Os líderes financeiros dos países ricos e pobres do planeta começaram a chegar ontem a Dubai, para a reunião do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, que tem como pano de fundo as disputas internacionais sobre a desigualdade do desenvolvimento, comércio e as taxas de câmbio. Cerca de 14 mil delegados de 184 países participarão nesta reunião anual, a ser realizada na terça e quarta-feira próximas pela primeira vez em um país árabe e que irá examinar a situação econômica mundial, que o FMI e o BM pintam com cores um pouco mais otimistas, depois da guerra no Iraque.

Dubai (AFP) – Este encontro – um dos poucos que reúne os responsáveis pelas finanças de países ricos e das nações pobres ou em vias de desenvolvimento – está precedido, assim como em anos anteriores, por discussões entre os chefes da Economia do grupo dos sete países mais industrializados, o G-7.

Esse grupo (Estados Unidos, Alemanha, Japão, Canadá, Itália, França e Grã-Bretanha) abordará hoje alguns problemas pendentes que agitam e esquentam a agenda econômica internacional, entre eles a desigualdade e fragilidade da recuperação econômica que começa a surgir, segundo o FMI.

Em seu relatório bianual divulgado na véspera em Dubai, o Fundo informou que a economia mundial está se recuperando, com um crescimento de 3,2% este ano e de 4,1% em 2004, mas esta reativação é desigual e frágil.

Segundo esse documento sobre as “Perspectivas econômicas mundiais”, os Estados Unidos são a locomotiva dessa retomada, seguidos pela zona euro, que continua como espectadora dessa recuperação.

É dentro dessa perspectiva que o tema “taxa de câmbio” aparece como um dos mais polêmicos no G-7. E “certamente” será um dos temas abordados pelos representantes financeiros dos sete países, informou em Dubai uma fonte ligada ao grupo.

“Uma das delegações propôs que as taxas de câmbio, principalmente o dólar, sejam mencionadas no texto final” da reunião, disse a fonte, que descartou que se faça uma referência explícita ao nível do dólar em relação ao euro, ou a algum país em particular.

A queda do dólar em relação ao euro representa um tema espinhoso no G-7 porque é uma das razões evocadas pela Europa para explicar a debilitação de suas economias, cujas exportações foram prejudicadas pelo vigor da moeda única européia, que as deixa menos competitivas.

Ainda assim, a reunião de Dubai acontece em um momento em que se tornaram mais densas as pressões para uma maior flexibilidade financeira da China, cuja moeda, o iuane, acoplada ao dólar, é considerada como muito desvalorizada.

Essa desvalorização do iuane aumenta a competitividade do país asiático, que se transformou em um dos maiores exportadores do mundo e que inclusive está superando países como México, cujo setor industrial tem no mercado americano seu principal cliente. Os Estados Unidos – cujos intercâmbios comerciais com a China representaram no ano passado quase um quarto do déficit comercial americano – estão à frente dos países que têm pressionado para uma maior flexibilidade da taxa de câmbio. Acredita-se que o G-7 fará uma menção, ao menos implícita, a esse problema.

Em seu relatório, o FMI já lançou um pedido a favor de uma maior flexibilidade das taxas de câmbio, voltado principalmente para os países asiáticos.

Outro tema que pesará sobre o relativo otimismo com que se abre esta reunião é o dos gigantescos déficits de contas correntes de alguns países, entre eles Estados Unidos, o que pode colocar em risco, segundo economistas, a recuperação.

Outro tema que estará muito presente em Dubai será o recente acordo entre o FMI e Argentina, que deve ser aprovado hoje nesta cidade às margens do Golfo Pérsico.

Köhler escancara FMI ao Brasil, de novo

O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Horst Köhler, disse ontem que num possível novo acordo entre o Brasil e esse organismo haveria espaço para a inclusão de metas sociais e que os investimentos em infra-estrutura sejam excluídos da meta de superávit. Quanto à adoção de uma política fiscal anticíclica – reduzir o tamanho do superávit primário quando a economia está em recessão – ele disse que ainda não é o momento.

“Nós, obviamente, estamos atentos à inclusão de metas sociais (num possível novo programa). Não tenho hesitação alguma em dizer que continuamos dando atenção a esse assunto, e é claro que temos de colocar isso no contexto da estabilidade macroeconômica”, disse Köhler, em entrevista coletiva.

Sobre a política fiscal anticíclica, sugerida pelo ministro do Planejamento, Guido Mantega, o diretor-gerente do Fundo disse que se trata “de uma interessante idéia teórica”, que teria de esperar um pouco mais para ser colocada em prática:

– Como bons economistas nós sempre estamos abertos a essas idéias. Mas, a esta altura, devemos nos concentrar em buscar credibilidade, em fortalecer mais a credibilidade, de forma que não haja confusão.

Perguntado sobre a questão os investimentos, ele demonstrou flexibilidade:

– Em primeiro lugar, o Brasil precisa de melhor investimento em infra-estrtura. E nós esperamos, e achamos, que esse elemento pode ser incorporado num novo programa – disse Köhler.

Antes de responder às questões, ele fez questão de elogiar mais uma vez o governo brasileiro:

– Eu queria aproveitar a oportunidade para deixar claro que estamos profundamente impressionados com as realizações do presidente Lula e de sua equipe econômica nesses poucos meses desde que assumiram o governo. Vocês podem notar isso, em particular, nos decisivos cortes das taxas de juros. Um novo programa com o FMI depende apenas do governo. Se quiser conversar conosco a esse respeito, estamos prontos porque achamos que o Brasil merece ter uma história de sucesso na América Latina. O Brasil merece isso por causa da agenda deste presidente, e o FMI está comprometido a participar dela.