A decisão da União Européia de proibir a importação de carne bovina de vários estados do Brasil por causa da febre aftosa pode reduzir até 60% a quantidade vendida para os países comunitários, garantem fontes do setor. O Comitê Permanente da Cadeia Alimentar da União Européia vetou a entrada de carne desossada e maturada dos estados de Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo proveniente de animais abatidos a partir de 30 de setembro. Mas poderão continuar exportando os estados de Minas Gerais (com exceção de alguns municípios), Espírito Santo, Santa Catarina, além de parte de Goiás e do Mato Grosso.

Com o embargo da UE, pelo menos 34 países já suspenderam a importação de carne do Mato Grosso do Sul, incluindo oito dos dez maiores clientes do Brasil. Além dos 25 países da União Européia, Rússia, Inglaterra, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Chile, Israel e África do Sul – esses três últimos embargaram o produto proveniente de qualquer parte do território brasileiro – também decidiram suspender as compras. As restrições impostas por esses países ameaçam a meta oficial de exportar este ano US$ 8 bilhões em carnes e derivados.

Recursos

O Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues, ao desembarcar em Eldorado (MS), evitou qualquer comentário sobre uma ação criminosa em torno do acontecimento, dizendo que ?até que seja provado o contrário, vou encarar o fato como acidente?. Em seguida, anunciou que já estão destinados R$ 3,5 milhões em verbas, acrescentando que ?este valor deve ser elevado na próxima semana?.

Rodrigues confirmou ainda que, neste momento, o Brasil deve realizar ações coordenadas nos estados e dividir a responsabilidade pelo surgimento do foco de aftosa com o governo federal. Ele responsabilizou o governo por não ter remetido recursos suficientes para os estados responsáveis por realizar as ações em cada região. O trabalho de defesa sanitária teria R$ 79 milhões em todo o País, mas apenas R$ 12 milhões deste total foram usados.

Ele defendeu ainda que somente uma análise técnica é que vai definir onde surgiu o foco de aftosa em MS. ?Quero agora ter uma certeza técnica. Se não tiver uma certeza técnica eu não acredito?, disse, acrescentando ter esperanças de que o Brasil vai superar esse episódio.

O ministro falou ainda sobre a queda nas exportações, por conta do embargo.

?Haverá uma clara redução nas exportações de carne do Brasil em um curto prazo de tempo. Como podemos ver pelas barreiras de todos os países que compram nossos produtos?, afirmou. O ministro definiu ainda o surgimento do foco como uma fatalidade. ?É óbvio que em países que são considerados livres de doenças possam surgir focos. Temos como exemplo a Inglaterra, que também teve febre aftosa e os Estados Unidos que tiveram a vaca louca. Mas estamos tomando todas as medidas necessárias?, explicou.

Medidas suficientes

Apesar dos embargos, o presidente do Fórum Nacional dos Órgãos de Sanidade Agropecuária (Fonesa), Altino Rodrigues Neto, informou que o governo considera as medidas sanitárias adotadas até o momento suficientes para evitar que a doença se espalhe a outros rebanhos. Foram sacrificadas quase 600 cabeças de gado da fazenda onde foi detectado o foco. E está impedido o trânsito de animais e produtos que saiam de Eldorado e de outros quatro municípios vizinhos.

Na região, técnicos do estado e do ministério da Agricultura fazem exames laboratoriais para detectar se o vírus que atingiu o rebanho da fazenda Vezozzo é uma variante do tipo ?O?. Eles também investigam o motivo do surgimento do foco, mesmo depois da vacinação do gado de todo o estado na campanha de maio.

Missão

Uma missão brasileira seguiu ontem para Paris (França) onde participa de reunião com representantes da Organização Internacional de Saúde Animal para mostrar que o problema só atinge o Mato Grosso do Sul. Isto porque a OIE suspendeu a resolução que aponta o estado como livre da doença.

O surgimento do foco de febre aftosa já está mexendo com o mercado. Em apenas três dias após a confirmação do foco, do qual já havia indícios desde o final de setembro, o preço da arroba (11,5 quilos) de carne bovina caiu de 52 para 48 reais na Bolsa de Gêneros Alimentícios. Na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), os contratos registraram queda pelo segundo dia ontem, de 3,5%, o máximo permitido.

Austrália não deve renovar importação

A Austrália não deve restaurar um protocolo que permite a importação de carne do Brasil, afirmou uma autoridade nesta quarta-feira, ampliando a lista de países banindo a carne brasileira. As últimas importações de carne brasileira pela Austrália, principal competidor do Brasil nesse mercado no mundo, foram uma remessa para testes com alguns milhares de quilos em dezembro, informou um porta-voz do órgão de inspeção australiano.

Contudo, o protocolo do governo australiano que permitia a importação de carne do Brasil foi suspenso logo depois, por preocupações sobre a febre aftosa. O protocolo está agora em revisão e não deve ser retomado, segundo o porta-voz australiano.

O Brasil, maior exportador mundial de carne bovina, informou na segunda-feira ter identificado um foco de febre aftosa em uma fazenda no Mato Grosso do Sul. O governo comunicou a possibilidade de existir um segundo foco da doença no estado, que abriga o maior rebanho bovino do país, com cerca de 25 milhões de cabeças. A proibição de carne brasileira já ocorria nos Estados Unidos, Japão, Coréia e Taiwan antes da última descoberta de um caso de febre aftosa.