O Brasil tem uma experiência amarga de relações perigosas diplomáticas, econômicas e políticas com a Bolívia. Desde que assumiu a presidência do país vizinho, o líder cocaleiro Evo Morales, com apoio expresso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, começamos a ter problemas com os investimentos brasileiros em território boliviano, notadamente em prospecção, produção e fornecimento de gás natural e petróleo. As refinarias brasileiras chegaram a ser tomadas pelas forças armadas bolivianas e o fornecimento, para nós imprescindível, de gás natural foi seriamente ameaçado.

Acabamos por fazer um acordo de venda de instalações da Petrobras a preços impostos pelo governo boliviano e que não atendem aos interesses da nossa estatal e do nosso País. Desde então, todas as relações com Evo Morales e seu governo dão a sensação de que estamos pisando em areia movediça. Não obstante, o governo brasileiro decidiu fazer novos investimentos na Bolívia, mantendo, senão estreitando, as relações que se revelaram perigosas.

Inegável que por detrás dessas relações, além dos vitais e legítimos interesses econômicos brasileiros, estão as simpatias ideológicas. O governo do Brasil chegou a defender o suposto direito do governo boliviano de agir como agiu, não obstante tenha sido frontalmente contra os interesses brasileiros.

Essas relações perigosas, quantitativamente e mesmo qualitativamente de forma diversa, mas de qualquer forma traduzidas por associações em empreendimentos, o governo Lula mantém também com o governo Hugo Chávez, da Venezuela. Aqui, a situação é diversa, pois há também investimentos conjuntos venezuelano-brasileiros em território nacional. Mas se multiplicam os nossos interesses que estão à mercê do atrabiliário presidente venezuelano. Chávez percorre uma trajetória política de esquerda, populista e abusada, intrometendo-se nos assuntos externos dos países da América Latina, com pretensões de hegemonia e implantação do que decidiu chamar de Revolução Bolivariana. Age, em sua política interna, como um ditador, embora tenha sido contido por uma consulta popular que lhe negou o desejado terceiro mandato. Mas desapropria, expropria e interfere abertamente até mesmo na eleição de presidentes de outros países.

É conhecido o episódio da detenção de um avião enviado a Buenos Aires com uma enorme quantidade de dólares para financiar a eleição da atual presidente da Argentina, Cristina Kirchner, fato abafado nas plagas portenhas, mas que tem curso em Miami, onde um processo judicial já levou envolvidos à cadeira, alguns deles venezuelanos. O dinheiro, segundo as autoridades judiciais norte-americanas, era contribuição do governo da Venezuela que buscava lançar tentáculos sobre mais um país latino-americano.

Mais uma ligação perigosa. E que é perigosa prova a notícia de que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ameaça expropriar a siderúrgica Ternium-Sidor, que nacionalizou recentemente, se até hoje não for concluído um acordo com a proprietária argentina Techint sobre o valor das ações. ?Não vou pagar quatro, nem três bilhões de dólares, se não se chegar nas próximas horas a um acordo justo. Na terça-feira assino o decreto de expropriação e tomamos o controle da siderúrgica?, disse Chávez à imprensa.

O grupo argentino Techint possui (ou possuía) 60% das ações da siderúrgica, a principal da região andina e do Caribe, através da Ternium, portanto, uma empresa de grande porte, inclusive em termos internacionais.

Assim, as relações entre a Argentina e a Venezuela, como as nossas com a Bolívia e também com a Venezuela, se mostram perigosas, pois não asseguram nem a nacionalidade dos capitais aplicados, nem mesmo sua propriedade. Os humores de um ditador, se em mau dia, podem passar por cima de intenções de parceria até mesmo ideológica, para avançar sobre os bens do país parceiro. Hoje é a Argentina. Amanhã poderá ser o Brasil.