Foto: Lucimar do Carmo/O Estado

Di Lascio: O tímido que precisa conviver com outras pessoas no trabalho pode se sentir perturbado.

Chegar em um lugar estranho, sem qualquer pessoa conhecida. Ter de ir na frente de uma platéia e falar em público. Essas são duas situações que causam nervosismo e ansiedade para os tímidos. Vencer esta barreira e superar a confusão de sentimentos não é simples. Muitas vezes, a pessoa precisa de ajuda para não deixar a timidez provocar sérios danos nas relações sociais.

A pessoa tímida é mais reservada e constantemente se sente envergonhada. Muitas vezes fica ruborizada quando fala com alguém ou está em uma situação diferente. Pode abaixar os olhos e não encarar quando conversa com alguém. Possui muita dificuldade em se expressar. Apesar disso, timidez não é uma doença.

Segundo o presidente do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP/PR) e coordenador do curso de Psicologia da Universidade Federal do Paraná, Raphael Henrique Castanho Di Lascio, todo mundo tem um pouco de timidez. Os níveis variam, mas sempre vai existir uma situação em que até uma pessoa extrovertida acaba se sentindo retraída.

A timidez está diretamente relacionada com o medo, a ansiedade e a vergonha. E essa combinação de fatores pode afetar as relações sociais. ?O tímido que precisa conviver com outras pessoas no trabalho, por exemplo, pode se sentir perturbado. Não consegue fazer parte de um grupo, não consegue participar?, afirma Di Lascio.

Mas, muitas vezes, os tímidos não são compreendidos. Diante disso, se calam ainda mais. ?A timidez pode afetar a vida profissional e a pessoal porque pode impedir a pessoa de ter um relacionamento saudável ou sucesso na profissão. Obtêm isto as pessoas que conseguem se expressar?, explica a psicóloga Eliane Padilha da Silva.

A timidez também causa a queda na auto-estima. O medo de ser ridicularizado ou julgado pelo grupo pode fazer com que o tímido não tenha confiança nele mesmo. ?Em grande parte dos casos de timidez, a baixa auto-estima está presente. Quem tem uma consciência maior do que é capaz, consegue dar conta. O tímido pode começar a se isolar porque não consegue lidar com isso. O isolamento é até uma forma de defesa?, comenta Eliane.

Timidez surge durante o desenvolvimento da pessoa. Casos na infância e na adolescência podem agravar ainda mais o quadro. Di Lascio cita o exemplo das crianças que são reprimidas, mas deveriam ser estimuladas. Com isso, a criança se torna retraída em uma das fases mais importantes de seu desenvolvimento. Na adolescência, este risco se torna ainda maior, segundo o presidente do CRP/PR. ?A vergonha na adolescência é ainda maior do que na infância?, conclui.

E o grande problema dos jovens tímidos, em uma fase de constante aprovação, é usar artifícios para ficarem mais soltos e, conseqüentemente, serem mais aceitos pelo grupo  a que pertencem. Ou acreditam que possam entrar em um grupo por causa disso. Estes artifícios seriam o álcool e as drogas. ?Eles podem tentar encontrar na bebida e nas drogas a alternativa para se soltarem mais por justamente não saberem lidar com esta timidez e essa dificuldade em se relacionar. E isso acontece muito na adolescência. As drogas e o álcool liberam aquele freio. Só que são agentes químicos. O uso sistemático pode se tornar um vício?, alerta Di Lascio.

O sinal de alerta dos tímidos deve ser ligado quando a timidez impede qualquer tipo de relacionamento. A pessoa prefere se isolar a se expor, independentemente da situação. ?Quando a timidez atrapalha demais, pode evoluir para uma fobia social. O tímido não consegue ultrapassar a barreira do fazer. O normal é ter ansiedade, mas também enfrentá-la. Quando o medo é maior que ele é porque existe uma situação complicada. O tímido pode chegar a desenvolver até Síndrome do Pânico?, diz Di Lascio.

A terapia é indicada em alguns casos de timidez, como os descritos acima. Mas ainda há muito preconceito em procurar ajuda. ?Ser tímido não significa ser louco. Dá para enfrentar tudo isso. Procurar um profissional pode auxiliar o tímido a conviver com qualidade de vida. Precisa vencer esse mal-estar e buscar o bem-estar?, decreta o presidente do CRP/PR.

Emprego forçou atendente a superar seus medos

Foto: Lucimar do Carmo/O Estado

Loreci: minha preferência era encontrar alguma coisa que não necessitava de qualquer contato.

Apesar daquele nervosismo, das mãos tremendo, da ansiedade que toma conta de todo o corpo, às vezes é preciso enfrentar esse medo. De maneira forçada. Foi isso o que aconteceu com a atendente Loreci Libardi Campanha, de 22 anos. Ela lida diariamente com o público e há seis anos desempenha esta função. ?Aceitei o emprego porque eu realmente precisava. A minha preferência era encontrar alguma coisa que não necessitava de qualquer contato. Mas, depois do medo inicial, tudo deu certo?, conta. Nos primeiros dias no emprego, Loreci tremia antes de atender um cliente. Porém, como precisava trabalhar, acabou superando o medo no dia-a-dia.

A atendente sempre foi tímida. A timidez foi um fator muito desgastante para ela na adolescência, quando saiu de Coronel Vivida, na região sudoeste do Estado, para morar em Curitiba. ?Fiquei muito retraída, ainda mais com aquela história de um lugar diferente, de pessoas diferentes, de uma cidade muito maior do que está acostumada. Tinha 13 para 14 anos. Foi uma fase muito difícil. No colégio, era complicado. Uma menina ou outra vinha puxar conversa. Mas era só isso. Ficava na minha, até que eu comecei a me enturmar?, relembra.

Loreci já superou muito daquela ansiedade que sentia. Mas o turbilhão de sentimentos confusos pode voltar quando precisa falar em público. Só de imaginar, a atendente já sente aquele friozinho na barriga. ?Até hoje, eu não dou muito a minha opinião, geralmente fico quieta na maioria dos lugares. Com o tempo você vai conhecendo as pessoas e isso muda. Mas ainda há determinadas situações em que fico retraída. Sempre foi assim, mas hoje convivo muito melhor com a minha timidez?, declara.