rejeitado. No caso do ataque de Serra a Ciro, os casos relatados abrigaram atitudes e comportamentos do candidato, que precisam ser conhecidos pela sociedade, até porque o governo de uma Nação implica não apenas a eficácia de programas mas a qualidade do comando. E comando de gestão tem a ver com estilo, caráter, personalidade, atitudes.

O povo não gosta de insinuações maldosas que detratem a figura, ou seja, da crítica adjetivada, amparada em presunções ou futricas da vida pessoal. Há que se separar, portanto, aspectos da vida privada e da vida pública dos candidatos, apesar de se saber que esses limites são muito tênues. O ataque de Serra a Ciro levou em consideração situações onde o atacado foi colocado na ponta da incoerência e da dubiedade. Ciro disse coisas que não correspondiam à verdade e desferiu pontadas que provocaram celeuma. Estabeleceu-se uma dissonância cognitiva, que é a dúvida massificada. Quando esse fenômeno ocorre, as pessoas tendem naturalmente a equilibrar seu pensamento, procurando respostas para as incertezas. A voz de Ciro, colocada em xeque, funcionou como bumerangue contra ele. A manobra tucana surtiu efeito.

O erro do candidato do PPS foi abrir demasiadamente o flanco. Ao bater boca com um rapaz negro, acabou mobilizando uma entidade de defesa racial. Xingou meios de comunicação, jornalistas e um cidadão, a quem chamou de burro pelo fato de ele ter se referido ao presidente da Suíça, que Ciro negava existir. O cidadão tinha razão. De outra feira, mandou o mercado se lixar. Ora, ninguém atravessa a trilha da campanha incólume depois de tantos ataques. A retirada de apoio a Ciro por parte de fatias do eleitorado era previsível, a partir do momento em que as situações negativas foram noticiadas e ganharam ampla repercussão. Ou seja, ele acabou criando a corda onde começou a se enforcar.

Poderá recuperar os pontos perdidos? É possível, mas isso vai depender da forma como responderá aos ataques. Se fizer comparações entre propostas, demonstrando que as suas são mais viáveis que as de Serra, poderá abrir espaços positivos. Se cair no revide, os ataques recíprocos acabarão se chocando no ar, anulando-se reciprocamente. Nesse caso, a campanha negativa atingirá a imagem dos dois. Se responder com a moeda da incoerência de Serra, exibindo contradições e mentiras propaladas pelo tucano, terá condições de recuperar pontos. A condição de vítima, com a ancoragem carismática de Patrícia Pillar, é uma faca de dois gumes. Poderá comover certos núcleos populares, mas contrariar grupamentos mais centrais, orgânicos, localizados nos espaços de formação de opinião, que começam a abandonar o barco cirense.

Ainda é cedo para apostar na continuidade de crescimento da candidatura Serra. Pode-se, isso sim, constatar que o tucano conta com grande simpatia dos meios de comunicação do Sudeste e de fortes núcleos de formação de opinião, a partir de setores fortes do empresariado. Essa posição equivale a de uma pedra no meio da lagoa, que forma ondas que se propagam até as margens. Portanto, até por volta de 10/15 de setembro, o segundo turno será uma incógnita, pelo menos quanto ao candidato que disputará com Lula. A posição olímpica do petista, que, por enquanto, parece muito confortável, não deve ser comemorada pelo PT. Lula aparou arestas, fez a lição de casa, arrumou o discurso, transformou-se de leão raivoso em cachorro amoroso, abre sorrisos ao vento e desfralda a bandeira do “lulinha ? paz e amor”. Mas o segundo turno será uma guerra sem fronteiras. Trata-se de uma segunda eleição, com motivações novas, clima diferente e eleitores mais atentos aos dois perfis em exibição.

A esta altura, a única certeza a ser expressa é a de que, seja qual for o presidente eleito, terá forçosamente de obter um monumental colchão social. Sem o apoio da sociedade organizada, sem o apoio do Congresso, estará de mãos atadas. E próximo ao despenhadeiro. Essa é a boa novidade. Não há mais motivo para se temer virada abrupta de mesa. Nesse país, não há mais lugar para aventuras. E nem para Príncipes, Césares ou Bonapartes.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político. E-mail:

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