A continuidade das reformas, após a aprovação da Previdência, abrirá caminho para que o Brasil tenha condições de voltar a crescer 4% até o fim do mandato do presidente Jair Bolsonaro, em 2022. “Tenho uma expectativa muito positiva. Estou sendo realista com as potencialidades que existem no Brasil”, disse Octavio de Lazari, presidente do Bradesco, em Nova York.

Para Lazari, uma parte da reforma tributária deve ser aprovada pelo Congresso no primeiro semestre de 2020, especialmente porque a interlocução entre os Poderes Executivo e Legislativo está muito boa. “Ambas as Casas do Poder Legislativo têm consciência de que temos pressa. E todos sabem que, se ela não for aprovada até junho, o risco de não ser aprovada ano que vem será muito grande devido ao calendário eleitoral.”

Com a reativação da economia, ele também vê maior demanda por novos financiamentos. A previsão é que a carteira de crédito para grandes empresas avance mais de 5% em 2020. “Tenho viajado o País inteiro e as empresas estão com projetos excepcionais na gaveta e esperam uma sinalização mais forte do governo para investir.”

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

O Bradesco projeta que o Brasil vai crescer 0,9% neste ano, 2,2% em 2020 e 3% em 2021. Quais são os fatores que vão motivar esta expansão do Brasil?

Este ano o País crescerá 0,9%, talvez com alguma melhora no último trimestre do ano. A perspectiva e os sinais de avanço da economia são importantes. Temos estimativa de expansão do PIB de 2,2% para 2020 e poderíamos atingir 2,5% no ano seguinte. Vai depender da reação do mercado. A reforma da Previdência já passou no Congresso e temos expectativa positiva para as outras, entre elas a administrativa e, sobretudo, a tributária, até pelo trabalho dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).

O sr. acredita que a reforma tributária será aprovada?

No caso da reforma tributária, se não for possível passar o ótimo, que seja pelo menos o bom, que é a proposta escalonada do governo. Existe mais de uma proposta no Congresso. Precisamos ter a sabedoria para verificar que elas têm sugestões positivas, como a do Bernard Appy (ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda). Também depende do que ocorrerá no mundo, pois há problemas na América Latina, como no Chile, no Peru, na Argentina e na Venezuela.

Se a interlocução está boa, por que o governo e o Poder Legislativo não têm posição comum?

Isso não atrapalha em nada a interlocução. O governo, sabendo das dificuldades de uma reforma tributária, que é mais complexa do que a da Previdência, está sendo mais parcimonioso e apresentando a proposta em etapas. Maia acredita que dá para conseguir um pouco mais. Se ele entender que cabe uma reforma mais ampla, dará continuidade a ela. A reforma tributária precisa ser aprovada no primeiro semestre do ano que vem, por causa da agenda eleitoral do segundo semestre. Ambas as Casas do Poder Legislativo têm consciência de que temos pressa. E todos sabem que, se ela não for aprovada até junho, o risco de não ser aprovada no ano que vem será muito grande, devido ao calendário eleitoral.

O sr. acredita que a aprovação da reforma tributária no primeiro semestre de 2020 terá o foco na simplificação de cinco impostos: PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS?

Isso é o mínimo desejável. Mesmo que não se consiga fazer as outras mudanças agora, que se consiga realizar esta alteração. Nós sabemos que não vamos diminuir impostos agora, mas só reduzir estes custos na gestão das empresas será muito importante.

Quais serão os efeitos que o País registrará a partir da aprovação da reforma tributária?

Teremos uma boa melhoria de ambiente de negócios no Brasil, principalmente de empresas e investidores estrangeiros. Imagine o CEO de uma empresa multinacional quando enfrenta a complexidade de fazer investimentos no País com a cadeia tributária. O ânimo para investir será outro com uma simplificação tributária. Isso diminuirá o tamanho das equipes dedicadas exclusivamente para lidar com impostos e também o risco de litigância nesses problemas, que muitas vezes levam a discussões intermináveis na Justiça.

Nesse contexto, o Brasil poderá ter ‘upgrade’ das agências internacionais de rating em 2020?

A nossa expectativa e a do governo é de que o Brasil terá upgrade (elevação) no próximo ano pelas agências internacionais de rating. Olhando o cenário nacional e do mundo, e o que os investidores estão precificando para o CDS do País, ao redor de 130 pontos, o Brasil já merece uma nota diferente.

Com a aprovação da reforma tributaria, o câmbio pode ficar abaixo de R$ 3,90 em 2020?

