São Paulo, (AE) – Médicos de 12 estados já suspenderam os atendimentos às seguradoras de planos de saúde. A principal reivindicação da categoria é estabelecer em R$ 42 o valor mínimo de reembolso por atendimento. Segundo o Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, a média nacional é de R$ 31. E uma boa parte da quantia ainda é gasta em tributos e despesas com consultório – 50%, segundo a Associação Médica Brasileira (AMB). “Há nove anos não temos reajuste”, afirma Eleuses Vieira de Paiva, presidente da entidade.

A Federação Nacional de Empresas de Seguro (Fenaseg), que representa as seguradoras de saúde, nega intransigência nas negociações com os médicos. O diretor-adjunto de Saúde da Fenaseg, Otelo Corrêa dos Santos Filho, diz que a entidade se surpreendeu com a reação dos especialistas que unilateralmente resolveram não mais atender como médicos referenciados, descumprindo acordo assinado com as seguradoras. “Não se trata de má vontade das seguradoras ou de descaso com as reivindicações dos médicos”, diz.

Os primeiros profissionais a suspender atendimento pelos planos foram os baianos (14 mil médicos), há 70 dias. Na Bahia, o impasse tem prejudicado mais de 300 mil clientes de planos de saúde.

Os mineiros são os mais recentes. O Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG) informou, há dois dias, que cerca de 12 mil médicos da região metropolitana de Belo Horizonte aderiram ao movimento. Segundo Jáder Campomizzi, primeiro-secretário do CRM-MG, as seguradoras pagam atualmente, em média, R$ 25 por consulta médica no Estado. Estima-se que 600 mil pessoas sejam conveniadas a seguros de saúde em Minas. “Trata-se de uma mobilização histórica da categoria”, avalia.

Em Pernambuco, o Movimento pela Dignidade Médica foi deflagrado há cerca de quatro meses, como forma de pressionar as operadoras a estabelecer nova classificação de especialistas e de procedimentos médicos. Os médicos do Estado concentram atualmente o embate com duas seguradoras que detêm a maior fatia do mercado.

Há pelo menos dez dias, o Conselho Regional de Medicina do Paraná orientou seus filiados a cobrarem dos pacientes o valor médio de R$ 50. “Emitimos recibo e ele vai ao grupo para ser ressarcido”, disse Hélcio Bertolozzi Soares, presidente da Comissão Estadual de Honorários Médicos.

Os médicos do ABC Paulista, que suspenderam atendimentos no dia 10, formam hoje um dos maiores blocos. “Conseguimos fazer que 80% da classe suspendesse os atendimentos”, diz o psiquiatra Romildo Gerbelle, um dos líderes na região. A idéia no ABC é cobrar dos pacientes o mesmo valor reivindicado (R$ 42).

Quem paga? – Mas nem sempre é assim. Há três semanas, a cabeleireira Magda Pereira Labadessa pagou o valor integral da consulta quando foi levar a mãe ao ginecologista. “Descobri no consultório que ele não trabalhava mais com meu plano e tive de pagar R$ 150. É muito dinheiro. Quem paga o plano é a empresa para o qual meu marido trabalhou. Ele está desempregado e tem só mais seis meses de carência”, relata. “Depois, liguei para a operadora e só me disseram que o médico estava descredenciado e deveria procurar outro.”

Caso parecido ocorreu em Minas com o assistente Anderson Leonardo Marques. Há um mês, ele se submeteu a uma cirurgia de estômago. Na hora de retornar ao médico, descobriu que teria de pagar pela consulta: “Decidi adiá-la”, conta.

É justamente isso que tem ocorrido. Os usuários recebem recibos para ser reembolsados pelos próprios planos de saúde. Com a cabeleireira, a regra também não funcionou. “Nunca tive o ressarcimento”, diz Magda.

Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) indicam que 38,6 milhões de brasileiros têm plano de saúde, ou seja, 21 3% da população. Só em São Paulo, há 16,8 milhões de segurados (43,5% da população). No Estado estão 51,5% das operadoras de planos de saúde (1.173 das 1.802 do País).

Pesquisa do Dieese mostra que, em sete anos, o reajuste das mensalidades dos planos foi de 248%. Recentemente, a ANS autorizou aumento de 11,45% dos planos para os segurados. A idéia é de que as empresas possam reajustar a tabela dos médicos.

“As reivindicações dos médicos são justas, mas é impraticável reajustar de uma vez só o valor dos atendimentos”, diz Arlindo Almeida, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo.

Está marcada para depois de amanhã na sede da ANS, no Rio, uma reunião entre representantes das operadoras e dos médicos.