O dólar vai comer boa parte dos ganhos que a Petrobras poderia ter com o corte de investimento anunciado na última semana. A estatal informou que vai contratar 20% menos do que o previsto neste e no próximo ano, mas, no cálculo, utilizou a moeda americana. De fato, em reais, a queda será bem menor, de 11,8% nos dois anos, segundo Flávio Conde, da consultoria What’s Call.

Ao mercado, a petroleira divulgou corte de investimento de US$ 28 bilhões para US$ 25 bilhões em 2015, o que representa uma queda de 10,7%. Para o ano que vem, a redução será ainda mais drástica: de US$ 27 bilhões para US$ 19 bilhões, 29,6% menos. Após quatro dias do anúncio sobre o corte, a estatal revelou as premissas utilizadas na adequação nos valores deste e do próximo ano no Plano de Negócios e Gestão 2015-2019. O câmbio considerado foi R$ 3,28 para este ano e R$ 3,80, para 2016.

Com esse patamar de cotação, o corte ganha outra proporção, segundo Conde. Em reais, cai para 5,5% neste ano e 18% em 2016. O mesmo acontece com as contas relativas a gastos gerenciáveis, do dia a dia da companhia, que também foram reduzidos. Em vez de uma retração de 12,3% nos dois anos, como informado pela Petrobras, de fato, em reais, o corte será de 3,4%. Na média, entre redução de investimento e de gastos gerenciáveis, a redução em moeda nacional será de 7,5%. No início da semana, a Petrobras informou queda de 16,1%, em dólar.

“A Petrobras tem receita em reais, gera caixa em reais e, portanto, qualquer redução tem que ser informada primeiro em reais e depois, se quiser, em dólares”, ressaltou Conde. Em sua opinião, o anúncio do corte em dólar “fez parecer que o corte era maior. Mas, observando os números em reais, é possível perceber que não é bem assim”.

Conde classifica a redução de gastos como “louvável”, mas acrescenta que não é suficiente, diante do tamanho do problema que a Petrobras enfrenta. O principal problema da petroleira é o seu alto grau de endividamento, de R$ 513 bilhões, no fechamento do terceiro trimestre deste ano, pelos cálculos de Conde – os dados oficiais ainda serão divulgados, no balanço financeiro da empresa. Em suas contas, o economista projeta um dólar médio no período de R$ 3,966.

Além da premissa de dólar, a companhia divulgou a projeção para o preço médio do barril do petróleo neste e no próximo ano, que foi usada para definir os cortes nos investimentos. Para 2015, a cotação é estimada em US$ 54 e, para 2016, em US$ 55.

O economista-chefe da RC Consultoria, Thiago Biscuola, considera as projeções “razoáveis”. “Em um horizonte mais previsível, a tendência é que a cotação oscile nessa faixa no ano que vem, no mesmo padrão deste ano. Se não houver uma crise política, a tendência é que os preços se mantenham nesse patamar”, afirmou. Ele avalia que, ao ser conservadora, a Petrobras acerta, porque, se o preço fechar acima do previsto, “a empresa sairá ganhando”.