Brasília, 20 (AE) – Na conversa de duas horas que teve hoje com a cúpula governista do PMDB, no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu ampliar o espaço do partido em seu governo. Fez apenas uma exigência aos peemedebistas em relação à reforma ministerial que ele só realizará depois da eleição dos presidentes da Câmara e Senado, em 14 de fevereiro: não quer negociar mais nada com a governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Matheus (PMDB), nem com o marido dela, Anthony Garotinho. "Não tenho mais nenhuma esperança de entendimento com Garotinho", disse Lula ao presidente do Congresso, José Sarney (AP), e aos líderes no Senado, Renan Calheiros (AL), e na Câmara, José Borba (PR), todos do PMDB.

Garotinho, que teria o controle dos votos de 13 deputados do PMDB fluminense, entrou na lista negra do Planalto depois de ter comunicado ao partido, hoje, que seus seguidores não votarão no candidato oficial do PT a presidente da Câmara, deputado Luiz E duardo Greenhalgh (SP). Lula, que decidira adiar a reforma ministerial justamente para evitar que as mudanças interfiram na sucessão do Congresso e dificultem ainda mais a vida de Greenhalgh, já teria dado o troco a Garotinho mandando o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, desautorizar a antecipação de R$ 350 milhões de pagamento de royalties de petróleo ao governo do Rio. O pagamento havia sido negociado pela cúpula do PMDB com o Planalto.

"Não vou abrir esse grave precedente de governar e negociar sob pressão", afirmou Lula, segundo um dos presentes. Apesar do veto a Garotinho, o presidente definiu a relação cooperativa que deseja manter com outros governadores do PMDB. O primeiro lembrado foi o gaúcho Germano Rigotto, a quem Lula se referiu como "um homem de bem".

Ao contrário da governadora Rosinha, que prega o rompimento com o Executivo federal em apoio ao marido, candidato ao Planalto contra a reeleição de Lula em 2006, Rigotto tem defendido a entrega dos cargos ao governo federal pelo PMDB, mas sem o partido a bandonar a base de sustentação do governo no Congresso.

Os peemedebistas disseram ter ouvido de Lula que compreende as dificuldades do Rio Grande do Sul e que recomendara a Palocci que tratasse bem o Estado. Lula disse confiar também nos governadores peemedebistas Luiz Henrique, de Santa Catarina, e Roberto R equião, do Paraná.

Segundo dirigentes do PMDB, a iniciativa da reunião de hoje foi do presidente Lula, que na semana passada propôs a Sarney e Calheiros uma conversa sobre a reforma ministerial. José Borba foi chamado na última hora.

Assim que soube que estava fora da lista de convidados, ainda na noite de quarta-feira, o deputado tratou de avisar aos dois senadores que a bancada da Câmara não acataria nenhum eventual acerto com o Planalto se não houvesse um representante seu na conversa de hoje.

Como o aviso incluía não só a reforma ministerial, mas também os interesses do governo na eleição de Greenhalgh, Sarney agiu rápido. Acionou o ministro da Casa Civil, José Dirceu, que telefonou hoje cedo para Borba e lhe fez o convite oficial para a reunião.

O presidente falou de sua intenção de abrir mais espaço ao partido no Executivo federal e agradeceu a contribuição positiva das bancadas do PMDB na Câmara e Senado durante seu governo. Mas não deixou claro se optará por conceder à legenda um terceiro min istério, além de Comunicações e Previdência Social, ou fortalecer as estruturas já comandadas por peemedebistas.

"A conversa não foi conclusiva, porque ele não quer que a reforma interfira na sucessão do Congresso", explicou Renan, à noite, já de volta ao Senado. "O presidente não deixou claro o tamanho da reforma nem quem vai sair ou entrar no ministério, mas deixou transparecer que já está com a reforma ministerial pronta na cabeça", completou.

Mas Lula deu pistas de pelo menos um critério que será usado na redução da cota de poder do PT. Disse que em se tratando de seu partido, não tem intenção de manter quem vai deixar o governo em abril do ano que vem, para disputar as eleições de 2006. Lula comentou também que a permanência ou eventual saída dos ministros do PMDB – o senador Amir Lando (Previdência) e o deputado Eunício Oliveira (Comunicações) – ficará a critério dos líderes e das bancadas do Senado e da Câmara, que, segundo Renan e Borba, serão consultadas.

Embora Renan defenda abertamente a ida da senadora Roseana Sarney (PFL-MA) para o ministério, o assunto não foi tratado na reunião. Segundo Borba, o senador Sarney, pai de Roseana, pediu para que a questão não fosse discutida em sua presença, para não lh e criar constrangimentos. "O presidente Sarney não advoga em causa própria", resumiu Borba.

Lula aproveitou para cobrar de Renan um pedido que fizera ao líder na última conversa que tiveram: que convidasse o ministro da Integração, Ciro Gomes (PPS), para ingressar no PMDB. O presidente quer manter Ciro em sua equipe, mas o ministro vem sendo pr essionado pela direção do PPS a deixar a pasta ou desfiliar-se do partido, que saiu da base governista. Renan confirmou que o convite foi feito, já há um mês, mas que o ministro não demonstrou interesse em trocar o PPS pelo PMDB.

Além de trabalhar nos bastidores para ganhar, na reforma ministerial, a presidência da Infraero, o PMDB movimenta-se para conseguir cargos que nem foram criados, como uma nova diretoria da Petrobrás no segmento de gás. Um interlocutor do presidente Lula explica que o PMDB passou a sonhar com o controle da distribuição de gás líquido no País desde que foi informado de que o governo quer intensificar o uso deste combustível assim que entrar em operação, na Bacia de Santos (SP), a maior reserva de gás desc oberta em território nacional. Mas o interesse do partido pelo cargo é pragmático: a cúpula peemedebista já sabe que a nova diretoria vai administrar um orçamento mais gordo do que o da maioria dos ministérios, movimentando recursos na faixa de R$ 1 bilhão.