Internos do Instituto Paranaense de Cegos (IPC) promoveram uma manifestação ontem, em frente à escola de educação especial Osni Macedo Saldanha, na Avenida Visconde de Guarapuava, no Batel, em Curitiba. A intenção era protestar contra irregularidades que, segundo eles, estão ocorrendo no instituto desde que a atual interventora, Maria Regina de Melo Boscardin, assumiu sua função, em maio de 2000. O IPC existe há 63 anos.

No local, estão cerca de 65 internos de ambos os sexos, entre idosos, enfermos e onze crianças vindas da Angola. Eles temem que o instituto possa fechar no início do próximo ano. “Já chamaram alguns de nós no departamento de assistência social e disseram que, a partir do ano que vem, vamos ter que sair da entidade”, comenta o interno Paulo Roberto Bueno. “Ouvimos comentários de que o instituto vai se transformar em uma casa-dia para deficientes visuais, mas ninguém nos explica como e porque isso vai acontecer.”

De acordo com Roberto, desde que a interventora assumiu, há problemas de higiene e alimentação na entidade. “A enfermaria do instituto, por exemplo, não é limpa diariamente e os enfermos acabam abandonados”, denuncia. “A comida está vindo de fora. Às vezes, os alimentos ficam três ou quatro dias guardados antes de serem distribuídos, o que faz com que eles acabem estragando.”

Os internos reclamam do não pagamento das contas de água e luz há vários meses. “Acreditamos que a dívida já chegue a R$ 34 mil e tememos de ficar sem água e luz”, denuncia Roberto, que se queixa também da falta de atividades que preencham o tempo livre e ocupem os internos.

Roberto também diz que os funcionários do instituto estão sem pagamento de férias, com salários atrasados e sem receber vale transporte. A funcionária Maria de Lurdes Leal, que trabalha no instituto desde 1965, confirma que a situação da entidade está complicada. “Saímos de férias, mas não recebemos”, diz, acrescentando que o vale-transporte é insuficiente. “Em alguns dias, não temos como pegar ônibus para trabalhar.”

Interventora

A interventora do instituto, Maria Regina de Melo Boscardin, nega que as denúncias sejam verdadeiras. Segundo ela, existe medo quanto as mudanças que irão ocorrer, a partir do ano que vem, na entidade.

Maria confirma que o instituto está desenvolvendo um trabalho junto às famílias dos internos, para que eles sejam reintegrados às suas casas. Assim, os deficientes visuais poderão passar o dia em atividades promovidas pelo instituto e, no final da tarde, voltar para casa para passar a noite com os parentes. Só os que não têm família continuarão dormindo no local.

A interventora repila os problemas quanto aos salários, comida e garante que os enfermos têm assistência 24 horas e que a entidade oferece atividades como coral, cerâmica, artesanato, musicoterapia, inglês, espanhol e fisioterapia, evitando que, como foi dito, os deficientes visuais se mantenham na ociosidade.

Quanto às contas de luz e água, Maria admite que elas estão atrasadas e explica que isso está acontecendo porque, nos últimos tempos, o número de pessoas que faziam contribuições à entidade diminuiu. “Nossa arrecadação mensal fica entre R$ 10 mil e R$ 12 mil. Para nos manter, precisamos de no mínimo R$ 45 mil. Por isso, entramos na Justiça e pedimos para que a cobrança fosse suspensa, pois não estamos tendo condições financeiras de pagar as contas.”