A relação da Argentina com o Brasil, ao longo destes dois anos de governo do presidente Néstor Kirchner, teve todas as características de um romance esquizofrênico, oscilando de declarações de amor a brigas de pratos quebrados. Os flertes foram intensos e o namoro começou tórrido. Mas, poucos meses depois de iniciada, rompeu-se algo nesta relação – que perdura entre afagos (cada vez mais mornos) e tapas. O vínculo começou no início de 2003, quando Kirchner ainda era candidato à presidência da República. Eduardo Duhalde, na época presidente da República e padrinho político de Kirchner, pediu ao presidente Lula que recebesse seu "delfim", que precisava desesperadamente uma foto a seu lado para construir uma imagem de "estadista internacional". Lula, que na época tinha neste país uma imagem positiva maior do que os próprios políticos argentinos, o recebeu em abril.

Um mês depois, Kirchner era empossado como presidente. O presidente Lula veio para sua posse. Nas fotos, sorrisos e abraços. Os analistas políticos afirmavam que havia nascido uma nova "dupla dinâmica". Mas o idílio só perdurou até agosto. Nesse mês, Kirchner manteve duras – e decisivas – negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI). "El Pingüino" recebeu o apoio telefônico do chileno Ricardo Lagos e do mexicano Vicente Fox. Mas, de Lula, sequer um e-mail, afirmaram na época na Casa Rosada. Kirchner – homem passional e rancoroso, melindrou-se com a falta de apoio explícito do presidente brasileiro.

Em outubro, Lula veio à Argentina para uma breve visita. Após a insistência de Kirchner, concordou em viajar até os confins da Patagônia, na província de Santa Cruz, para fazer uma foto com "El Pingüino" na frente da geleira Perito Moreno, em El Calafate. Ali, saborearam o "cordero patagônio", uma quitute local intensamente divulgada por Kirchner, originário dessa região.

Após o repasto, tudo indicava que a relação entrava novamente nos trilhos. Mas, nos meses seguintes, o destino foi outro. Kirchner, por meio de seus assessores, começou a atender os pedidos protecionistas – contra a entrada de produtos Made in Brazil – realizados por diversos setores empresariais, reunidos principalmente na União Industrial Argentina (UIA). Esses pedidos intensificaram-se a partir de julho do ano passado, quando Kirchner anunciou medidas contra a entrada de eletrodomésticos brasileiros.

De lá para cá, Kirchner exibiu sua indisposição com Lula na reunião de países do Grupo do Rio e à cúpula de presidentes sul-americanos realizada na cidade peruana de Cuzco. Ambas reuniões eram prioridades para Lula. Mas Kirchner, seu principal sócio estratégico, preferiu não comparecer.

Simultaneamente, na área comercial Kirchner ficou mais "duro" com o Brasil, especialmente a partir de setembro, quando apresentou uma proposta para implementar um sistema para evitar "assimetrias" econômicas entre os dois países. No último mês, o presidente engajou-se pessoalmente nos protestos de fabricantes de calçados argentinos contra a importação proveniente do Brasil.

Desde o início deste ano, além dos conflitos comerciais, Kirchner também começou a incomodar-se com o protagonismo de Lula na região. A gota d’água foi a ativa participação brasileira no desenlace da recente crise política do Equador. Poucos dias depois, Kirchner teve que engolir em seco quando viu que a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, visitava o Brasil, Chile e Colômbia, mas excluía a Argentina do roteiro.

De quebra, o governo Lula intensificou sua campanha para conseguir uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. Kirchner opõe-se categoricamente à esta aspiração. Seu vice-chanceler, Jorge Taiana, afirma que isso provocaria "desequilíbrios" e instabilidades na região.

Outro fator que causa urticária em Kirchner é o avanço das empresas brasileiras no território argentino, controlando grandes parcelas dos mercados de combustíveis, cerveja, cimento e distribuição de energia elétrica.

Assessores dos dois governos explicam esta turbulenta relação com um clichê: "em todo casal apaixonado sempre acontecem brigas…se não houvesse paixão, não existiriam discussões".