Buenos Aires (Argentina) – Entrar numa sala de votação da Argentina é como fazer uma viagem ao passado. Diferentemente dos brasileiros, que há mais de dez anos votam em urnas eletrônicas, bastando apertar alguns botões, os argentinos encontram uma grande quantidade de cédulas espalhadas sobre uma mesa, como mostra a foto ao lado. Dependendo dos candidatos escolhidos, precisam até fazer recortes.

Impressas numa espécie de papel jornal, as cédulas são fornecidas pelo partidos políticos, ou coligações, e ficam dispostas lado-a-lado numa sala à qual só o eleitor tem acesso. Contêm os nomes dos respectivos candidatos aos diversos cargos em disputa, separados por linhas que podem ser pontilhadas ou não.

Se quiser votar no candidato de um partido para presidente, outro para governador e outro ainda para deputado, por exemplo, o eleitor precisa recortar as respectivas cédulas na linha divisória e colocar os pedaços correspondentes num envelope, que é depositado na urna. A urna fica fora da sala de votação, ao lado dos mesários e fiscais dos partidos.

Mas e se o eleitor cortar errado e rasgar a cédula? E se resolver colocar duas ou mais de um mesmo candidato no envelope? E se colocar no bolso, ou na bolsa, as cédulas do candidato de que não gosta para que o eleitor seguinte não possa votar nele?

Hernan Capeluto, fiscal da Frente para a Vitória ? da presidente eleita Cristina Kirchner ?, explica que cédula rasgada não é necesariamente um problema. Se aparecer o número da coligação, o voto será válido, ?mesmo que todo o resto esteja cortado?.

A segunda situação, diz ele, é resolvida na hora da apuração. Se houver cédulas de dois candidatos para o mesmo cargo, o voto é anulado. Se houver duas do mesmo candidato, uma é jogada fora e a outra é contabilizada. Leva-se em conta que o eleitor pode ter feito isso por engano, e não necessariamente por má fé.

Quanto aos roubos de cédulas, houve denúncias de vários candidatos de oposição, de que isso teria ocorrido especialmente em redutos eleitorais de Cristina Kirchner. No dia da eleição, o ministro do Interior, Alberto Fernandez, disse que a responsabilidade é dos fiscais dos partidos. Foi um dia conturbado, em que filas enormes se formaram em alguns colégios eleitorais e a votação teve de ser prorrogada por uma hora na capital federal.

O Brasil começou a fazer experimentos de informatização eleitoral nos anos 80, e a urna eletrônica como se conhece hoje começou a ser usada nas eleições municipais de 1996. Saiba mais.

O tema foi comentado por candidatos e integrantes da Suprema Corte argentina. Uns defendem a instituição do voto eletrônico para evitar fraudes e agilizar o processo. Outros consideram o sistema atual mais seguro, por permitir que fiscais dos partidos acompanhem a apuração.

Brasil e Argentina firmaram um acordo em 2003 para utilização de urnas eletrônicas brasileiras. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foram emprestadas mil urnas: 710 para serem de fato utilizadas no pleito e 290 para treinamento de eleitores. O Brasil também possui acordos do gênero com Equador, Paraguai e México, além de contatos com diversos outros países. Saiba mais.