Sim, pois a questão tributária é um entrave muito sério para investimentos no País. Se este obstáculo for retirado, mesmo parcialmente, a expectativa de volta de capital estrangeiro para o Brasil é muito grande. E com uma enxurrada de dólares no País, o câmbio deixará de estar pressionado.

A partir da aprovação da reforma tributária, quando o Brasil voltará a crescer 4%?
Se formos bem em 2020, crescendo a uma faixa entre 2,2% e 2,5%, para 2021 há um sinalizador de crescimento muito mais forte, inclusive se forem resolvidos problemas no mundo, como conflitos da China, o Brexit na Inglaterra, a América do Sul se acalmando. E o Brasil tem um papel fundamental neste trabalho. O País tem de ser protagonista para ajudar a colocar panos quentes nesta ebulição social que ocorre nos países da região. Temos de reivindicar este protagonismo e o papel de ser agente de crescimento e fiador das diversas discussões no mundo, como a do comércio internacional.

É viável o Brasil crescer 4% até o final do governo do presidente Jair Bolsonaro em 2022?

Com certeza. Acho que até 2021 isto pode acontecer. Eu tenho uma expectativa muito positiva, estou sendo realista com as potencialidades que existem no Brasil.

Qual é o cenário do Bradesco para a concessão de crédito às grandes empresas?

Tenho viajado o País inteiro e as empresas estão com projetos excepcionais na gaveta e esperam uma sinalização mais forte do governo para investir.

Em quais áreas?

Há investimentos no Brasil que têm uma atratividade especial, como os relativos às áreas de infraestrutura, construção civil, energia e saneamento, cujo marco regulatório está praticamente resolvido. Tenho convicção de que o cenário de crédito para grandes empresas será muito melhor em 2020 do que neste ano. O crescimento da carteira de crédito do Bradesco para grandes companhias deve ficar em torno de 3% a 4% neste ano. Para 2020, não temos o guidance ainda, mas deve ser maior que 5%.

Como o sr. avalia a concorrência dos bancos públicos com o BBI, inclusive com a atuação da Caixa e a unificação dos negócios do BB com o UBS?

No caso do banco de investimento, nenhuma empresa faz mais nenhum lançamento de papel isoladamente, pois atua em um pool de bancos. O que temos visto é que estão vindo vários bancos estrangeiros e nacionais para atuar nesta área. Acho que o Banco do Brasil tem uma equipe fortalecida, a Caixa está montando sua equipe agora e pode vir a atuar também, faz parte do jogo. Nós vamos dividir o mesmo bolo e teremos de aprender a ter um pedaço menor, mas ganhar na escala.

Qual é a estratégia para enfrentar a concorrência?

É ter uma equipe muito diferenciada. O Bradesco mostrou isto no seu banco de investimentos e estamos liderando o ranking de emissões neste ano. O Bradesco tem balanço para emprestar dinheiro para estas empresas, o que é muito importante para apoiar seus investimentos.

Como está o processo de compra do banco BAC, na Florida?

O Banco Central do Brasil já aprovou a aquisição. No dia 25, teremos uma reunião com as autoridades americanas sobre o BAC para esclarecer algumas dúvidas, o que é normal neste processo e está dentro do timing que esperávamos. Há 99% de chances que durante o primeiro trimestre do próximo ano a operação esteja totalmente aprovada pelas autoridades dos EUA.

Qual deve ser a estratégia internacional do Bradesco em 2020?

Nossa estratégia internacional está montada. Temos escritórios muito bem posicionados em Cayman e Luxemburgo. Há a compra do BAC nos EUA para atender nosso cliente private naquele país e também para poder realizar captação em dólares para atender necessidades de crédito dos clientes corporativos no Brasil. Estamos olhando com muito carinho o mercado de Portugal, não temos lá um escritório.

O Bradesco está em busca de outras aquisições pelo mundo, além do BAC?

Não, até porque ao olhar pelo mundo, os bancos europeus, como na Alemanha, estão gerando uma rentabilidade de 6%, 7% ao ano, nos EUA 12% ao ano. Estamos entregando 20% de rentabilidade no Brasil. Qualquer aquisição neste nível, quando ocorre a equivalência contábil, diminui o retorno no Brasil. Não há nenhuma possibilidade no momento de fazer novas aquisições fora. Vamos nos posicionar localmente para atender nossos clientes.

O que o sr. espera para o mercado de fusões e aquisições no próximo ano?

Este mercado está se aquecendo. Tivemos agora recentemente o anúncio da Marfrig e tem a venda da participação do BNDES na JBS. O BNDES tem um calendário muito forte de privatizações, que deve ser acelerado pelo seu presidente. Há uma expectativa de que 2020 será muito bom para este mercado.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.